domingo, 20 de maio de 2012

Movimento neopentecostal e neoesoterismo: um enfoque sob o paradigma da orientalização do Ocidente*


          O neopentecostalismo, com sua ressignificação dos conteúdos da fé cristã, é apontado por estudiosos (Freston, 1994; Velho, 1997; Sanchis, 1997) como o fenômeno que mais tem contribuído para a reconfiguração do campo religioso brasileiro. Para explicar o avanço das igrejas neopentecostais, pesquisadores ressaltam alguns aspectos que fazem com que esse movimento seja tão atrativo na disputa por consumidores de bens e serviços religiosos. Entre esses aspectos estão: a adequação de seus conteúdos à lógica do mercado, o utilitarismo, que conferiria a essas igrejas características das religiões de magia, e a espetacularização dos cultos (Mariano, 1995; Prandi, 1997; Campos, 1997).
              Todos esses aspectos são facilmente observados em um trabalho de campo, entretanto, acredita-se que eles resultam, particularmente, da mudança, enunciada por Campbell (1997), que ocorre na própria essência da teodiceia cristã, como consequência de um processo de orientalização do Ocidente. Nesse sentido, o neopentecostalismo se afasta da ortodoxia cristã tradicional e assimila conteúdos das tradições religiosas do Oriente.
              A Confissão Positiva e seus desdobramentos seriam os sinais mais explícitos dessa transformação que Fonseca (1998, p. 7) chama de “Nova Era Evangélica”.
              Ao se afastar da ortodoxia do protestantismo dos reformadores, o neopentecostalismo segue a tendência de uma vivência religiosa que, segundo Simmel (1997), é mais convergente com o processo de individualização desencadeado pelas transformações que dão o contorno do mundo moderno. Considerando que a individualização traduz-se, entre outras coisas, em autonomia e emancipação, é de se esperar que a vivência religiosa pautada pela crença em um Deus transcendente e soberano, cuja vontade se sobrepõe a todas as outras, perca espaço para uma concepção de divindade que não ameaça a posição de centralidade conquistada pelo ser humano, agora sujeito de si e da história.
              Se a emergência do movimento neopentecostal evidencia uma tendência religiosa antropocêntrica, em contraposição ao teocentrismo do cristianismo tradicional, a chegada e o avanço de religiosidades de cunho oriental confirmariam tal tendência. Embora pareçam incipientes no ranking das religiões fornecido pelo IBGE, Deis Siqueira (2003) argumenta que essas religiosidades, cuja expressão mais popular é o multifacetado movimento New Age[1], vêm obtendo êxito significativo no campo religioso brasileiro, sinalizando que o Brasil não passou incólume pela onda de orientalização religiosa verificada primeiramente em países da Europa.            
                   Portanto, tendo como ponto de partida a tese de Campbell (1997) de que o Ocidente está sendo orientalizado, o objetivo aqui é apresentar indicativos de que o neopentecostalismo e as religiosidades de cunho oriental, doravante denominadas também de  neoesotéricas[2], possuem similaridades que evidenciam que ambos estão em total conformidade com as demandas existenciais típicas da sociedade contemporânea; daí o êxito na disputa por consumidores de bens de salvação.
              Como casos representativos das vertentes citadas, privilegia-se como lócus do trabalho de campo a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) e a instituição religiosa Perfect Liberty (PL). A opção pela Iurd foi determinada não apenas por ser a denominação neopentecostal que mais cresce, mas também porque possui algumas especificidades que a tornam bastante representativa do gênero.
              Entre tais especificidades, chama a atenção o sincretismo evidenciado por meio da apropriação e ressignificação de elementos simbólicos de outras religiões e de superstições populares.


[1] Magnani (1999, p. 10) afirma ainda que o movimento New Age, que ele prefere denominar como movimentos neoesotéricos, compreende orientações religiosas não oriundas apenas de tradições orientais, mas também do “encontro da ciência contemporânea e antigas cosmologias, das tradições indígenas e novas propostas ecológicas”.
[2] Utiliza-se aqui a terminologia que se considera mais adequada. Existe uma grande variedade de conceitos para se referir ao mesmo fenômeno social. Magnani (1999) opta por “neoesoterismo” para aludir às religiosidades heterodoxas que, entre outras influências, sustentam-se nas cosmologias orientais.
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*O texto acima é apenas a parte introdutória.  Para ler o artigo completo, acessar  http://www.fflch.usp.br/ds/plural/ed_18_2.html

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A arte como salvação: sobre a literatura



          Max Weber, em sua análise sobre a esfera estética, mostra como esta emerge tutelada  pela religião,  expressando-se de forma primordial por meio da arte sacra. No entanto, com o processo de modernização, a religião, que outrora regia todos os âmbitos da vida, perde força,  passando  a operar apenas num domínio específico, ocorrendo o que Weber denomina de autonomização das esferas. Desse modo, a arte começa a se desenvolver de forma independente. Se antes ela servia ao propósito único de ligar terra e céu, com o objetivo final de auxiliar na salvação das almas, no mundo moderno, ela adquire um fim em si mesma, transformando-se em outra forma de salvação, exclusivamente terrena. Assim, se em princípio era utilizada pela Igreja como instrumento de propagação dos seus ensinamentos, com a modernidade,  começa a ser percebida e tratada como concorrente pela instituição religiosa.
A análise de Weber levou-me a refletir sobre a importância da arte  na minha vida. Considero que, de fato, ela tem impacto salvífico, não antagônico à religiosidade, mas complementar. Embora  esteja socialmente numa esfera distinta da religião,  é essencialmente espiritual.  Isto porque nos  eleva, nos dignifica e é capaz de por em evidência aquilo que temos de melhor, seja na sua produção, no caso dos artistas, ou na sua interpretação, no caso dos consumidores.  Não sou artista e nem expert,  portanto, minha fala é sob a perspectiva daqueles que apreciam e sofrem sua influência.
Dentre todas as formas de expressão artística, acredito que a literatura é que mais influenciou  na formação da minha personalidade.  Fui alfabetizada aos oito anos de idade. A palavra escrita fez com que uma nova  realidade se abrisse para mim.  A primeira transformação, e talvez a mais importante, foi me colocar a par da existência e da importância das outras pessoas. Eu que era uma criança absolutamente ensimesmada, aprendi o que é empatia: o outro não é qualquer um, é aquele que tem uma história que pode ser mais difícil e mais dolorosa que a minha.
Outra mudança que a literatura provocou foi o fato de ter acendido em mim um desejo de  conhecimento que não esmorece. Confesso que isso tem alguns aspectos negativos. Entre eles, uma incômoda lucidez.  É  menos  perturbador ser alienado, acreditar naquilo em que a  maioria acredita, buscar satisfação em coisas mais simples. Numa vida assim,  as escolhas são mais fáceis e os medos não assombram tanto. Por outro lado, o conhecimento  traz como  recompensa a possibilidade de uma vida mais plena. É importante frisar que não falo de um conhecimento específico, mas de uma série de informações, sensações e experiências que abrem nossas mentes, que nos fazem enxergar o mundo sem escamas nos olhos ou, pelo menos, de forma mais clara e, consequentemente, menos preconceituosa. É através do conhecimento também que educamos  nossos sentidos. Uma bela obra de arte precisa de olhos competentes, uma boa música  de ouvidos sensíveis e  uma boa comida de um paladar que saiba apreciá-la. Não são coisas fundamentais, mas, com certeza, nos dão uma dimensão mais precisa daquilo que o ser humano é capaz de realizar, além de proporcionarem momentos muito prazerosos.
Por fim, a literatura sempre me serviu de companhia e, mais que isso, me ensinou a fazer companhia a mim mesma. Como bem disse Saramago em O ano da morte de Ricardo Reis,  “A solidão não é viver só, é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou alguma coisa que está dentro de nós”.  Isso é importante porque determina a qualidade das nossas relações.  Estar com alguém é muito bom, mas não devemos ficar com uma pessoa por medo da solidão. Nada se compara à sensação de conversar com alguém com quem nos identificamos: compartilhar gostos, percepções e valores, ou mesmo com alguém  que seja diferente, mas que nos acrescenta algo, nos enriquece. Quando isso não é possível,  os personagens dos livros estão lá, com suas dores, arrependimentos, desejos, medos, virtudes e defeitos,  nos servindo de espelho. Mesmo que sejam aparentemente bem distintos de nós, há sempre um reconhecimento. Através dos livros aprendemos que nunca estamos sós, mas é preciso que haja entrega e sensibilidade para desfrutar de tão preciosa companhia

Bibliografia:

WEBER, Max. Rejeições religiosas do mundo e suas direções [1915]. In: Ensaios de Sociologia (H.H. Gerth e C. Wright Mills org.). Rio de Janeiro : Guanabara, 1979.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Sobre a internet e o que há de melhor e pior em nós



A internet é um território habitado por seres de variados tipos. Embora todos, aparentemente,  pertençam a uma única espécie, a humana,  seus gostos, o modo como se comportam, o que compartilham, os nichos nos quais se inserem, são evidências incontestáveis dessa heterogeneidade. Não há como negar, pelo menos por aqueles que estão conectados, que é um espaço democrático. Tão democrático que comporta, e suporta, posições radicais,  tiranias e fundamentalismos, do mesmo modo que difunde ideais de paz, amor e  tolerância. Em 2011, ela teve um papel realmente significativo. Foi o principal veículo de denúncias e, o mais importante, uma parcela relevante da população não ficou passiva diante delas. Usando particularmente as redes sociais, mobilizou-se contra a corrupção, contra o sistema econômico injusto, em defesa dos animais, da liberdade e de uma série de outras causas importantes. Revoluções foram feitas, líderes caíram e instaurou-se um clima de expectativa em relação ao que está por vir.
Apesar de considerar o saldo positivo,  é preciso levar em conta também os aspectos negativos. O fato de ser um território relativamente livre, dá margem para que não poucas pessoas exponham também seus sentimentos mais mesquinhos, seus anseios fúteis, sua superficialidade e, principalmente, uma animosidade gratuita. Todos se tornam vítimas da “trollação”. São críticas sem fundamento, cujo único objetivo  é deixar mal aqueles a quem são direcionadas, numa tentativa constante de se sentir superior diante dos supostos defeitos ou fraquezas alheias.  Assim, magros e “sarados” reivindicam sua supremacia  detonando todos que não se encaixam neste padrão. Os jovens vilipendiam a maturidade dos mais velhos. Os que se julgam inteligentes, por ter um curso superior, humilham aqueles que ignoram as regras da gramática.  As celebridades desmistificadas também “trollam” e são “trolladas”. O caso de Ed Motta no facebook é emblemático. Ficou mais que claro seu preconceito de origem e social, e sua tendência misógina no comentário que fez sobre Paula Toller. Segundo ele, ela não tem talento, mas é bonita. Em outras palavras, isso a torna  suportável.
Confesso que, diante disso, sinto alguns temores. Visito blogs, sites de notícias e participo de  redes sociais. A impressão que tenho é que essas pessoas amarguradas, vazias, mal-intencionadas e intolerantes são onipresentes. Não acredito que sejam a maioria, mas penso que fazem mais barulho. Não se intimidam perante nada. Meu maior receio é que, pela insistência,  consigam inculcar em nós o cinismo, no sentido contemporâneo do conceito, não no sentido filosófico. Ou seja, que acreditemos que as coisas são assim porque são e não adianta fazer nada. Isso,  definitivamente, não é verdade. Precisamos continuar defendendo causas justas, sem agressividade, sem desrespeito, mas com muita tenacidade.  Ainda que pareça uma visão maniqueísta, devo esclarecer que não é. Tenho ciência de que o  mesmo que incorpora a  personalidade de “troll” na net,  pode ser, longe do teclado, o  bom vizinho, o bom amigo, o bom filho. O que não podemos é deixar que, por meio da rede, o pior que há em nós leve vantagem e nos domine.  Até mesmo neste universo de avatares,  o bem-estar de cada um está intimamente ligado ao bem-estar do outro.  E vale sempre lembrar que o  limite das grandes revoluções que visam melhorar o mundo é dado pela nossa indisposição de melhorarmos a nós mesmos. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

*Igreja Universal do Reino de Deus: o imperativo “Pare de sofrer” como fundamento de uma nova teodicéia


                                                    (Imgem: http://www.marciodesouza.com)

“Pare de Sofrer”,  slogan amplamente difundindo pela Igreja Universal põe em evidência o fundamento sobre o qual está estabelecido todo seu conteúdo doutrinário e, consequentemente, o meio pelo qual concorre no mercado religioso pelo “monopólio da gestão dos bens de salvação e do exercício legítimo do poder religioso” (Bourdieu, 2005, p. 57). O propósito  deste trabalho é mostrar que a  força do discurso iurdiano está na reiteração constante da  possibilidade de uma existência terrena livre de qualquer angústia, pondo em evidência, por conseguinte,  a proposta de uma nova teodicéia, na qual o sofrimento  deixa de ser uma realidade inevitável.
Para tentar fundamentar biblicamente os ensinamentos, torna-se necessária uma forma de interpretar as Escrituras distinta daquela feita pelo cristianismo tradicional. É o que explica Mariano (1996) ao afirmar que “era preciso substituir suas concepções teológicas que diziam que os verdadeiros cristãos seriam, se não materialmente pobres, radicalmente desinteressados de coisas e valores terrenos” ( p.27).  A demonização da pobreza é o melhor exemplo dessas novas concepções teológicas. O pobre não é mais o “bem-aventurado”, mas, ao contrário, é aquele que se encontra sob maldição, daí a necessidade primordial que tem de ser liberto.
Toda a construção do universo simbólico iurdiano evidencia uma luta aguerrida, cujo objetivo não é nada menos do que a hegemonia no mercado religioso. Para isto, lança mão de diversas estratégias.  Seu ponto de partida é a teologia da prosperidade. Não há nada mais atrativo para uma sociedade, que alia a possibilidade do consumo irrestrito à noção de felicidade, do que um discurso triunfalista fundado em promessas de ascensão econômica e social. Diversificando sua oferta através do uso de elementos de outras religiões, a IURD atrai pessoas de outros credos promovendo, dessa forma, uma identificação mais rápida com seu sistema simbólico (Bonfatti,1999; Campos, 1999). E, finalmente, tudo elaborado sob uma concepção dualista, Deus e diabo em guerra constante, que fornece a objetivação do mal que, agora conhecido, pode ser derrotado.
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* Resumo de trabalho apresentado no XI Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. Link para o artigo completo: http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1307040879_ARQUIVO_IgrejaUniversaldoReinodeDeus-OimperativoParedeSofrecomofundamentodeumanovateodiceia.pdf

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A atual onda de protestos como consequência previsível da sociedade de risco



É provável que só tenhamos uma ideia mais precisa acerca do efervescente  momento histórico que estamos vivendo daqui a  alguns anos. No entanto, não é necessário esperar para saber  que não passaremos incólumes por ele. E é bom que não passemos,  afinal, as pessoas gritam por mudanças, exigem uma nova ordem, na qual, o futuro não se apresente como uma ameaça. Mais do que qualquer coisa, o que  desejam, especialmente os jovens,  são boas perspectivas, fazer planos e acreditar na possibilidade de sua concretização.
 Desse modo,  a onda de protestos que ocorre no mundo é uma reação, relativamente esperada,  diante de uma sociedade global mergulhada na incerteza.  Não por acaso, já que as crises das quais somos vítimas, crise do capitalismo, crise política, crise ambiental e outras,  são conseqüências  indesejadas, mas não imprevisíveis das escolhas que governos e indivíduos compartilharam no decorrer do processo de modernização. Poderíamos simplesmente culpar os líderes mundiais, e talvez eles sejam mesmo os principais responsáveis, todavia,  sem o nosso consentimento e, muitas vezes, apoio efetivo,  eles não conseguiriam  transformar a humanidade em  refém dos riscos que foram produzidos em nome do  progresso.  Como afirma Ulrich Beck (1997), nós criamos a sociedade de risco.
O sociólogo explica que o processo de modernização pode ser percebido em duas fases. A primeira seria o estágio do desenvolvimento industrial e caracteriza-se  pela prevalência da perspectiva dos benefícios do progresso. Os males eram percebidos  como  residuais e, por conseguinte,  menosprezados. Todavia, na análise de Beck, os resultados indesejados do desenvolvimento traçaram o contorno da segunda fase da modernização. Assim, ele afirma que,

[...] uma situação completamente diferente surge quando os perigos da sociedade industrial começam a dominar os debates e conflitos públicos, tanto políticos como privados. Nesse caso, as instituições da sociedade industrial tornam-se os produtores e legitimadores das ameaças que não conseguem controlar (1997:15-16).


A insegurança,  com a qual convivemos há algum tempo, cresce. As ameaças, cada vez mais, tornam-se reais. Poderíamos argumentar que tudo que ocorre sempre existiu, fome, guerras, tragédias ambientais. É verdade, mas o que diferencia a atual situação é que há uma tendência mais geral de empobrecimento. As vítimas não são mais apenas os países subdesenvolvidos e emergentes. Os países ricos, que sempre se pautaram pela esperança tola no crescimento infinito do mercado, percebem agora que, apesar dos indivíduos serem continuamente estimulados a consumir, a capacidade de consumo, mesmo por meio de endividamento, é menor do que a ganância capitalista que produz mais e mais.
Ainda é cedo para dizer que está se cumprindo o prognóstico marxiano de colapso do capitalismo. Afinal,  foram muitas crises e o sistema sempre mostrou uma capacidade impressionante de recuperação e re-ordenamento,  sem, contudo,  mudar suas bases estruturais. Entretanto, a tomada de consciência da população mundial, evidenciada nos protestos, sinaliza que ela não está mais disposta a aceitar passivamente  a tirania que pode se manifestar, explicitamente, em governos totalitaristas  ou,  de forma dissimulada,    por meio de  sistemas sociais injustos.  
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BECK,  Ulrich. A reinvenção da política: rumo a uma teoria da  modernização reflexiva In:
GIDDENS, A.; BECK, U.; LASH, S.  Modernização Reflexiva. Tradução de Magda Lopes. 2
reimpressão. São Paulo: Editora Unesp, 1997. p. 11-71.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Gisele Bündchen: a mulher-objeto e a limitada formação crítica dos brasileiros



A campanha da Hope (marca de lingerie),  estrelada pela Top Model  Gisele Bündchen,  tem sido alvo de diversos protestos. Não sem razão,  já que os comerciais reproduzem antigos estereótipos que pessoas mais esclarecidas, independente de gênero, lutam há tempos para derrubar.  Neles, a mulher brasileira é apresentada como um ser dotado de natural sensualidade e é incentivada a utilizar essa arma para resolver situações problemáticas com o esposo.
Qualquer pessoa que tenha senso crítico um pouco mais aguçado poderá perceber que, do início ao fim, os comerciais reforçam a ideia de que  a mulher não é só sensual, ela é também péssima motorista, financeiramente dependente do marido e limitada na sua capacidade argumentativa, daí basta tirar a roupa e todos seus problemas serão resolvidos.  Mais uma vez, a brasileira, especificamente,  é revestida de uma imagem altamente sexualizada.
Não sou da patrulha do politicamente correto, penso até que existe um certo exagero,  também não sou feminista militante. As causas que me movem são aquelas em favor da dignidade humana, portanto, sempre me colocarei em defesa dos grupos que sofrem qualquer tipo de opressão.  Por isso, me senti impelida a escrever este post, sobretudo depois de ler comentários de leitores no UOL sobre a notícia de que o governo pediu a suspensão das propagandas.
A maioria absoluta se posicionou contra o governo e a favor de que os comerciais continuem sendo veiculados. Todos têm direito de manifestar suas opiniões e devem ser respeitados, no entanto,  é difícil não ficar frustrada diante dos argumentos usados. Entre os mais  recorrentes está dizer que as mulheres que protestam são feias, invejosas, encalhadas, mal-amadas e uma série de outros adjetivos semelhantes. Diante de argumentos tão boçais que põem em evidência o atraso intelectual do povo brasileiro,  é difícil, como educadora, não ficar frustrada.  Mais grave ainda é ver que as mulheres, de modo geral, aprovam a campanha por achar que se trata de elogio, não conseguem perceber a  discriminação e o sexismo explícitos, sim, porque o que passam não é uma mensagem tácita ou subliminar.  
A conclusão que podemos tirar disso é que o Brasil ainda não conseguiu oferecer formação suficiente para que as pessoas desenvolvam algum nível de  capacidade crítico-reflexiva.  Só depois que os indivíduos estiverem devidamente esclarecidos é que podem escolher, com mais legitimidade, como vão se posicionar.  No caso das mulheres, particularmente,  elas podem até optar por serem tratadas como objetos, mas não sem antes saber que há outras escolhas possíveis. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sobre a picaretagem acadêmica dos pseudo-intelectuais


Desde que abri este blog, em agosto de 2008, ele só me trouxe coisas positivas. Por meio deste espaço pude compartilhar ideias, pensamentos, meu modo de ver a sociedade e alguns textos resultantes do meu esforço acadêmico em busca de maturidade intelectual. O feedback que recebo de alguns leitores serve de estímulo para continuar. Embora  não tenha a disponibilidade de tempo que gostaria para atualizá-lo com mais freqüência,  estabeleci um compromisso comigo mesma de mantê-lo porque acredito que o conhecimento deve ser sempre socializado.
            Entretanto, no dia 24/08/2011, pela primeira vez  tive vontade de romper com meu propósito. Uma pessoa, que não quis se identificar, postou um comentário sobre o meu texto “Sociedade contemporânea: medo, individualização e a possibilidade de uma práxis comunicativa” me acusando de ter copiado o artigo sem dar os devidos créditos.  Não podem imaginar a raiva e a frustração que senti na hora. Apesar de todas as dificuldades e desafios  que uma vida acadêmica exige, sempre fiz questão de manter minha integridade, mas, infelizmente, por experiência própria descobri que nem todos conseguem.
            Logo após ler o comentário,  ciente que alguém havia se apropriado indevidamente do meu texto, iniciei uma pesquisa na web. Qual não foi minha surpresa ao descobrir um artigo que trazia partes exatamente iguais à minha publicação.  De imediato escrevi para os “autores” demonstrando minha indignação. Como se não bastasse também utilizaram parte do mesmo texto em outro artigo para o Congresso da  ALAS (Associação Latino-Americana de Sociologia) que ocorrerá na cidade de Recife este ano.  Com receio de que este não fosse um caso isolado, resolvi investigar se outros posts  meus  foram utilizados indevidamente. Fiquei surpresa a ver que além do texto citado, outros três foram publicados em blogs como se fossem de autoria daqueles que os copiaram. É muito fácil comprovar a verdadeira autoria, já que todos foram postados aqui com datas bem anteriores.
            Considero que o primeiro caso é o mais grave por dois motivos: primeiro porque os plagiadores são acadêmicos, o que lhes confere certa legitimidade,  e segundo porque publicaram em revista acadêmica.  Segue abaixo os links  das páginas onde postaram meus textos:  http://www.abraec.org/coniec/pdf/9.pdf  O  terceiro parágrafo da página 4, o segundo e o terceiro da página 5 e toda a discussão sobre Habermas a partir do terceiro parágrafo da página 9 são reproduções exatas do meu trabalho. Até mesmo as vírgulas que coloquei equivocadamente não foram corrigidas.  Essa parte sobre Habermas também foi reproduzida neste artigo http://www.sistemasmart.com.br/alas/arquivos/9_8_2011_13_12_12.pdf a partir da página 9.
Além desse texto, os outros três que foram apropriados de forma indevida são: “Sobre o poder simbólico em Pierre Bourdieu ”, o link do blog que o publicou é este  http://marceloevelin.wordpress.com/2010/08/20/sobre-poder-simbolico/#comment-114,  “Uma aprendizagem em Clarice Lispector”,  a pessoa que  o plagiou que atende pelo pseudônimo de Senhorita Baunilha, teve o trabalho apenas de mudar o título, segue o link: http://srta-baunilha.blogspot.com/2010/02/meu-fascinio-por-clarice-lispector_23.html?showComment=1314243315596#c7117759005895443560, e, por fim, o texto “Sobre a teoria da estruturação de Anthony Giddens” que foi publicado neste site: http://pt.scribd.com/doc/52211954/Sociologia
Quero deixar claro que não me importo que usem meus textos, afinal, a partir do momento que eu os torno disponíveis na net é para que todos tenham acesso a eles. Só que por uma questão de honestidade intelectual é preciso que os devidos créditos sejam dados. Apesar da angústia que ainda estou sentindo, pretendo continuar com o blog. Apenas desistirei dele quando os leitores desistirem de mim. Jamais passou pela minha cabeça que um dia usaria este espaço para escrever algo assim, mas acredito que não podemos ficar passivos diante de situações como essa. No mais, agradeço a todos que vêm aqui com objetivos distintos dessas pessoas que denunciei. 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Sobre a metrópole e suas consequências para a vida mental em Georg Simmel



Segundo Simmel, as maiores dificuldades da vida moderna resultam das tensões existentes entre o  indivíduo, com sua vontade de  autonomia e emancipação,  e a força dos poderes supremos da sociedade com suas instituições, cuja função primordial é fornecer os padrões sócio-culturais que devem ser compartilhados por todos.  Nesse processo de luta pela liberdade, os acontecimentos do século XVIII tiveram um papel significativo, especialmente com a difusão dos valores iluministas. No século XIX, ocorreu outra importante mudança, pois,  além da liberdade do homem, houve uma promoção  da sua  individualidade, possibilitada pela intensificação da divisão do trabalho. Assim, estabeleceu-se uma ambiguidade: se por um lado a especialização fez com que o indivíduo se tornasse único e indispensável, por outro, o transformou em um sujeito que depende dos outros no cumprimento de seus respectivos papéis. 
A proposta de Simmel é tentar desvelar a forma como o indivíduo responde  diante do excesso de estímulos nervosos que recebe vivendo nesse mundo complexo, caracterizado por um dinamismo sem precedentes. Mais especificamente, o autor está interessado em compreender as defesas psicológicas que o  habitante da metrópole desenvolve para  lidar com os desafios de se viver numa grande cidade.  Uma assumida tendência à  intelectualização  e a  atitude blasé  definem a postura típica que o sujeito  assume como forma de reação perante os estímulos excessivos. Ao anunciar o domínio do intelecto na condução das relações humanas, Simmel aponta como principal prejuízo o distanciamento afetivo com o propósito  de preservar a sanidade psíquica.  O uso do dinheiro, elemento neutro, seria uma evidência desse distanciamento. Nesse sentido, as relações de troca, também acentuadas com a divisão do trabalho, prescindiriam das relações pessoais mais próximas, já que a mediação é feita por meio da moeda corrente. O mercado, portanto, apresenta-se como o lugar, por excelência,  das relações no mundo moderno.  O comportamento  blasé, resultante do mesmo processo,  caracterizaria a postura de indiferença do indivíduo frente aos inúmeros acontecimentos cotidianos. A recorrência desses acontecimentos torna-os banais, ou seja,  os indivíduos deixam de reagir a eles. Nesse contexto,  o sujeito perde sua capacidade de distinção entre as coisas que, em consequência, deixam de ser percebidas como significantes.
Além dos traços, acima descritos, vale ressaltar,  ainda,  que a vida mental desse indivíduo citadino caracteriza-se, também, por uma atitude de reserva que se manifesta por meio de um código tácito que impede que os limites da convivência sejam ultrapassados. Dessa maneira, evita-se os contatos indesejados assumindo uma atitude que pode ser interpretada como frieza.  Em última instância, a reserva pode vir à tona como repulsa mútua e/ou sentimento de ódio, produzindo, por conseguinte, conflitos.
Em síntese,  a vida na metrópole condicionaria a emergência de relações sociais marcadas pela indiferença, pela impessoalidade, pelo cálculo e por uma extrema individualização dos sujeitos. Simmel conclui falando sobre as inúmeras possibilidades da vida metropolitana, com toda  sua riqueza cultural e fertilidade de significados. Na metrópole, o indivíduo pode se ver livre  das amarras a que estão sujeitas as pessoas que vivem em pequenas comunidades.  Não obstante,  essa liberdade pode assumir a forma de solidão e anonimato.
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SIMMEL, Georg. A metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio Guilherme (org.). fenômeno urbano. 4ª ed. Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1987.

domingo, 12 de junho de 2011

Ponderações sobre a existência em "A insustentável leveza do ser" de Milan Kundera





A leitura de "A insustentável leveza do ser" é uma experiência fascinante para aqueles que estão aptos a mergulhar na profundidade de todas as questões existenciais trazidas pelo autor. O enredo possui uma característica fundamental de todo bom texto, nos faz pensar. Assim, o fascínio que provoca não deve ser confundido com o prazer simples que um livro qualquer possa nos trazer. Aliás, aludindo à dicotomia, leveza/peso, que é o eixo da narrativa, digo que não é uma sensação de leveza que toma conta do leitor ao fim da história. Kundera nos convida para uma reflexão sobre a vida da qual seria bom que ninguém saísse ileso. A narrativa tem como ponto de partida o autor evocando a idéia do eterno retorno de Nietzsche. Não sem razão, já que é a filosofia nietzscheana que melhor traduz o espírito da época que vemos manifesto nos personagens, especialmente, Tomas e Sabina. O eterno retorno não deve ser entendido como o processo cíclico da história. É um mito e, por negação, pretende mostrar que a vida é uma só, essa é a sentença que pesa sobre os homens: “uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é como não viver nunca”. Vive-se sem saber se as decisões tomadas são realmente as melhores, não tivemos outras vidas para comparar. Não poderemos fazer certo da próxima vez, porque não haverá uma próxima vez. 

O romance tem como cenário a ocupação da Tchecoslováquia pela Rússia no ano de 1968, como contra-golpe à abertura democrática que fora proposta pelos intelectuais tchecos no movimento que ficou conhecido como a “ Primavera de Praga”. O sonho comunista tornou-se um pesadelo. É sob esse pano de fundo histórico que nos são apresentados Tomas, Tereza, Sabina, Franz e Simon. Tomas é um médico divorciado, cujo modo de vida consiste em não se apegar a nada. Seu objetivo é uma vida leve. Daí não sofrer com remorsos ao abrir mão da presença do filho, Simon, e de romper com seus pais que censuravam tal atitude. Entretanto, a leveza é ameaçada por Tereza, garçonete do interior, por quem, por uma série de casualidades sucessivas, acaba se apaixonando. Casa-se com Tereza, mas não abre mão de sua forma de viver, mantém casos extraconjugais, dentre os quais, destaca-se sua relação com Sabina, artista plástica que, assim como Tomas, não vê o mundo com o olhar dos crédulos. Na Suíça, lugar para o qual emigrou depois da ocupação russa, Sabina conhece Franz, mantém um caso com ele, mas não suporta o fato de que este possa, com seu amor, por abaixo a vida segura que construiu baseada numa visão cética da humanidade. Para Sabina, o que impera no mundo é o kitsch , a cegueira, a ilusão das ideologias que inculcam a possibilidade de um paraíso na terra; que negam a existência da “merda”. 

Tomas e Sabina representam todos aqueles que têm os olhos abertos para enxergar que os ideais defendidos, inúmeras vezes com derramamento de sangue, não passam de artifícios para enfeitar a vida. Essa é a função do Kitsch, servir como um arremedo estético. Eles tipificam o indivíduo que vive no mundo desencantado, enunciado por Max Weber. O mundo que superou, por meio da racionalidade, o pensamento religioso. Contudo, o esclarecimento também é mito, como afirmam Adorno e Horkheimer, portanto, as raízes do desencantamento são mais profundas e o resultado disso é a frustração e, por conseguinte, o pessimismo. Perde-se a fé em Deus, na ciência e o que resta é apenas o que podemos fazer com nossa breve trajetória aqui, que Kundera, com seu niilismo, condena à falta de qualquer sentido. 

Penso que, à semelhança das personagens, precisamos abrir os olhos, admitir que a vida é exatamente isso aí que nos está posto; a vida é sobretudo aquilo que se passa dentro de nós. Este é o lugar onde se desenrola o enredo particular da nossa existência. A aceitação da vida implica a aceitação da impossibilidade de construir um paraíso na terra. O paraíso não é mais o nosso lugar nesse mundo, fomos expulsos de lá, não podemos voltar sem que Deus nos permita, não podemos reconstruí-lo, pois é obra do Criador. Se o ser humano não fosse tão pretensioso, talvez pudesse compreender isso e, então, cessariam, ou pelo menos, diminuiriam muito os motivos para a guerra, para as lutas pelo poder e, como consequência, teríamos menos injustiças, menos desigualdades e mais respeito pelo outro. A ânsia pela vida nos faz viver menos. Acredito que é isto que Jesus quis dizer quando proferiu as seguintes palavras: “Aquele que perder sua vida, achá-la-á, mas aquele que ganhar a sua vida, perdê-la-á”. Ao contrário do que Kundera propõe em sua obra, é preciso ter  esperança. Enxergar e entender a vida  não significa curvar-se diante do imponderável. Ninguém foi capaz de dissecar tão bem a inutilidade das nossas preocupações como Cristo e, ao mesmo tempo, conferir sentido a nossa existência.
O autor-narrador afirma que a vida não é nada, não é sequer um esboço, já que não poderá ser passada a limpo, mas  creio  que a vida não se limita à contingência espaço-temporal na qual os céticos a encerram. Ouso sentenciar, baseada na fé que deposito nas palavras do Cristo, que estamos ensaiando. A verdadeira vida ainda está por começar. Sei que a história do cristianismo também é marcada pela tentação do Kitsch, seja no catolicismo, protestantismo, ou em qualquer outra vertente cristã. No entanto, precisamos fazer um esforço para  não confundir o que Jesus ensinou com muitas coisas que ensinam em nome d’Ele. Talvez seja justamente por causa dessa confusão que muitos de nós preferimos dar ouvidos à Nietzsche e seus porta-vozes. Ainda que eles tenham o que dizer, e não devamos ter  medo de ouvi-los, é necessário entendermos o limite de suas contribuições.  Conheci o niilismo, experimentei a vida sem esperança, não gostei. Prefiro a vida que tenho agora, ela é iluminada, não pela razão arrogante da modernidade, não pelo fanatismo religioso, mas pela consciência da graça. Entregar nossos fardos a Deus é o único modo de vivermos uma vida verdadeiramente leve.

sábado, 7 de maio de 2011

Sobre a intolerância dos pseudocristãos



Infelizmente, os líderes de igrejas que mais têm espaço na mídia são justamente aqueles capazes de deixar qualquer cristão, com o mínimo de bom senso, terrivelmente constrangido. Como se não bastasse  serem representantes de um evangelho completamente conformado  à lógica do mercado, porta-vozes de um discurso triunfalista que manifesta  desejo de  poder e riqueza,  ainda reivindicam para si, cegados pela arrogância,  o direito de legislar sobre a vida daqueles que não compartilham  a mesma fé.  A oposição irracional à união civil homoafetiva é um exemplo claro dessa pretensão de arbitrar sobre a vida de todos os indivíduos.
A lógica é simples: o que é uma verdade irrefutável para mim, não é para o outro, então não posso exigir que ele viva conforme a minha crença, do mesmo modo que ele também não pode exigir que eu viva de acordo com o que ele acredita.  Em nenhum de seus ensinamentos, Cristo nos outorga autoridade para impor o seu Evangelho, ao contrário, seu exemplo sempre foi de tolerância. Nas únicas vezes que manifestou indignação, de forma enfática, os alvos foram aqueles que falavam em nome de Deus, seguiam todas as regras, mas eram incapazes de serem compassivos.  
            O Brasil não é menos cristão porque reconhecemos o direito dos indivíduos de fazer o que querem  com suas vidas pessoais. O Brasil se torna menos cristão quando compactuamos com as injustiças e desigualdades sociais, quando toleramos a corrupção,  a desonestidade,  permitimos a crueldade.  Há causas realmente significativas que precisam do nosso engajamento. Não devemos nos esquecer que são por nossas próprias escolhas e ações que seremos responsabilizados.