quinta-feira, 18 de julho de 2013

Uma tipologia das cidades por Max Weber


      Com sua peculiar sistematicidade, Max Weber elabora, no âmbito da sua sociologia da dominação, uma tipologia das cidades, procurando mostrar como o desenvolvimento urbano no Ocidente moderno está intimamente vinculado à emergência e consolidação do capitalismo e ocorre de forma distinta do que aconteceu com as cidades orientais.
          A análise weberiana inicia com um esclarecimento acerca do conceito de cidade e com uma categorização ideal-típica por meio de uma classificação funcional.  Nesse sentido, cada cidade teria uma função predominante que se sobrepõe a outras,  conferindo-lhe uma identidade específica. Sobre o conceito, Weber parte da definição básica de cidade como um assentamento fechado com casas próximas umas das outras, cujos fundamentos principais são a existência de uma sede senhorial-territorial como centro e o  comércio constante de bens e serviços entre seus habitantes, ou seja, a existência de um mercado.
       Na tipologia de Weber, destacam-se  a cidade principesca, cuja função primordial é a de ser uma localidade administrativa, sede do governo, como são, por exemplo, as capitais federais;  a cidade de consumidores, que não  possui uma base produtiva, como, por exemplo, aquelas localidades cuja parcela significativa de moradores ainda não ingressou no mundo do trabalho, como estudantes, ou que já saiu dele, como aposentados e pensionistas;  a cidade de produtores, caracterizada por suas indústrias, fábricas, manufaturas, ou seja,  um centro produtor de diversos tipos de mercadorias; e, por fim,   a cidade mercantil, cuja função predominante é a negociação constante de mercadorias, seja vendendo os produtos locais para estrangeiros ou vendendo produtos estrangeiros no comércio local. Como a classificação weberiana parte da formulação de tipos ideais, o autor explica que,  empiricamente,  as cidades  acumulam  funções distintas.
      Segundo o autor, a particularidade do processo de formação das cidades ocidentais na modernidade deve-se ao fato de que estas foram surgindo como resultado de uma postura subversiva de uma classe social que estava se formando, a burguesia. Assim, no princípio, trata-se de um modo de organização social transgressor, portanto, não-legítimo, adquirindo legitimidade apenas posteriormente com a aceitação tácita da nova ordem.  Além da não-legimitidade inicial, estas cidades se constituem, conforme Weber, com uma organização político-administrativa autônoma que possui sistemas legal e  tributário próprios.  Ademais, sua força econômica é  urbana, com mercados especializados, ou seja, não tem mais como cerne a produção agrícola, embora esta ainda fosse importante.
       Na concepção processual de Weber, a gênese da moderna cidade ocidental encontra-se na cidade medieval. A lei da propriedade de terra, que permite a negociação do solo,  base do feudalismo, forneceu o precedente  necessário para a autonomia territorial das cidades. Outro fator,  não menos importante,  foi o surgimento de um grupo de  indivíduos economicamente independentes, a pequena burguesia. Com o tempo esse novo grupo se fortalece a ponto de conseguir usurpar o poder dos senhores feudais.
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WEBER, Max. A dominação não-legítima (Tipologia das cidades). In: Economia e Sociedade. Fundamentos da sociologia compreensiva. Vol. II. Brasília: Ed Unb, 2004.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Sobre os condomínios fechados e a segregação urbana em Tereza Caldeira



Teresa Caldeira mostra, tendo como caso representativo a cidade de São de Paulo, como a segregação social é reafirmada e reproduzida por meio da segregação espacial imposta às camadas mais baixas da população.  Conforme classificação da autora,  três tipos de segregação espacial emergiram   no decorrer do século XX.
O primeiro tipo, que vigorou no começo do século, seria a segregação derivada das formas de moradia. A   ênfase foi posta na  higienização da cidade, no controle da população, tendo como pano de fundo a industrialização e, por conseguinte, a  proletarização. Tudo isso impulsionou as transformações que resultaram no segundo tipo de segregação, cuja expressão é o  modelo centro/periferia que ganhou força nos anos de 1940 e vigorou até a década de 80. Nessa fase havia, entre outras coisas, a possibilidade de maior circulação territorial  por meio da melhoria dos transportes públicos e a relativa popularização dos automóveis. A conseqüência mais imediata foi uma maior dispersão da população pelo espaço urbano e, sobretudo, o distanciamento espacial das classes. O terceiro  tipo diz respeito à atual sobreposição centro-periferia por meio daquilo que Caldeira denomina de “enclaves fortificados”. 
            É sobre o último tipo que autora se debruça, procurando evidenciar como a construção de condomínios de luxo em lugares periféricos, antes habitados apenas por pessoas menos favorecidas socialmente, gerou uma espécie de paradoxo, pois, ao mesmo tempo em que permitiu  uma aproximação espacial de diferentes classes, tornou mais explícita a segregação, uma vez que a separação ganha contornos concretos com os altos muros que são construídos e com toda parafernália tecnológica que é utilizada para manter, sob o pretexto da necessidade de segurança,  os novos vizinhos fora do alcance visual daqueles que estão em seus enclaves.
Conforme Caldeira, a construção desses enclaves fortificados contraria o interesse da população em geral, já que produzem cidades fragmentadas que limitam os princípios básicos da  livre circulação e do acesso aos espaços públicos que, por sua vez, formam a base sobre a qual foram estruturadas as cidades modernas. Em síntese, seria um novo modo de conferir distinção social às camadas médias e altas em detrimento da  democratização do espaço urbano.
            Para a sociedade brasileira,  moradia e status quo são coisas  intimamente relacionadas.  A habitação é uma forma de buscar e/ou reafirmar a posição social, acentuando, dessa maneira, as diferenças de classes. O modo como são feitos os anúncios publicitários ratificam essa afirmativa. Tais anúncios põem em evidência um novo código de diferenciação social, além de enfatizar o isolamento como algo desejável. O principal apelo vincula-se ao aumento da violência urbana. A promessa subjacente é de que  morar em um condomínio de luxo significa viver com  segurança. Mas não é só isso, outros atrativos  são apresentados. O lazer, a proximidade com a natureza e a ordem  também recebem ênfase.  Privilégios que, segundo Caldeira, servem mais para ostentação do que para o desfrute, visto que a utilização desses serviços pelos moradores  é escassa. 
            De acordo com a autora,  embora os moradores de condomínio, no Brasil, compartilhem um espaço, a convivência harmoniosa tem como obstáculo a dificuldade cultural do brasileiro de reconhecer o limite entre esfera individual e coletiva. Assim, as leis de convivência no interior dos enclaves são recorrentemente desrespeitadas, gerando conflitos que, por seu turno, devem ser resolvidos sem intervenções externas. Nesse sentido, a função da polícia seria apenas a de manter afastadas as verdadeiras ameaças, ou seja, aqueles que vivem do outro lado dos muros.
            A autora finaliza o capítulo mostrando que a privatização do espaço público afeta  a vida cotidiana, muda a paisagem e os hábitos das pessoas e, fundamentalmente, é um obstáculo à democracia. O planejamento estatal da vida pública  acentuou as desigualdades e promoveu a segregação. Desse modo, o projeto modernista das cidades brasileiras,  que tinha como objetivo viabilizar o aproveitamento por todos do espaço público, contraditoriamente, se tornou o ponto de partida para a formação  de novos  enclaves fortificados. 

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CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Segregação urbana, enclaves fortificados e espaços públicos. In: Cidade de Muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: 34/Edusp, pp. 211-342.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Silas Malafaia: autoritarismo, truculência e soberba em defesa do Evangelho



Poucas entrevistas feitas pela apresentadora Marília Gabriela tiveram tanta repercussão quanto a entrevista realizada com  Silas Malafaia. Defensores e opositores  expressaram seu apoio ou sua reprovação,  usando  especialmente  as redes sociais.
            As reações às palavras do Pastor mostram que temos uma sociedade dividida, ainda que de forma desigual, entre aqueles que avançam buscando compreender e se adaptar a um mundo mais heterogêneo, e aqueles que fazem questão de cultivar, por comodismo ou medo, uma fé cega, irracional e totalmente maniqueísta. É caso do referido líder espiritual e seus seguidores.
            Silas Malafaia se autodenomina um defensor do Evangelho, no entanto, somente aqueles que possuem um conhecimento bem ínfimo dos escritos bíblicos conseguem fazer uma associação entre  a truculência e a soberba desse senhor com a bondade, a tolerância e a humildade que caracterizam o ministério de Jesus mostrado nas narrativas dos quatro evangelistas.
            Ora, se para os cristãos o sentido e a direção da fé são dados pela Bíblia, é a ela que invoco para justificar minha indignação. Diferentemente da postura autoritária assumida pelo Pastor, o que se aprende nas Escrituras é que   a  essência do Evangelho é a liberdade. Uma passagem que ilustra bem essa afirmação é o  relato do  encontro de Jesus com a mulher samaritana (João 4:19-23). Ao ser questionado por ela sobre onde seria o verdadeiro lugar da adoração, no templo ou no monte,  Cristo responde que em nenhum dos dois, mas em espírito e em verdade.  O que ela desejava era uma resposta clara acerca do modo correto de viver sua fé, o que recebeu foi a revelação de que a partir daquele momento o lugar da adoração não é exterior a ela.    Trata-se de  um novo paradigma para a vida espiritual: passa-se da objetividade da Lei que é condenatória para a subjetividade do Evangelho que é  libertador.
Entretanto, a liberdade não é apenas  uma dádiva, é também um peso porque  traz como implicação o fato de que , no fim das contas, cabe a cada um  encontrar o melhor modo de lidar com uma existência que é absolutamente contingencial. A capacidade de controlar o destino é apenas relativa,  isso  gera insegurança.  Assim sendo, não é difícil que alguém que acene com a possibilidade de uma vida mais segura,  um horizonte  mais definido, encontre adeptos. É bem mais fácil viver de acordo com cartilhas, receitas e regras objetivas  sobre o que se deve ou não fazer, sobre o que é certo ou errado, ignorando  as evidências de que entre um e outro há muitas gradações e distintos pontos de vista.
            Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano alemão,  compreendeu muito bem, não só por meio do  conhecimento acadêmico, mas, também,  por experiência  pessoal, que a vida é tão complexa  que é impossível enquadrá-la em  prescrições, ainda que o número destas seja infinito.
Como teólogo,  Bonhoeffer se posicionou contra a religião que é conivente, seja por alienação ou postura política, com sistemas  injustos que perpetuam as desigualdades sociais.  No seu livro “Resistência e Submissão”,  afirma que em um  mundo que se tornou  adulto, ou seja, guiado pela razão,  o ser humano está pronto para assumir sua autonomia. Em uma carta enviada a seu amigo Eberhard Bethge,  defende que Deus não deve ser usado como um “tapa-buracos”, que devíamos assumir nossa responsabilidade pela transformação do mundo.
            Ainda que os  escritos  consigam oferecer uma  razoável noção acerca de suas ideias, é por meio de sua  biografia que o teólogo alemão fala de forma mais eloquente, nos ensinando,  sobretudo, que  nos deparamos com circunstâncias em que   não podemos simplesmente escolher entre o  bem e o  mal. Não raras vezes, temos  que decidir entre o mal e um mal que julgamos menor.  Vivendo na Alemanha nazista,  ciente das atrocidades cometidas por Hitler e seus subalternos,  Bonhoeffer se envolve numa conspiração para assassinar o ditador. A lógica é simples: não é certo matar, mas é menos mal  que um homem insano e cruel  morra do que permitir que milhões sejam mortos.
            Cito Dietrich  Bonhoeffer porque o vejo como a antítese de Malafaia e seus discípulos que, ao contrário do teólogo luterano, não se  preocupam com causas realmente significativas.  Apontam dedos condenatórios exigindo que pessoas que não compartilham das mesmas crenças vivam de acordo com seus preceitos. Ocupados com o cisco nos olhos dos outros são incapazes de ver as traves que estão em seus próprios olhos. Assimilam o  que há de pior na sociedade: ganância, egoísmo, consumo desenfreado, vaidade sem limites.
            Minha esperança é que as escamas que provocam essa  cegueira caiam e, quando isso acontecer, ao invés de direcionar seus esforços para tentar normatizar o comportamento alheio segundo suas próprias convicções, os cristãos tenham  como empreitada fundamental  a missão de melhorar a si mesmos e, consequentemente, tornar o mundo um lugar com mais bondade, altruísmo e tolerância.
            

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Sobre o urbanismo como modo de vida em Louis Wirth



Trazendo novamente para o centro do debate algumas questões trabalhadas por Simmel  em “A metrópole e a vida mental”,    Louis Wirth  propõe-se a analisar  o fenômeno urbano tendo em vista seus aspectos físicos e sociais. O autor inicia sua análise afirmando que o surgimento  das grandes cidades é o marco mais significativo para delimitar o que seria distintamente moderno na civilização ocidental. 
Conforme Wirth, existe uma  relação imbricada  entre a forma que as cidades assumem e o conjunto de disposições mentais, sociais e culturais que os citadinos desenvolvem. Assim, a cidade exerceria uma relevante influência sobre os  indivíduos, tornando-se, de certa maneira, o centro de controle de suas vidas.  Para explicar essa relação, o autor lança mão do conceito de urbanismo, definindo-o como uma série de características que compõem o modo de vida nas grandes cidades. A emergência desse novo modo de vida não ocorreria  a partir de uma ruptura brusca com o modo de vida rural. Desse modo, ele opta por uma análise que privilegia as continuidades entre as duas formas de organização social: campo e cidade. 
Vale ressaltar que  a “urbanidade”,  desdobramento do conceito de urbanismo,  transcende a questão territorial e de densidade demográfica. Wirth afirma que, na contemporaneidade, a lógica urbana tomou conta de todos os espaços. Nesse sentido, mesmo nas localidades rurais,  os padrões e valores tipicamente urbanos seriam preponderantes. Para melhor compreensão, o autor procura mostrar que a definição sociológica do conceito de cidade distingue-se daquela que é feita a partir do recenseamento e cujo  objetivo primordial é estabelecer os limites formais para administração. Na definição sociológica, a principal característica da cidade seria a existência de uma localidade onde se concentre de forma permanente um número relativamente grande de indivíduos socialmente heterogêneos.
  É preciso salientar que, sob a perspectiva de Wirth, embora a urbanidade  não se restrinja ao espaço físico e a densidade populacional, o grau em que ela se manifesta tende a ser maior nos lugares onde haja maior aglomeração de pessoas convivendo e maior heterogeneidade social, características essas que, por sua vez, aumentam as possibilidades de que ocorram tensões nervosas.  É importante ressaltar também que   a forma como os diferentes grupos sociais são distribuídos no espaço urbano não ocorre aleatoriamente, mas segue uma lógica urbana de classificação. Segundo o autor, as diferenças dão origem à segregação espacial com base na cor, etnia, na posição econômica e social e nos gostos e preferências. Ocorre também um enfraquecimento dos laços de parentesco, vizinhança e sentimentos que normalmente são compartilhados em comunidades mais tradicionais.
Como Simmel, Wirth  percebe a cidade como locus da individualidade, ela não só tolera, como também premia as diferenças. No entanto, isso tem seu lado negativo. O autor aponta conseqüências aparentemente ruins da vida urbana, tais como o distanciamento nos contatos sociais e  a impessoalidade das relações. Ademais, a inexistência de laços afetivos promoveria o espírito de competitividade e exploração recíprocas.
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WIRTH, Louis: O urbanismo como modo de vida. In Velho, Otávio (org.).O Fenômeno Urbano4ª ed. Rio de  Janeiro, Ed. Guanabara, 1987

domingo, 20 de maio de 2012

Movimento neopentecostal e neoesoterismo: um enfoque sob o paradigma da orientalização do Ocidente*


          O neopentecostalismo, com sua ressignificação dos conteúdos da fé cristã, é apontado por estudiosos (Freston, 1994; Velho, 1997; Sanchis, 1997) como o fenômeno que mais tem contribuído para a reconfiguração do campo religioso brasileiro. Para explicar o avanço das igrejas neopentecostais, pesquisadores ressaltam alguns aspectos que fazem com que esse movimento seja tão atrativo na disputa por consumidores de bens e serviços religiosos. Entre esses aspectos estão: a adequação de seus conteúdos à lógica do mercado, o utilitarismo, que conferiria a essas igrejas características das religiões de magia, e a espetacularização dos cultos (Mariano, 1995; Prandi, 1997; Campos, 1997).
              Todos esses aspectos são facilmente observados em um trabalho de campo, entretanto, acredita-se que eles resultam, particularmente, da mudança, enunciada por Campbell (1997), que ocorre na própria essência da teodiceia cristã, como consequência de um processo de orientalização do Ocidente. Nesse sentido, o neopentecostalismo se afasta da ortodoxia cristã tradicional e assimila conteúdos das tradições religiosas do Oriente.
              A Confissão Positiva e seus desdobramentos seriam os sinais mais explícitos dessa transformação que Fonseca (1998, p. 7) chama de “Nova Era Evangélica”.
              Ao se afastar da ortodoxia do protestantismo dos reformadores, o neopentecostalismo segue a tendência de uma vivência religiosa que, segundo Simmel (1997), é mais convergente com o processo de individualização desencadeado pelas transformações que dão o contorno do mundo moderno. Considerando que a individualização traduz-se, entre outras coisas, em autonomia e emancipação, é de se esperar que a vivência religiosa pautada pela crença em um Deus transcendente e soberano, cuja vontade se sobrepõe a todas as outras, perca espaço para uma concepção de divindade que não ameaça a posição de centralidade conquistada pelo ser humano, agora sujeito de si e da história.
              Se a emergência do movimento neopentecostal evidencia uma tendência religiosa antropocêntrica, em contraposição ao teocentrismo do cristianismo tradicional, a chegada e o avanço de religiosidades de cunho oriental confirmariam tal tendência. Embora pareçam incipientes no ranking das religiões fornecido pelo IBGE, Deis Siqueira (2003) argumenta que essas religiosidades, cuja expressão mais popular é o multifacetado movimento New Age[1], vêm obtendo êxito significativo no campo religioso brasileiro, sinalizando que o Brasil não passou incólume pela onda de orientalização religiosa verificada primeiramente em países da Europa.            
                   Portanto, tendo como ponto de partida a tese de Campbell (1997) de que o Ocidente está sendo orientalizado, o objetivo aqui é apresentar indicativos de que o neopentecostalismo e as religiosidades de cunho oriental, doravante denominadas também de  neoesotéricas[2], possuem similaridades que evidenciam que ambos estão em total conformidade com as demandas existenciais típicas da sociedade contemporânea; daí o êxito na disputa por consumidores de bens de salvação.
              Como casos representativos das vertentes citadas, privilegia-se como lócus do trabalho de campo a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) e a instituição religiosa Perfect Liberty (PL). A opção pela Iurd foi determinada não apenas por ser a denominação neopentecostal que mais cresce, mas também porque possui algumas especificidades que a tornam bastante representativa do gênero.
              Entre tais especificidades, chama a atenção o sincretismo evidenciado por meio da apropriação e ressignificação de elementos simbólicos de outras religiões e de superstições populares.


[1] Magnani (1999, p. 10) afirma ainda que o movimento New Age, que ele prefere denominar como movimentos neoesotéricos, compreende orientações religiosas não oriundas apenas de tradições orientais, mas também do “encontro da ciência contemporânea e antigas cosmologias, das tradições indígenas e novas propostas ecológicas”.
[2] Utiliza-se aqui a terminologia que se considera mais adequada. Existe uma grande variedade de conceitos para se referir ao mesmo fenômeno social. Magnani (1999) opta por “neoesoterismo” para aludir às religiosidades heterodoxas que, entre outras influências, sustentam-se nas cosmologias orientais.
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*O texto acima é apenas a parte introdutória.  Para ler o artigo completo, acessar  http://www.fflch.usp.br/ds/plural/ed_18_2.html

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A arte como salvação: sobre a literatura



          Max Weber, em sua análise sobre a esfera estética, mostra como esta emerge tutelada  pela religião,  expressando-se de forma primordial por meio da arte sacra. No entanto, com o processo de modernização, a religião, que outrora regia todos os âmbitos da vida, perde força,  passando  a operar apenas num domínio específico, ocorrendo o que Weber denomina de autonomização das esferas. Desse modo, a arte começa a se desenvolver de forma independente. Se antes ela servia ao propósito único de ligar terra e céu, com o objetivo final de auxiliar na salvação das almas, no mundo moderno, ela adquire um fim em si mesma, transformando-se em outra forma de salvação, exclusivamente terrena. Assim, se em princípio era utilizada pela Igreja como instrumento de propagação dos seus ensinamentos, com a modernidade,  começa a ser percebida e tratada como concorrente pela instituição religiosa.
A análise de Weber levou-me a refletir sobre a importância da arte  na minha vida. Considero que, de fato, ela tem impacto salvífico, não antagônico à religiosidade, mas complementar. Embora  esteja socialmente numa esfera distinta da religião,  é essencialmente espiritual.  Isto porque nos  eleva, nos dignifica e é capaz de por em evidência aquilo que temos de melhor, seja na sua produção, no caso dos artistas, ou na sua interpretação, no caso dos consumidores.  Não sou artista e nem expert,  portanto, minha fala é sob a perspectiva daqueles que apreciam e sofrem sua influência.
Dentre todas as formas de expressão artística, a que mais  teve papel determinante na formação da minha personalidade, foi a literatura.  Fui alfabetizada aos oito anos de idade. A palavra escrita fez com que uma nova  realidade se abrisse para mim.  A primeira transformação, e talvez a mais importante, foi me colocar a par da existência e da importância das outras pessoas. Eu que era uma criança absolutamente ensimesmada, aprendi o que é empatia: o outro não é qualquer um, é aquele que tem uma história que pode ser mais difícil e mais dolorosa que a minha.
Outra mudança que a literatura provocou foi o fato de ter acendido em mim um desejo de  conhecimento que não esmorece. Confesso que isso tem alguns aspectos negativos. Entre eles, uma incômoda lucidez.  É  menos  perturbador ser alienado, acreditar naquilo em que a  maioria acredita, buscar satisfação em coisas mais simples. Numa vida assim,  as escolhas são mais fáceis e os medos não assombram tanto. Por outro lado, o conhecimento  traz como  recompensa a possibilidade de uma vida mais plena. É importante frisar que não falo de um conhecimento específico, mas de uma série de informações, sensações e experiências que abrem nossas mentes, que nos fazem enxergar o mundo sem escamas nos olhos ou, pelo menos, de forma mais clara e, consequentemente, menos preconceituosa. É através do conhecimento também que educamos  nossos sentidos. Uma bela obra de arte precisa de olhos competentes, uma boa música  de ouvidos sensíveis e  uma boa comida de um paladar que saiba apreciá-la. Não são coisas fundamentais, mas, com certeza, nos dão uma dimensão mais precisa daquilo que o ser humano é capaz de realizar, além de proporcionarem momentos muito prazerosos.
Por fim, a literatura sempre me serviu de companhia e, mais que isso, me ensinou a fazer companhia a mim mesma. Como bem disse Saramago em O ano da morte de Ricardo Reis,  “A solidão não é viver só, é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou alguma coisa que está dentro de nós”.  Isso é importante porque determina a qualidade das nossas relações.  Estar com alguém é muito bom, mas não devemos ficar com uma pessoa por medo da solidão. Nada se compara à sensação de conversar com alguém com quem nos identificamos: compartilhar gostos, percepções e valores, ou mesmo com alguém  que seja diferente, mas que nos acrescenta algo, nos enriquece. Quando isso não é possível,  os personagens dos livros estão lá, com suas dores, arrependimentos, desejos, medos, virtudes e defeitos,  nos servindo de espelho. Mesmo que sejam aparentemente bem distintos de nós, há sempre um reconhecimento. Através dos livros aprendemos que nunca estamos sós, mas é preciso que haja entrega e sensibilidade para desfrutar de tão preciosa companhia

Bibliografia:

WEBER, Max. Rejeições religiosas do mundo e suas direções [1915]. In: Ensaios de Sociologia (H.H. Gerth e C. Wright Mills org.). Rio de Janeiro : Guanabara, 1979.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Sobre a internet e o que há de melhor e pior em nós



A internet é um território habitado por seres de variados tipos. Embora todos, aparentemente,  pertençam a uma única espécie, a humana,  seus gostos, o modo como se comportam, o que compartilham, os nichos nos quais se inserem, são evidências incontestáveis dessa heterogeneidade. Não há como negar, pelo menos por aqueles que estão conectados, que é um espaço democrático. Tão democrático que comporta, e suporta, posições radicais,  tiranias e fundamentalismos, do mesmo modo que difunde ideais de paz, amor e  tolerância. Em 2011, ela teve um papel realmente significativo. Foi o principal veículo de denúncias e, o mais importante, uma parcela relevante da população não ficou passiva diante delas. Usando particularmente as redes sociais, mobilizou-se contra a corrupção, contra o sistema econômico injusto, em defesa dos animais, da liberdade e de uma série de outras causas importantes. Revoluções foram feitas, líderes caíram e instaurou-se um clima de expectativa em relação ao que está por vir.
Apesar de considerar o saldo positivo,  é preciso levar em conta também os aspectos negativos. O fato de ser um território relativamente livre, dá margem para que não poucas pessoas exponham também seus sentimentos mais mesquinhos, seus anseios fúteis, sua superficialidade e, principalmente, uma animosidade gratuita. Todos se tornam vítimas da “trollação”. São críticas sem fundamento, cujo único objetivo  é deixar mal aqueles a quem são direcionadas, numa tentativa constante de se sentir superior diante dos supostos defeitos ou fraquezas alheias.  Assim, magros e “sarados” reivindicam sua supremacia  detonando todos que não se encaixam neste padrão. Os jovens vilipendiam a maturidade dos mais velhos. Os que se julgam inteligentes, por ter um curso superior, humilham aqueles que ignoram as regras da gramática.  As celebridades desmistificadas também “trollam” e são “trolladas”. O caso de Ed Motta no facebook é emblemático. Ficou mais que claro seu preconceito de origem e social, e sua tendência misógina no comentário que fez sobre Paula Toller. Segundo ele, ela não tem talento, mas é bonita. Em outras palavras, isso a torna  suportável.
Confesso que, diante disso, sinto alguns temores. Visito blogs, sites de notícias e participo de  redes sociais. A impressão que tenho é que essas pessoas amarguradas, vazias, mal-intencionadas e intolerantes são onipresentes. Não acredito que sejam a maioria, mas penso que fazem mais barulho. Não se intimidam perante nada. Meu maior receio é que, pela insistência,  consigam inculcar em nós o cinismo, no sentido contemporâneo do conceito, não no sentido filosófico. Ou seja, que acreditemos que as coisas são assim porque são e não adianta fazer nada. Isso,  definitivamente, não é verdade. Precisamos continuar defendendo causas justas, sem agressividade, sem desrespeito, mas com muita tenacidade.  Ainda que pareça uma visão maniqueísta, devo esclarecer que não é. Tenho ciência de que o  mesmo que incorpora a  personalidade de “troll” na net,  pode ser, longe do teclado, o  bom vizinho, o bom amigo, o bom filho. O que não podemos é deixar que, por meio da rede, o pior que há em nós leve vantagem e nos domine.  Até mesmo neste universo de avatares,  o bem-estar de cada um está intimamente ligado ao bem-estar do outro.  E vale sempre lembrar que o  limite das grandes revoluções que visam melhorar o mundo é dado pela nossa indisposição de melhorarmos a nós mesmos. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

*Igreja Universal do Reino de Deus: o imperativo “Pare de sofrer” como fundamento de uma nova teodicéia


                                                    (Imgem: http://www.marciodesouza.com)

“Pare de Sofrer”,  slogan amplamente difundindo pela Igreja Universal põe em evidência o fundamento sobre o qual está estabelecido todo seu conteúdo doutrinário e, consequentemente, o meio pelo qual concorre no mercado religioso pelo “monopólio da gestão dos bens de salvação e do exercício legítimo do poder religioso” (Bourdieu, 2005, p. 57). O propósito  deste trabalho é mostrar que a  força do discurso iurdiano está na reiteração constante da  possibilidade de uma existência terrena livre de qualquer angústia, pondo em evidência, por conseguinte,  a proposta de uma nova teodicéia, na qual o sofrimento  deixa de ser uma realidade inevitável.
Para tentar fundamentar biblicamente os ensinamentos, torna-se necessária uma forma de interpretar as Escrituras distinta daquela feita pelo cristianismo tradicional. É o que explica Mariano (1996) ao afirmar que “era preciso substituir suas concepções teológicas que diziam que os verdadeiros cristãos seriam, se não materialmente pobres, radicalmente desinteressados de coisas e valores terrenos” ( p.27).  A demonização da pobreza é o melhor exemplo dessas novas concepções teológicas. O pobre não é mais o “bem-aventurado”, mas, ao contrário, é aquele que se encontra sob maldição, daí a necessidade primordial que tem de ser liberto.
Toda a construção do universo simbólico iurdiano evidencia uma luta aguerrida, cujo objetivo não é nada menos do que a hegemonia no mercado religioso. Para isto, lança mão de diversas estratégias.  Seu ponto de partida é a teologia da prosperidade. Não há nada mais atrativo para uma sociedade, que alia a possibilidade do consumo irrestrito à noção de felicidade, do que um discurso triunfalista fundado em promessas de ascensão econômica e social. Diversificando sua oferta através do uso de elementos de outras religiões, a IURD atrai pessoas de outros credos promovendo, dessa forma, uma identificação mais rápida com seu sistema simbólico (Bonfatti,1999; Campos, 1999). E, finalmente, tudo elaborado sob uma concepção dualista, Deus e diabo em guerra constante, que fornece a objetivação do mal que, agora conhecido, pode ser derrotado.
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* Resumo de trabalho apresentado no XI Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. Link para o artigo completo: http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1307040879_ARQUIVO_IgrejaUniversaldoReinodeDeus-OimperativoParedeSofrecomofundamentodeumanovateodiceia.pdf

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A atual onda de protestos como consequência previsível da sociedade de risco



É provável que só tenhamos uma ideia mais precisa acerca do efervescente  momento histórico que estamos vivendo daqui a  alguns anos. No entanto, não é necessário esperar para saber  que não passaremos incólumes por ele. E é bom que não passemos,  afinal, as pessoas gritam por mudanças, exigem uma nova ordem, na qual, o futuro não se apresente como uma ameaça. Mais do que qualquer coisa, o que  desejam, especialmente os jovens,  são boas perspectivas, fazer planos e acreditar na possibilidade de sua concretização.
 Desse modo,  a onda de protestos que ocorre no mundo é uma reação, relativamente esperada,  diante de uma sociedade global mergulhada na incerteza.  Não por acaso, já que as crises das quais somos vítimas, crise do capitalismo, crise política, crise ambiental e outras,  são conseqüências  indesejadas, mas não imprevisíveis das escolhas que governos e indivíduos compartilharam no decorrer do processo de modernização. Poderíamos simplesmente culpar os líderes mundiais, e talvez eles sejam mesmo os principais responsáveis, todavia,  sem o nosso consentimento e, muitas vezes, apoio efetivo,  eles não conseguiriam  transformar a humanidade em  refém dos riscos que foram produzidos em nome do  progresso.  Como afirma Ulrich Beck (1997), nós criamos a sociedade de risco.
O sociólogo explica que o processo de modernização pode ser percebido em duas fases. A primeira seria o estágio do desenvolvimento industrial e caracteriza-se  pela prevalência da perspectiva dos benefícios do progresso. Os males eram percebidos  como  residuais e, por conseguinte,  menosprezados. Todavia, na análise de Beck, os resultados indesejados do desenvolvimento traçaram o contorno da segunda fase da modernização. Assim, ele afirma que,

[...] uma situação completamente diferente surge quando os perigos da sociedade industrial começam a dominar os debates e conflitos públicos, tanto políticos como privados. Nesse caso, as instituições da sociedade industrial tornam-se os produtores e legitimadores das ameaças que não conseguem controlar (1997:15-16).


A insegurança,  com a qual convivemos há algum tempo, cresce. As ameaças, cada vez mais, tornam-se reais. Poderíamos argumentar que tudo que ocorre sempre existiu, fome, guerras, tragédias ambientais. É verdade, mas o que diferencia a atual situação é que há uma tendência mais geral de empobrecimento. As vítimas não são mais apenas os países subdesenvolvidos e emergentes. Os países ricos, que sempre se pautaram pela esperança tola no crescimento infinito do mercado, percebem agora que, apesar dos indivíduos serem continuamente estimulados a consumir, a capacidade de consumo, mesmo por meio de endividamento, é menor do que a ganância capitalista que produz mais e mais.
Ainda é cedo para dizer que está se cumprindo o prognóstico marxiano de colapso do capitalismo. Afinal,  foram muitas crises e o sistema sempre mostrou uma capacidade impressionante de recuperação e re-ordenamento,  sem, contudo,  mudar suas bases estruturais. Entretanto, a tomada de consciência da população mundial, evidenciada nos protestos, sinaliza que ela não está mais disposta a aceitar passivamente  a tirania que pode se manifestar, explicitamente, em governos totalitaristas  ou,  de forma dissimulada,    por meio de  sistemas sociais injustos.  
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BECK,  Ulrich. A reinvenção da política: rumo a uma teoria da  modernização reflexiva In:
GIDDENS, A.; BECK, U.; LASH, S.  Modernização Reflexiva. Tradução de Magda Lopes. 2
reimpressão. São Paulo: Editora Unesp, 1997. p. 11-71.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Gisele Bündchen: a mulher-objeto e a limitada formação crítica dos brasileiros



A campanha da Hope (marca de lingerie),  estrelada pela Top Model  Gisele Bündchen,  tem sido alvo de diversos protestos. Não sem razão,  já que os comerciais reproduzem antigos estereótipos que pessoas mais esclarecidas, independente de gênero, lutam há tempos para derrubar.  Neles, a mulher brasileira é apresentada como um ser dotado de natural sensualidade e é incentivada a utilizar essa arma para resolver situações problemáticas com o esposo.
Qualquer pessoa que tenha senso crítico um pouco mais aguçado poderá perceber que, do início ao fim, os comerciais reforçam a ideia de que  a mulher não é só sensual, ela é também péssima motorista, financeiramente dependente do marido e limitada na sua capacidade argumentativa, daí basta tirar a roupa e todos seus problemas serão resolvidos.  Mais uma vez, a brasileira, especificamente,  é revestida de uma imagem altamente sexualizada.
Não sou da patrulha do politicamente correto, penso até que existe um certo exagero,  também não sou feminista militante. As causas que me movem são aquelas em favor da dignidade humana, portanto, sempre me colocarei em defesa dos grupos que sofrem qualquer tipo de opressão.  Por isso, me senti impelida a escrever este post, sobretudo depois de ler comentários de leitores no UOL sobre a notícia de que o governo pediu a suspensão das propagandas.
A maioria absoluta se posicionou contra o governo e a favor de que os comerciais continuem sendo veiculados. Todos têm direito de manifestar suas opiniões e devem ser respeitados, no entanto,  é difícil não ficar frustrada diante dos argumentos usados. Entre os mais  recorrentes está dizer que as mulheres que protestam são feias, invejosas, encalhadas, mal-amadas e uma série de outros adjetivos semelhantes. Diante de argumentos tão boçais que põem em evidência o atraso intelectual do povo brasileiro,  é difícil, como educadora, não ficar frustrada.  Mais grave ainda é ver que as mulheres, de modo geral, aprovam a campanha por achar que se trata de elogio, não conseguem perceber a  discriminação e o sexismo explícitos, sim, porque o que passam não é uma mensagem tácita ou subliminar.  
A conclusão que podemos tirar disso é que o Brasil ainda não conseguiu oferecer formação suficiente para que as pessoas desenvolvam algum nível de  capacidade crítico-reflexiva.  Só depois que os indivíduos estiverem devidamente esclarecidos é que podem escolher, com mais legitimidade, como vão se posicionar.  No caso das mulheres, particularmente,  elas podem até optar por serem tratadas como objetos, mas não sem antes saber que há outras escolhas possíveis.