quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Uma aprendizagem em Clarice Lispector




A obra de Clarice Lispector influenciou significativamente no desenvolvimento do meu gosto pela literatura. Lendo-a, encontrei, de certa forma, a mim mesma. Não que eu mais do que as outras mulheres me identifique com a autora. Em Clarice todas as mulheres podem se ver e todos os homens têm a possibilidade de comprovar que nós, de fato, somos seres complexos, mas não totalmente indecifráveis. A única exigência para entrar no universo da escritora é um nível mínimo de sensibilidade. Uma pessoa que tenha uma mentalidade absolutamente pragmática não está preparada para aprender tudo que ela tem para ensinar. Mais do que falar de dilemas femininos, Lispector deseja mostrar uma maneira de perceber o mundo, de viver a vida de modo intenso, mas sem cair na tentação das frivolidades que não nos dignificam. Em seu romance intitulado Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres, ela nos propõe de forma clara um caminho para o auto-conhecimento que só é possível por meio da relação com o outro.
A heroína do romance é Lóri, ou melhor, Loreley, moça proveniente de uma família rica que perde parte da fortuna. O pai e os irmãos, dos quais se desligara, viviam em Campos, cidade do interior do Rio de Janeiro. Ela morava na capital e trabalhava como professora primária. Totalmente voltada para si mesma, não queria estabelecer vínculos mais fortes com ninguém; não esperava e nem buscava nenhuma alegria extrema para sua vida. A única concessão eram alguns casos esporádicos com homens pelos quais não corria risco algum de se apaixonar. É através de Ulisses, um professor de filosofia, que Lóri inicia sua trajetória para se tornar aquilo que ela deveria ser, superando seus medos, aprendendo a aceitar o sentimento de falta que é inerente à vida e, especialmente, compreendendo que o amor é inesgotável e que, portanto, não havia razão para não oferecê-lo, sem medida, aos outros.
Nos diálogos entre Loreley e Ulisses manifesta-se a visão existencialista da autora que procura mostrar que validamos nosso breve tempo na terra quando, à despeito de tudo, continuamos a viver, cultivando a alegria e aceitando todas as dores que cada dia, um por vez, possa nos trazer. Por meio de Ulisses, Clarice nos ensina:

[...] uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.

Com Lóri entendemos que a mudança exige enorme coragem porque é imprescindível que entremos em contato com nossas fraquezas, mesquinharias, desejos obscuros. Na prece, que Ulisses a incita a fazer, vemos não apenas a busca de uma intervenção externa, mas, sobretudo, um processo de auto-revelação. Ao orar Loreley volta-se para si mesma  num esforço introspectivo:

Deus [...]alivia a minha alma, faze com que eu sinta que tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.

A metamorfose de Loreley é uma transformação no sentido de se tornar aquilo que cada um de nós deveria ser. “A mais premente necessidade de um ser humano é tornar-se ser humano”, sentencia a personagem de Clarice, já à caminho de um recomeço.

LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.