domingo, 3 de agosto de 2008

A ambiguidade humana no conto "A igreja do diabo" de Machado de Assis.


        A ambiguidade humana é a matéria-prima principal utilizada por Machado de Assis para compor grande parte de sua obra. O conto “A Igreja do diabo” evidencia que o autor, indo contra os pressupostos cristãos de uma total separação entre o mal e o bem, percebe o homem como um ser essencialmente contraditório e, por conseguinte, incapaz de seguir regras fixas, ainda que essas regras se resumam à única regra de não seguir regra nenhuma.
Segundo a narrativa do conto, um certo dia o diabo teve a idéia de fundar sua própria Igreja. Depois de comunicar, em tom de provocação, sua brilhante idéia a Deus, começa a por em prática o seu plano. Seus seguidores tinham que observar uma única norma: não impor limites aos seus maus intentos. Tudo que era proibido na Igreja de Deus, poderia ser praticado sem inibições pelos adeptos da nova igreja. O diabo tinha como prerrogativa a noção de que o homem é um ser totalmente propenso para o mal. Isso fica evidente na provocação que faz a Deus, procurando mostrar a hipocrisia que reinava entre os fieis da igreja oficial. Afinal, “as capas de seda, tinham franjas de algodão”.
O sucesso do novo empreendimento foi imediato, o Coisa Ruim arregimentou muitos discípulos. Finalmente as pessoas podiam dar vazão a todos os seus mais baixos sentimentos, como inveja, egoísmo, avareza e vaidade, e a todas as suas demandas carnais, como a lascívia, glutonaria e preguiça. Contudo, depois de algum tempo, o ser infernal é surpreendido ao perceber que seus seguidores começam a infringir sua regra. Assim como praticavam o mal, enquanto se diziam bons, agora estavam fazendo o bem de forma camuflada, ainda que tivessem se assumido como seres tendentes ao mal. Ironicamente, “as roupas de algodão, tinham franjas de seda”.
A natureza contraditória do ser humano, revelada pelo conto, evidencia a opção que o autor faz por um certo relativismo moral. Ele se opõe, de modo contundente, aos absolutismos da moralidade cristã. É recorrente, na obra machadiana, o diálogo com textos bíblicos, não para reafirmá-los, mas para mostrar sua inviabilidade prática. Os postulados da religião entram em conflito com a natureza ambígua do ser humano, no entanto, sua existência é condição necessária para que o homem conheça a si mesmo. Para o autor, Deus e o diabo são representações mistificadas da natureza humana. Portanto, seria impossível enquadrar o homem ou exigir que ele faça uma opção radical por um ou por outro. Embora se apresentem como realidades antagônicas, bem e mal são, fundamentalmente, realidades complementares. A existência de uma pressupõe a existência da outra, assim como a consciência da luz pressupõe a existência da escuridão.
Ora, se a natureza humana é ambígua, a possibilidade de suplantar o mal deixa de existir. Daí vemos em Machado de Assis um pessimismo em relação à humanidade. Não há em sua obra qualquer vislumbre de esperança acerca de um futuro onde só o bem prevaleça, ainda que esse bem deixe de ser representado pela religião e tome a forma da Ciência. Nesse sentido, uma verdadeira evolução só poderia acontecer se o homem deixasse de ser homem. Por enquanto, o mal não é um inimigo que a humanidade possa derrotar sem prejuízo para si mesma.

6 comentários:

Anônimo disse...

Boa resenha, lerei Machado mais com mais atenção.

Bjos,

L.S

sorinn disse...

Mesmo que eu não tenha lido o livro de revisão parece ser suspenso. Uma compreensão filosófica da natureza humana, com os seus dois lados: os bons e os maus, o homem eo poder de escolher: o caminho mais fácil, ou o duro caminho, comparition A "-seda algodão" está também a ser observado

sorinn disse...

Mesmo que eu não tenha lido o livro de revisão parece ser suspenso. Uma compreensão filosófica da natureza humana, com os seus dois lados: os bons e os maus, o homem eo poder de escolher: o caminho mais fácil, ou o duro caminho, comparition A "-seda algodão" está também a ser observado

Anônimo disse...

ok muito bem
escreves muito bem mesmo

Lugar de pesca disse...

Gostei muito do texto e do seu blog. Agrada-me a ideia dessa nossa natureza ambígua. Nem claridade, nem escuridão: penumbra. Convido você a conhecer meu blog, onde também gosto de tratar das questões religiosas: http://betzaidalugardepesca.blogspot.com/2012/01/quatro.html

Franklin Rosa disse...

Objetiva e cristalina sua resenha Janete. Gostei muito.

Escrevi um texto no meu blog onde falo dessa ambiguidade intrínseca na natureza humana.

Uso a figura do apóstolo Pedro para descrever essa contradição de valores.

O link é: http://conexaodagraca.blogspot.com/2010/12/o-pedro-nosso-de-cada-dia.html