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terça-feira, 9 de setembro de 2008

A arte como reflexo dos processos de transformação social

L'Embarquement pour L'iale de Cythère
Antoine Watteau


Por meio da arte, particularmente representada pelo quadro de Antoine Watteau, Embarque para a Ilha de Citera, Norbert Elias, em seu ensaio A peregrinação de Watteau à Ilha do Amor, faz uma análise do processo de mudança social que vai do Antigo Regime francês, encabeçado pelo Rei-Sol Luis XIV, até início do século XX. A ilha de Citera, enunciada na obra, era símbolo de uma imagem do desejo, uma utopia secular, o lugar onde o amor poderia ser vivido plenamente sob as bênçãos da deusa do amor. O revigoramento do mito na modernidade evidencia o vínculo não rompido entre a antiguidade e o nosso tempo.
O quadro seria reflexo de um período de transição, no qual os súditos do velho rei ansiavam pela libertação de seu governo opressor. Quando Watteau faz os primeiros rabiscos da obra, trabalho que deveria ser elaborado como requisito resultante de sua admissão na Academia Real, em 1712, o rei estava idoso e doente. Ao concluí-lo, em 1717, o rei já havia falecido.
Segundo Elias, o clima sombrio da época de Luis XIV  juntamente com o clima festivo da regência de Luis XV podem ser percebidos no quadro, que evidencia também a passagem do estilo austero do barroco para o alegre e frívolo rococó. O pintor era, como a maioria dos artistas da época, proveniente de uma família de classe inferior, e conseguiu ascensão por meio do patrocínio da aristocracia de corte que, por sua vez, era quem ditava as regras do gosto artístico.
Entretanto, com a ascensão da burguesia, cujo marco decisivo foi a Revolução de 1789, a classe artística se vê livre da tutela da nobreza e pôde, então, se auto-declarar especialista em questões de bom gosto. Nota-se, assim, uma gradativa transformação no sentido de que não é mais o público consumidor que determina a produção artística, mas é o artista que passa a ditar os padrões literários e artísticos.
Durante o período imediato pós-revolução, o quadro de Watteau foi alvo de críticas e rejeitado por ser, segundo o gosto burguês, representativo de um período no qual predominava a futilidade. O rococó era, na concepção da burguesia, a expressão mais exata da superficialidade e dos excessos que devem ser superados.
Contudo, ainda que fossem lentas e encontrassem resistências das gerações mais velhas, as inovações sempre aconteciam. Assim, na segunda metade do século XIX, o quadro de Watteau foi redescoberto e transformado em objeto de culto por um grupo de livres pensadores denominado Círculo da Rue de Doyenné. O grupo ansiava, acima de tudo, reviver a época de Luis XV, com suas festas e roupas elegantes. A ilha de Citera volta à tona idealizada como o paraíso do amor.
A utopia leva Gerard Nerval, um dos principais nomes do círculo, a fazer uma viagem à ilha e, conseqüentemente, a ter um encontro com a realidade. O que presenciou não tinha nada a ver com o que fora sonhado. De acordo com Elias, a viagem de Nerval e, por conseguinte, sua frustração, é paradigmática do clima de pessimismo que se instaura no fim do século XIX. Desse modo, conclui Elias, a fantasia de Citera, assim como o quadro de Watteau, tornaram-se o ponto de partida para o problema do contraste entre o belo sonho e a dura realidade, “o predomínio das utopias ideais cede lugar às utopias do medo e da angústia”.

domingo, 3 de agosto de 2008

Crítica social em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"



            Memórias póstumas de Brás Cubas revela a capacidade impar de Machado de Assis de expor especificidades da formação cultural brasileira de um modo que só os mais atentos leitores são capazes de perceber. É como se Brás Cubas, personagem-título, fosse a síntese daquilo que era socialmente apreendido pelo autor, sobretudo em sua convivência com pessoas das 
classes mais altas.

             O romance é narrado em primeira pessoa por um defunto-autor e não por um autor-defunto, como ele faz questão de frisar com o objetivo de convencer o leitor que o fato de ser uma obra póstuma torna sua narrativa absolutamente confiável, já que um morto não necessita distorcer os fatos. Mas, um burguês brasileiro não é confiável nem depois de morto. Isso fica evidente em algumas partes da narrativa. Como, por exemplo, no episódio do seu enterro, onde ele procura mascarar sua insignificância justificando que o fato de haver poucas pessoas no seu cortejo era em decorrência de muitos não terem sido avisados e/ou por causa do mau tempo.

             Basicamente, o livro relata a história de um sujeito que não conseguiu fazer realmente nada de significativo na vida. Contudo, não é a vida insípida da personagem principal que torna o romance fascinante, mas o modo como essa história é contada. O autor usa a ironia como principal recurso para trazer à tona padrões de comportamento característicos da sociedade brasileira, especialmente da elite dominante que queria se mostrar moderna, adotando, no discurso, idéias e postura européias, mas defendendo, na prática, a manutenção de um sistema retrógrado . Assim, as relações de Cubas com outras personagens revelam dissimulação, jogo de interesses, um desejo sempre presente de se dar bem, ainda que lançando mão de estratagemas nada éticos.

        Brás Cubas é o típico burguês brasileiro. Se, geralmente,  na obra machadiana percebemos uma visão do homem, no sentido universal, destituída de otimismo, em Memórias póstumas é como se ele estivesse nos dizendo que, se esse homem fosse um burguês brasileiro, poderia ser ainda pior. O cinismo com o qual o personagem conduz sua vida, e que faz questão de deixar claro na narrativa, evidencia que nada pode afetar profundamente àqueles que não dependem do seu suor para comer, mesmo que todos os seus empreendimentos fossem frustrados. A mais terrível das tragédias, para a burguesia nacional, seria depender do próprio trabalho para sua sobrevivência. Daí o protagonista do romance poder afirmar, depois de listar seus fracassos, que “coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto.”

          Embora Machado de Assis construa seu personagem considerando um contexto cultural específico, deixa claro que as causas da miséria humana não estão circunscritas a uma cultura ou circunstância histórica. A miserabilidade é inerente à condição humana, é o que o autor deseja demonstrar em sua última negativa: “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Todavia, parece que a acentuação dos vícios ou das virtudes, que torna a vida mais ou menos miserável, pode depender da estrutura social de cada sociedade.

             O livro não aponta caminho algum, a não ser o da aceitação da existência com tudo que isto implica. Se tiveres a sorte de nascer burguês, tanto melhor, antes ser Brás Cubas do que ser Dona Plácida que sempre teve que trabalhar para comer. Entretanto, apesar de todo ceticismo que o autor revela por meio da postura do protagonista diante da vida, no modo como  escreve parece haver uma indicação daquilo que, para ele, pode ser a nossa única forma de salvação: o senso de humor.