quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A arte como salvação: sobre a literatura



          Max Weber, em sua análise sobre a esfera estética, mostra como esta emerge tutelada  pela religião,  expressando-se de forma primordial por meio da arte sacra. No entanto, com o processo de modernização, a religião, que outrora regia todos os âmbitos da vida, perde força,  passando  a operar apenas num domínio específico, ocorrendo o que Weber denomina de autonomização das esferas. Desse modo, a arte começa a se desenvolver de forma independente. Se antes ela servia ao propósito único de ligar terra e céu, com o objetivo final de auxiliar na salvação das almas, no mundo moderno, ela adquire um fim em si mesma, transformando-se em outra forma de salvação, exclusivamente terrena. Assim, se em princípio era utilizada pela Igreja como instrumento de propagação dos seus ensinamentos, com a modernidade,  começa a ser percebida e tratada como concorrente pela instituição religiosa.
A análise de Weber levou-me a refletir sobre a importância da arte  na minha vida. Considero que, de fato, ela tem impacto salvífico, não antagônico à religiosidade, mas complementar. Embora  esteja socialmente numa esfera distinta da religião,  é essencialmente espiritual.  Isto porque nos  eleva, nos dignifica e é capaz de por em evidência aquilo que temos de melhor, seja na sua produção, no caso dos artistas, ou na sua interpretação, no caso dos consumidores.  Não sou artista e nem expert,  portanto, minha fala é sob a perspectiva daqueles que apreciam e sofrem sua influência.
Dentre todas as formas de expressão artística, a que mais  teve papel determinante na formação da minha personalidade, foi a literatura.  Fui alfabetizada aos oito anos de idade. A palavra escrita fez com que uma nova  realidade se abrisse para mim.  A primeira transformação, e talvez a mais importante, foi me colocar a par da existência e da importância das outras pessoas. Eu que era uma criança absolutamente ensimesmada, aprendi o que é empatia: o outro não é qualquer um, é aquele que tem uma história que pode ser mais difícil e mais dolorosa que a minha.
Outra mudança que a literatura provocou foi o fato de ter acendido em mim um desejo de  conhecimento que não esmorece. Confesso que isso tem alguns aspectos negativos. Entre eles, uma incômoda lucidez.  É  menos  perturbador ser alienado, acreditar naquilo em que a  maioria acredita, buscar satisfação em coisas mais simples. Numa vida assim,  as escolhas são mais fáceis e os medos não assombram tanto. Por outro lado, o conhecimento  traz como  recompensa a possibilidade de uma vida mais plena. É importante frisar que não falo de um conhecimento específico, mas de uma série de informações, sensações e experiências que abrem nossas mentes, que nos fazem enxergar o mundo sem escamas nos olhos ou, pelo menos, de forma mais clara e, consequentemente, menos preconceituosa. É através do conhecimento também que educamos  nossos sentidos. Uma bela obra de arte precisa de olhos competentes, uma boa música  de ouvidos sensíveis e  uma boa comida de um paladar que saiba apreciá-la. Não são coisas fundamentais, mas, com certeza, nos dão uma dimensão mais precisa daquilo que o ser humano é capaz de realizar, além de proporcionarem momentos muito prazerosos.
Por fim, a literatura sempre me serviu de companhia e, mais que isso, me ensinou a fazer companhia a mim mesma. Como bem disse Saramago em O ano da morte de Ricardo Reis,  “A solidão não é viver só, é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou alguma coisa que está dentro de nós”.  Isso é importante porque determina a qualidade das nossas relações.  Estar com alguém é muito bom, mas não devemos ficar com uma pessoa por medo da solidão. Nada se compara à sensação de conversar com alguém com quem nos identificamos: compartilhar gostos, percepções e valores, ou mesmo com alguém  que seja diferente, mas que nos acrescenta algo, nos enriquece. Quando isso não é possível,  os personagens dos livros estão lá, com suas dores, arrependimentos, desejos, medos, virtudes e defeitos,  nos servindo de espelho. Mesmo que sejam aparentemente bem distintos de nós, há sempre um reconhecimento. Através dos livros aprendemos que nunca estamos sós, mas é preciso que haja entrega e sensibilidade para desfrutar de tão preciosa companhia

Bibliografia:

WEBER, Max. Rejeições religiosas do mundo e suas direções [1915]. In: Ensaios de Sociologia (H.H. Gerth e C. Wright Mills org.). Rio de Janeiro : Guanabara, 1979.

3 comentários:

Anônimo disse...

Como sempre, mais um artigo que mexe com a cabeça da gente !
Acho, inclusive, que você deveria desenvolver mais o assunto sobre a "incômoda lucidez X a confortável alienação".
Parabéns !
Continue firme, postando teus pensamentos aqui !

Nicotine

Janete Rodrigues disse...

Oi Gustavo (Nicotine),

Tem razão, o tema "incômoda lucidez x cômoda alienação" merece ser melhor explorado. Vou pensar sobre isso. Agradeço muito suas contribuições e a atenção que dedica aos meus textos.

Abraço,

Janete

Anônimo disse...

A comunidade está aguardando ansiosa a publicação de mais um texto, heim ?

Tudo de bom !

Nicotine