Espaço para compartilhar artigos, resenhas e resumos sobre diversos temas no âmbito das Ciências Sociais, Teologia, Literatura e Arte. O propósito é, sobretudo, ser útil. Sou motivada também pela expectativa de receber contribuições de meus prováveis leitores, sejam eles visitantes regulares ou navegantes acidentais.
Semana passada fui ao cinema assistir “Quem quer ser um Milionário?” (Slumdog Millionaire). Motivada, especialmente, pelo fato de ser um filme que tem o enredo como seu maior trunfo. Ora, um longa-metragem feito fora do circuito hollywoodiano, com um baixo orçamento, se comparado aos padrões dos filmes estadunidenses, e que foi reconhecido pela Academia com oito estatuetas, incluindo a de melhor filme, merece ser visto.
Eu sei que para muitas pessoas, me incluo entre elas, a opinião daqueles que concedem o Oscar não é significativa. Mas, devemos admitir que, desta vez, a escolha foi surpreendentemente maravilhosa. Sem lançar mão da parafernália tecnológica usada em grandes produções, o diretor, Danny Boyle, conta-nos, de forma magistral, a história de Jamal, um adolescente indiano proveniente da favela que consegue ganhar o prêmio máximo, 20 milhões de rúpias, em um programa de perguntas e respostas da televisão.
O ponto de partida da trama é o questionamento: Como pode um favelado conseguir chegar aonde nem pessoas com alto nível de formação acadêmica conseguiram?
A vida do garoto é marcada por tragédias pessoais, como ver a mãe assassinada por policiais hindus - sua família era mulçumana. Órfãos, ele e o irmão têm de lidar com diversas situações difíceis. Mas o grande mote do enredo é o amor que Jamal nutre, persistentemente, por Latika, uma jovem, também órfã, que conhecera ainda criança. Esse sentimento é o fator determinante de toda a existência do rapaz. Assim, ele não está no programa pelo prêmio, mas por Latika.
Mas, voltando a questão que é o eixo da trama, como ele conseguiu responder todas as perguntas corretamente? Jamal não é nenhum gênio, mas tem a capacidade ímpar de aprender, simplesmente, prestando atenção em sua própria vida. Todas as respostas foram buscadas em sua vivência. O mérito do adolescente está no fato de que, diferentemente da maioria, ele estava sempre atento ao que lhe acontecia e, mais, aprendeu a ler, não os livros, mas as pessoas. Como diriam os críticos afetados, “Vale a pena conferir.”
“Por que amar, se perder machuca tanto? Eu não tenho mais respostas: só a vida que eu vivi. Duas vezes nessa vida foi me dada a escolha: como um garoto e como um homem.O garoto escolheu a segurança, o homem o sofrimento. A dor de agora faz parte da felicidade de então. Esse é o trato.”
O mundo moderno, guiado pelos postulados do iluminismo, exaltou a razão, a capacidade transformadora do homem e tomou para si a missão de lançar os fundamentos de uma sociedade livre, fraterna e igualitária. A ciência assumiu uma posição de absoluta primazia por um bom período de tempo em detrimento da religião que passou a ser associada ao “infantilismo da humanidade” por Freud, à idéia de “alienação” por Marx e a outras concepções antropocêntricas cujo ápice foi o decreto da “morte de Deus” por Nietzsche.
Contudo, o avanço técnico-científico revelou, especialmente por meio das duas grandes guerras mundiais, que tem seu lado sombrio. Segundo Giddens, a possibilidade criada pela ciência de dizimar populações inteiras por meio das armas de destruição em massa nos colocou sob risco iminente que, por sua vez, gerou uma espécie de incerteza na sociedade contemporânea. Ao contrário do contexto iluminista, vivemos uma época de pessimismo. O homem de hoje não olha para o futuro. Daí o menosprezo com que os governantes e a grande maioria das pessoas tratam os alertas acerca dos perigos que o desrespeito ao meio-ambiente representa.
Entre as conseqüências da frustração que as promessas não cumpridas do iluminismo provocaram, quero destacar a emergência de uma sociedade hedonista que é, por seu turno, reflexo de um tempo em que a esperança deixou de existir ou, na melhor das hipóteses, tem sido direcionada para coisas que jamais poderão trazer satisfação perene ao ser humano, resultando, portanto, em maior frustração.
Ser feliz é o imperativo do capitalismo de consumo vigente, por conseguinte, é o desejo hedonista de uma existência sem sofrimento que orienta a conduta e transforma as relações em um culto à superficialidade. O sofrimento deve ser evitado a qualquer custo, predominando a exigência de alívio imediato para as dores da vida. O problema, entretanto, é que por mais que nos esforcemos para ignorá-lo ou suplantá-lo por meio de fórmulas químicas ou através das receitas dos livros de auto-ajuda, ele não pode ser eliminado, pois é elemento constituinte da existência humana.
C. S. Lewis – escritor cristão que ficou mundialmente conhecido pela Série Nárnia – elegeu o problema do sofrimento como um de seus temas principais. No livro autobiográfico Surpreendido pela Alegria, ele confessa que mais do que buscar a felicidade, se esforçou para não sofrer. Para isso, optou por uma vida sóbria de solteirão convicto. Abrir-se para o amor seria se por em risco desnecessário. Entretanto, as coisas não correram do jeito que ele planejara.
O filme Terra das sombras, estrelado por Anthony Hopkins e Debra Winger, mostra o bendito fracasso de Lewis. Ele estava com mais de cinqüenta anos quando conheceu Helen Joy Dadviman, uma poetisa norte-americana. O amor entrou sorrateiramente no coração do escritor, mas ele só foi capaz de admitir isso quando descobriu que Helen estava com câncer.Vencido pelo sentimento, casa-se com ela. Fica evidente que jamais experimentara tamanha felicidade, mas, ironicamente, nunca havia sentido tamanha apreensão, já que o prenúncio da dor que havia de experimentar sombreava sua felicidade. Em um dos mais significativos diálogos do filme, a poetisa toca no assunto de sua morte, Lewis responde que não queria falar sobre isso, Helen então argumenta que ele precisava saber que a dor que iria sentir depois era parte da felicidade que estava sentido naquele momento.
Ora, a esposa de Lewis estava dando a definição exata do que é felicidade. Ao contrário do que muitos pensam, felicidade não é ausência do sofrimento, mas é a capacidade de reconhecer o que temos de bom no tempo presente, ainda que o bom não exista em estado puro. Ou seja, a existência plena, implica numa aceitação consciente do absurdo que é a vida, com seus bons e maus momentos.
Pode parecer paradoxal, mas a busca desenfreada por prazer tem o poder de colocar ênfase sobre o que é ruim. Isto porque, o prazer é efêmero, mas o vazio que o sucede torna-se constante. Então, vemos pessoas em um ciclo vicioso ansiando por uma felicidade que nunca está aqui, mas sempre lá e, em nome dela, estão sempre dispostas a sacrificar o bem-estar de outras pessoas. Afinal, o egoísmo, a cobiça, as traições, tudo é justificado, porque “eu tenho a obrigação de lutar pela minha felicidade”. Lamento informar que os que lutam para ser felizes não o serão nunca. Felicidade não se consegue por esforço. Ela é um estado de alma sustentado pelo sentimento de gratidão, pela disposição de perdoar, pela competência para rir de si mesmo e, acima de tudo, ela resulta da coragem de nos abrirmos para o outro através do amor, à exemplo do que Lewis fez, mesmo que isso nos faça sofrer profundamente. Se não for assim, não poderemos dizer que vivemos a vida plenamente.
A modernidade surge sob a égide de um novo modo de produção que, por sua vez, é um dos fatores que mais suscitaram mudanças na cultura ocidental. O homem, a partir de então, começa a ser percebido como indivíduo autônomo, sujeito de si mesmo e da história. A expectativa era de que a razão conduziria a humanidade a um futuro glorioso. Livre da tutela da religião, com a perspectiva de controle total da natureza através da ciência, a construção de uma sociedade perfeita era apenas uma questão de tempo.
O otimismo em relação ao homem e ao futuro da humanidade sofreu golpes fatais. Entre os mais relevantes está o desmascaramento do sistema capitalista por Karl Marx. Não sou comunista, não nos moldes do marxismo, mas isso não me impede de reconhecer que, em pelo menos um aspecto de suas investigações, o pensador alemão estava certo. No capítulo “A mercadoria” de O Capital, ele procura mostrar que de todos os males que o capitalismo trouxe o mais nocivo é o processo de reificação do ser humano. Isso significa que na engrenagem da economia liberal, os trabalhadores foram transformados em peças, existindo para o objetivo único de produzir mercadorias, estas sim, são as verdadeiras protagonistas do novo sistema.
Desde o período histórico pesquisado por Marx, o modo de produção capitalista passou por diferentes fases, mostrando uma capacidade impressionante de adaptação, evitando assim – ou pelos menos retardando - que a profecia marxiana de um colapso se cumprisse. É bem verdade que muitos países conseguiram alcançar um nível satisfatório de riqueza e distribuição de renda, especialmente, através do welfare state das sociais democracias. Mas, também é verdade que para que esses países continuem ricos é preciso que outros permaneçam pobres. A lógica do capitalismo é o acúmulo, portanto, para que alguns fiquem com muito, outros precisam ficar com pouco ou com quase nada.
Contudo, não é sobre o prejuízo material que desejo colocar meu enfoque. O que me assusta é constatar que o capitalismo avançado da sociedade contemporânea está conseguindo, com êxito, completar o processo de desumanização do homem. Por um lado, fomos transformados em consumidores insaciáveis e, por outro, em objetos de consumo. A evidência disso é a forma que as relações sociais assumem em nossos dias. Com que facilidade as pessoas são usadas e descartadas, como se não fossem nada além de corpos que podem, por um tempo, proporcionar prazer ou trazer algum tipo de benefício! Existe uma tendência de não percebermos as pessoas como seres integrais, mas apenas como invólucros, assim, não precisamos ter cuidado para não magoar, não ferir. Como é o corpo que é valorizado, nos tornamos vítimas- particularmente as mulheres- de uma luta ensandecida por um padrão estético inatingível para a maioria. A frustração e a baixa auto-estima são alimentadas, dia após dia, pelas revistas, outdoors, televisão e toda forma de veículo de comunicação. Obviamente, o sistema lucra bilhões com essa busca desenfreada pelo corpo perfeito e com a batalha sem trégua contra o envelhecimento.
Em seu livro Ensaio sobre a cegueira, José Saramago, metaforicamente, faz uma alusão muito apropriada à sociedade contemporânea. Vivemos uma epidemia de cegueira, não somos capazes de enxergar que por traz de cada rosto, de cada corpo, existe um ser humano com uma história, alguém fervilhando de sentimentos, que deseja, acima de tudo, ser visto como pessoa humana, reconhecido, amado incondicionalmente. O autor mostra que nossa cegueira é de difícil diagnóstico porque não a percebemos. Se nos tornássemos fisicamente cegos, quem sabe, poderíamos então ver nos outros aquilo que realmente interessa.
A obra de Saramago é um convite para que resgatemos nossa humanidade. Não acredito que isso vá acontecer à curto prazo, pelo contrário, penso que ainda levará muitos anos para começarmos a reverter esse processo. Todavia, permanece o consolo de saber que nessa sociedade de cegos existem, à semelhança da mulher do médico – personagem do livro – pessoas que não perderam sua visão. Entretanto, para enxergar além, para ter percepção, é cobrado o alto preço da dor de saber, sem dispor, contudo, do poder necessário para transformar de modo imediato. Isso, por vezes, gera um sentimento de inadequação que pode arrefecer a determinação daqueles que enxergam e fazê-los desejar gritar: "Pare o mundo porque eu quero descer!" Mas sabemos que a vontade de desistir é apenas momentânea. São fortalecidos pela idéia, ainda que utópica, de que de alguma forma podem contribuir para a construção de uma sociedade que seja, de fato, composta de seres humanos que se reconhecem como tais.
Seguindo a tendência da sociologia contemporânea, Giddens procura, com sua teoria da estruturação, resolver o problema da dicotomia indivíduo e sociedade e, por conseguinte, do antagonismo teórico-metodológico derivado de tal dicotomia. De um lado, temos o objetivismo, postulado pelo funcionalismo e pelo estruturalismo, propondo, à semelhança das ciências naturais, leis que regem os fenômenos sociais, determinando a ação dos indivíduos. Por outro lado, temos as teorias interpretativistas, para as quais, são os indivíduos e o sentido que estes atribuem às suas ações que interessam. Para superar tal antagonismo, Giddens propõe uma síntese teórica que conjuga estrutura e ação.
Na teoria da estruturação, as ações dos indivíduos são dotadas de consciência e intencionalidade, embora estes não tenham domínio total das condições e das conseqüências dos seus atos, já que alguns resultados não são previstos. Nesse sentido, a história, construída pelas atividades intencionais dos indivíduos, não acontece de forma premeditada, mas resulta do desejo de buscar uma direção consciente para as ações, ainda que as conseqüências de uma determinada ação possam não ser àquilo que se intencionou originalmente. Dessa forma, vê-se em Giddens uma percepção episódica da história, rejeitando, assim, a noção de leis que governam o processo histórico. A vida social possui regularidades, mas não são naturais, são regularidades reflexivas.
Para sistematizar sua teoria, Giddens define o conceito de estrutura como um conjunto de regras que, segundo o autor, são inerentemente transformacionais, e de recursos utilizados na reprodução social. Tais regras são de dois tipos: elementos normativos e códigos de significação. Os recursos também são classificados em duas espécies: recursos impositivos, resultantes da coordenação da atividade dos agentes, e recursos alocativos, provenientes do controle de produtos materiais ou de aspectos do mundo material. A noção de estrutura é primordialmente processual. Diz respeito, em análise social, às propriedades de estruturação que permitem práticas sociais semelhantes e, por conseguinte, recorrentes, por dimensões variáveis no tempo e no espaço.
Para Giddens, a estrutura é apenas uma “ordem virtual” Assim, os sistemas sociais, que compreendem as a atividades dos agentes humanos, não possuem estruturas, mas propriedades estruturais que, por seu turno, são o que há de mais estável e permanente nas sociedades. As propriedades estruturais mais profundamente enraizadas, implicadas na reprodução de totalidades sociais, são chamadas de princípios estruturais.
A dualidade da estrutura -propriedades estruturais dos sistemas e ação- possui papel central para a construção teórica giddesiana, que não admite oposição. A estrutura é, concomitantemente, restritiva e facilitadora. Não deve ser entendida como externa aos indivíduos, no sentido proposto por Durkheim.
O conceito de ação social é fundamental na teoria de Giddens. O autor caracteriza a ação social por meio de três atributos: racionalidade, reflexividade e intenção. A primeira implica que agir socialmente é agir com certo grau de racionalidade, não sendo, portanto, simples ato mecânico. A segunda, reflexividade, diz respeito à capacidade dos indivíduos de serem sujeitos e objetos de sua própria vida. Por fim, a intencionalidade, que é o elemento não premeditado na ação. Embora a ação seja direcionada por um objetivo, há elementos da intencionalidade que acontecem de forma indireta ou não premeditada.
A dinâmica da interação social pode acontecer de dois modos: face a face, situações de co-presença, e de forma sistêmica que diz respeito às relações recíprocas entre agentes que estão fisicamente ausentes. O poder seria uma característica intrínseca da vida social, não sendo necessariamente, repressivo ou opressor. Nas práticas sociais os indivíduos são constituídos também na dimensão do poder. Tais indivíduos podem agir em duas esferas: institucionalmente ou particularmente. Na esfera institucional, os indivíduos agem de acordo com os sistemas abstratos, não havendo exigência de uma presença física. Em tal esfera, as transformações só podem ocorrer através da ação coletiva dos agentes. Na esfera particular, ações são ações do cotidiano, em contextos de co-presença, pelas quais, os agentes interferem diretamente no meio social.
A contribuição de M. Weber (2000) para compreendermos o surgimento e o avanço do protestantismo é imprescindível. Ainda que não tenha se proposto elaborar uma história desse fenômeno religioso, é ele que, ao desejar encontrar um exemplo histórico da existência de um vínculo entre o comportamento ético-religioso e transformações na esfera econômica, oferece-nos uma visão mais abrangente da religião protestante. O exemplo buscado, foi fornecido pela civilização ocidental com seu modo de produção capitalista e a orientação ética do protestantismo.
Nesse sentido, o desenvolvimento do Ocidente ocorreu com ajuda significativa de uma nova perspectiva difundida pela Reforma Protestante, sobretudo, na sua vertente calvinista, cujo corpo doutrinário exige uma mudança efetiva na vida do fiel que deve ser exteriorizada através do cumprimento zeloso da vocação para a qual cada um foi chamado, tendo em vista a salvação. O propósito único da vida é aumentar a glória de Deus aqui na terra, e isto deve ser feito individualmente. Aí percebemos uma ruptura com o cristianismo medieval onde o enfoque é colocado sobre a comunidade e não sobre o indivíduo. Isto fez com que a nova instância religiosa estivesse mais apta a atender as reivindicações de autonomia que surgem com o mundo moderno.
No pensamento weberiano, a esfera religiosa é essencial no processo de racionalização, explícita em alto grau no protestantismo. A afinidade com o capitalismo se dá precisamente por esta característica da ética protestante, em especial, a ética calvinista que com sua ascese intra-mundana desenvolve o senso do impessoal e do desapego ativo convergindo, assim, com a “impessoalidade da racionalidade cientifica e técnica” (Signore, 1993, p. 116) própria da modernidade. Por meio da investigação de Weber temos um panorama do ethos protestante e sua importância no estabelecimento e legitimação de uma nova ordem social. O sociólogo alemão procura mostrar como o sentido, encontrado por muitos na teodicéia calvinista, foi o responsável para que estes assumissem uma postura ético-moral que auxiliou na consolidação do modo de produção capitalista.
SIGNORE, Mario. Ética religiosa e racionalidade moderna. In: PENZO, Giorgio; GIBELLINI, Rosino (Orgs.)Deus na filosofia do Século XX. São Paulo: Loyola, 1998.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 15 ed. São Paulo: Pioneira, 2000
Sempre aproveito as férias para “dar um tempo” da leitura acadêmica e mergulhar de cabeça nos romances. Dessa vez caí na tentação dos best Sellers. O primeiro deles foi “Quando Nietzsche chorou” de Irvin Yalom. Confesso que não tinha grandes expectativas, portanto, não foi uma experiência frustrante. Quem tem certo conhecimento da filosofia nietzscheana e alguma informação sobre a história da psicanálise, perceberá que o livro não tem a pretensão de explorar de modo mais profundo nem uma coisa nem outra.
O enredo, misturando realidade e ficção, propõe um suposto encontro entre Friedrich Nietzsche e Joseph Breuer, precursor da terapia psicanalítica. Tal encontro fora arquitetado por Lou Salomé, mulher que despertou uma paixão desesperadora no filósofo. Sentindo-se culpada e temendo que Nietzsche suicidasse, Salomé roga a Breuer que o ajude a superar a angústia. Contudo, o médico experimentava um desespero semelhante, atormentado por um sentimento obsessivo por Bertha, personagem também real, ex-paciente que sofria de histeria e que ficou mundialmente conhecida sob o pseudônimo de Anna O. A trama se desenrola tendo como base a relação entre Breuer e Nietzsche. Os dois revezam na posição de médico e paciente. Por fim, surge uma amizade que transforma a vida de ambos.
O romance de Yalon não é um desafio intelectual, penso até que Nietzsche se reviraria no túmulo, caso isso fosse possível, ao ver sua filosofia sendo reduzida a algumas frases de efeito, mas o autor tem o mérito de saber contar uma história. Por esse motivo e pelas informações biográficas que o livro traz, afirmo que é melhor lê-lo do que perder tempo com Paulo Coelho.
O segundo livro foi “A cidade do sol” de Khaled Hosseini, autor que ficou mundialmente conhecido com “O caçador de pipas”. Por ter gostado desta obra – nem toda unanimidade é burra – esperava uma história a altura quando comecei a ler “A cidade do sol”. Não me decepcionei. Hosseini narra de forma clara e sensível, sem ser piegas, o drama de duas mulheres afegãs, Mariam e Laila, que não são donas dos seus destinos.
A narrativa desenvolve-se tendo como cenário três décadas de história do Afeganistão, focando, de início, a invasão russa em 1979. Dez anos depois, por causa da atuação dos mujahedins, supridos de armas pelos Estados Unidos, os soldados russos são expulsos. Mas a expulsão não trouxe a democracia, imperou a divisão, até que os fundamentalistas talibãs se apropriaram da maior parte do território. Os decretos dos “servos de Alah” evidenciam que a pretensão era a de se tornarem donos não só do país, mas, também, da alma do povo afegão. A milícia governou de 1996 até 2001, ano que eclodiu a guerra como retaliação aos atentados de 11 de setembro.
A perspectiva que prevalece no romance é feminina, procurando revelar toda dor que as mulheres afegãs são obrigadas a suportar para continuarem vivas em uma sociedade absolutamente androcêntrica. O escritor demonstra ter um compromisso com a realidade, portanto, não espere um sol radiante no final, o máximo que poderemos encontrar são lampejos de luz numa pequena fresta.
Esta é uma das 56 colunas pintadas pelo Profeta no Viaduto do Caju, Rio de Janeiro. As colunas foram recuperadas através de um movimento organizado por um professor universitário e se tornaram patrimônio da cidade.
Este post é diferente daquilo que geralmente costumo colocar aqui. Não se trata de nenhuma reflexão sociológica ou resenha de algum livro. Quero compartilhar algo sobre uma pessoa cuja vida traduz bem aquilo que eu concebo como uma vida válida. Refiro-me a José Datrino, ou melhor, ao Profeta Gentileza, alcunha pela qual ficou conhecido na cidade do Rio de Janeiro. De fato, Gentileza era um profeta no sentido mais exato do que é proposto no Antigo de Testamento. A principal missão de um profeta não é prever o futuro, antes, é falar sobre o presente. O caracteriza a profecia israelita é, sobretudo, a denúncia. O Profeta do Rio de Janeiro fez exatamente isso. Encontrando nas palavras de Cristo o embasamento para sua pregação, proclamou o amor, a justiça social e uma existência pautada pela gratidão. Não propôs projetos mirabolantes que buscam transformar o mundo sem antes transformar as pessoas. Gentileza compreendia que só podemos realmente viver em um mundo melhor se tivermos cuidado com os semelhantes que estão ao nosso derredor. São nas relações de pessoa para pessoa, no cuidado com a natureza que nos cerca, que validamos nossa existência, contribuindo, desse modo, para elaborar uma nova definição do que é ser humano.
Gentileza - Marisa Monte
Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
A palavra no muro
Ficou coberta de tinta
Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro
Tristeza e tinta fresca
Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de Gentileza
Por isso eu pergunto
À você no mundo
Se é mais inteligente
O livro ou a sabedoria
O mundo é uma escola
A vida é o circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o Profeta
A sociologia contemporânea caracteriza-se, sobretudo, por sua tentativa de superar as dicotomias típicas da sociologia clássica, tais como: indivíduo versus sociedade; objetivismo versus subjetivismo; explicação versus interpretação; estrutura versus ação; determinismo versus contingência.
O estrutural-funcionalismo de Parsons e Merton, seguindo uma tradição mais objetivista em Durkheim, centrada na questão da ordem, opta pelo determinismo próprio dessa tradição. Embora Parsons evoque Weber na construção de sua teoria geral da ação, sua ênfase não está nas ações dos indivíduos, como em Weber, mas nas estruturas que ele concebe de forma sistêmica. A sociedade é composta por sistemas distintos que atuam para o bom funcionamento do todo.Ainda que privilegie o conceito de ação, a teoria parsoniana não suplanta as antinomias, já que pende, de forma óbvia, para as determinações estruturais.
Merton inova ao introduzir a perspectiva do comportamento desviado e da noção de disfunção. Entretanto, de modo geral, ele também põe sua ênfase sobre as estruturas em detrimento da liberdade dos indivíduos. O comportamento desviado é produto da própria organização social, portanto, longe de ameaçar o equilíbrio da estrutura, ele próprio desempenha uma função, contribuindo para o funcionamento da sociedade. Contudo, para Merton, quando um sistema ou elementos de sistemas não possuem plasticidade suficiente para a constante adaptação que o organismo social exige, eles se tornam disfuncionais, como uma parte do corpo que se encontra doente e ameaça o desempenho de todo o organismo.
Norbert Elias, com sua proposta de sociologia relacional, avança na desconstrução da oposição indivíduo e sociedade.Oposição essa que resulta apenas de construções teóricas, não é factual, já que a sociedade não tem existência independente dos indivíduos e, estes, por sua vez, são forjados pela sociedade. Apesar de Elias tentar mostrar a incoerência dessa dicotomia, seus trabalhos revelam uma tendência para as determinações sociais.
Pierre Bourdieu, também numa proposta de sociologia relacional, procura sintetizar elementos do conhecimento objetivista e da fenomenologia. Seu esforço para superar as dicotomias cristaliza-se, especialmente, nos conceitos de campo e habitus. Assim, o conhecimento praxiológico, defendido pelo autor, propõe que deve se considerar não somente os sistemas das relações objetivas, como postula o objetivismo, mas também a relação dialética entre essas estruturas e as disposições estruturadas – habitus – nas quaiselas se atualizam e que tendem a reproduzi-las. Tal relação dialética seria o duplo processo de interiorização da exterioridade e de exteriorização da interioridade.Como na teoria Bourdieusiana, o habitus é, primordialmente, reprodução do que foi internalizado, percebemos, assim, uma tendência de ênfase sobre as estruturas.
Anthony Giddens, em sua teoria da estruturação, afirma que a estrutura é apenas uma “ordem virtual”. Assim, os sistemas sociais, que compreendem as atividades dos agentes humanos, não possuem estruturas, mas propriedades estruturais que, por seu turno, são o que há de mais estável nas sociedades. As propriedades estruturais mais profundamente enraizadas, implicadas na reprodução de totalidades sociais, são chamadas de princípios estruturais.
A dualidade da estrutura -propriedades estruturais dos sistemas e ação - possui papel central para a construção teórica giddesiana, que não admite oposição. A estrutura é, concomitantemente, restritiva e facilitadora. Não deve ser entendida como externa aos indivíduos, no sentido proposto por Durkheim.
O conceito de ação social é fundamental na teoria de Giddens. O autor caracteriza a ação social por meio de alguns atributos, tais como: racionalidade e reflexividade. A primeira implica que agir socialmente é agir com certo grau de racionalidade, não sendo, portanto, simples ato mecânico. A segunda, reflexividade, diz respeito à capacidade dos indivíduos de serem sujeitos e objetos de sua própria existência. Além desses atributos, o autor fala de intencionalidade ao discorrer sobre as conseqüências não premeditadas da ação. Embora a ação seja direcionada por um objetivo, há elementos da intencionalidade que acontecem de forma indireta ou não premeditada. Na concepção de Giddens, o agente tem papel de destaque. Ele privilegia a contingência em detrimento do determinismo. As transformações acontecem por meio da atuação dos agentes.
A abordagem interacionista e a etnometodologia focam as ações dos indivíduos. O interacionismo simbólico concentra-se nos significados que os atores conferem às suas atividades. O mundo social é construído por eles por meio de uma interação constante. A etnometodologia, por seu turno, com sua tendência à descrição, ressalta a perspectiva dos sujeitos, procurando evidenciar como as pessoas constroem a realidade social cotidianamente, elaborando um conhecimento sociológico prático.
Habermas, com sua teoria da ação comunicativa, demonstra um incrível otimismo acerca da capacidade transformadora dos indivíduos interagentes. Tais indivíduos têm, segundo ele, a habilidade para coordenar de modo consensual as suas ações por meio de um entendimento intersubjetivo, que ocorre de forma dialógica, fundamentada na disposiçãocomum de aceitar os melhores argumentos (razões), evocados para justificar e legitimar determinados enunciados ou comportamentos.
Diante do que foi posto, vimos que, embora a sociologia contemporânea empreenda um esforço para a superação das antinomias, esse esforço, ao que parece, redundou, em grande medida, em ênfase sobre uma ou outra perspectiva. Talvez, porque tais antinomias sejam insolúveis, já que não temos uma teoria que consiga, de fato, um equilíbrio total entre os postulados teórico-metodológicos do objetivismo e os postulados teórico-metodológicos do subjetivismo.
Há algum tempo atrás, tive o privilégio de ler a biografia de Martin Luther King. Estava motivada pelo desejo de desvendar a questão do racismo que, para mim, sempre se apresentou como um enigma. Por mais que me esforçasse, não conseguia compreender como isso se processava na mentalidade das pessoas. Admito minha incompetência, não consegui relativizar a tal ponto de entender os sentimentos de um racista. Continuo pensando que é uma absoluta falta de racionalidade.
Os acontecimentos narrados no livro suscitaram-me uma profunda admiração pelo líder negro pacifista, mas também uma grande indignação com a sociedade estadunidense e um temor de que esse mundo fosse mesmo uma grande “M”. Lembrei-me de um filme que assisti, no Brasil recebeu o título de “A corrente do bem”, que conta a história de um garoto que leva à sério um trabalho de ciências sociais, no qual o professor pede aos alunosque façam algo para mudar o mundo. A cena emblemática, segundo minha concepção, é quando o menino pensa que todos os seus esforços foram fracassados e fala para o professor “Esse mundo é uma bosta mesmo!”. Pois foi essa a sensação que tive ao ver narrados, na biografia, os episódios de violência, tanto física quanto simbólica, que exprimiam todo ódio e intolerância dos brancos em relação aos negros nos Estados Unidos.
Agora, 53 anos depois que Rosa Parks deu início ao movimento de resistência negro, recusando-se a ficar em pé num ônibus para que um branco se sentasse, vemos de forma explícita os frutos da semente que fora plantada por ela e regada por King e seus seguidores. Um negro chegou à presidência dos Estados Unidos! À pouco tempo isso era inimaginável. Um país conservador, de maioria branca e que ainda alimenta, em grande medida, tendências racistas, elegeu um negro, filho de pai Queniano e que teve como padrasto um indonésio, para presidente.
Alguns dirão, não sem motivo, que os estadunidenses elegeram Barack Obama mais por rejeitarem Bush e sua plataforma de governo do que propriamente pelas qualidades políticas do candidato democrata. Votar no candidato republicano, John McCain, seria votar na continuidade, a maioria preferiu a ruptura. Talvez seja otimismo demais de minha parte, mas acredito que o resultado dessa eleição é a evidência de um processo de transformação cultural. Com o decorrer do tempo, veremos se esse prognóstico se confirma. Para o bem de todos, espero que sim. Então, quem sabe, possamos dizer com toda convicção que, afinal, esse mundo não é uma bosta tão grande assim, ou pelo menos, ele não é só bosta.
Bourdieu explica que Durkheim seguindo a tradição kantiana, mas negando sua cosmologia sustentada pelas categorias a priori, lança os fundamentos de uma sociologia das formas simbólicas, oferecendo uma base empírica para ordenação lógica do mundo. Partindo da análise de Durkheim, o autor procura mostrar que o poder simbólico manifesta-se por meio de sistemas simbólicos que, por sua vez, são estruturas estruturantes como a arte, a religião, a língua
Numa primeira síntese, Bourdieu afirma que os sistemas simbólicos, como instrumentos de conhecimento e de comunicação, constituem um poder estruturante porque são estruturados. Os símbolos, encadeados pelos sistemas simbólicos, têm como função preponderante a integração social. Eles conferem sentido ao mundo social, possibilitando, desse modo, o consensus acerca da ordem estabelecida. Sob essa perspectiva, numa segunda síntese, assinala que os sistemas simbólicos cumprem uma função política. O poder simbólico emerge como um poder capaz de impor significações, e as impõe como legítimas, contribuindo, dessa forma, com a dominação vigente.
O responsável pela produção dos sistemas simbólicos é o corpo de especialistas circunscrito ao seu campo específico. Tais especialistas estão à serviço da classe dominante e são , por excelência, os produtores da doxa, ou seja, àquilo que é aceito como opinião geral que, por seu turno, sustenta o poder estabelecido no âmbito de cada campo. O campo é o espaço onde as relações são objetivamente definidas através do modo como são distribuídas as diversas formas de capital. Os agentes, específicos de cada campo, são capacitados para as funções e os embates próprios deste campo. Intimamente relacionado ao conceito de campo, está o conceito de habitus que Bourdieu define como um conjunto de disposições, decorrente de um processo de interiorização da exterioridade e de exteriorização da interioridade, que leva os agentes a procederem de acordo com as possibilidades existentes dentro da estrutura do campo.
O poder simbólico, imperceptível e invisível, é uma forma transfigurada e legitimada das outras formas de poder. O que torna possível tal poder, conclui o autor, é a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem.