quinta-feira, 22 de abril de 2010

Sobre o risco de anomia na sociedade contemporânea



Émile Durkheim, um dos fundadores da sociologia, lança mão do conceito de anomia para explicar o caótico período de transição pelo qual passava a Europa no século XIX. Nenhuma transição histórica ocorre sem crise. As instituições tradicionais perdem sua força normativa, as regras sociais começam a ser contestadas e não há uma autoridade com poder suficiente para promover a coesão social. Para Durkheim, que era um otimista defensor do ideário liberal, a situação era passageira. Ele acreditava na consolidação da sociedade capitalista que, por seu turno, promoveria uma integração tão forte entre os indivíduos que nenhum outro tipo de organização econômica havia conseguido.
Não quero focar no otimismo liberal do sociólogo francês, o objetivo da introdução é apenas elucidar o conceito de anomia que de modo inevitável surge em minha mente todas as vezes que assisto o noticiário ou tenho acesso às informações que são veiculadas pela mídia. A impressão que fica é que, à semelhança da época de Durkheim, estamos vivendo numa sociedade anômica. Não preciso relatar aqui as inúmeras barbaridades que os meios de comunicação se encarregam de nos colocar a par, tirando o máximo proveito da nossa sincera preocupação com o estado do mundo ou da nossa curiosidade mórbida.
Quanto mais sensacionalista e apelativa for uma matéria jornalística, maior público alcançará, como se o ato criminoso em si não fosse mais suficiente para nos deixar indignados. Digo isso porque temo que estejamos perdendo nossa sensibilidade. Em um trecho de seu livro Ensaio sobre a cegueira, José Saramago exemplifica bem o que estou tentando dizer. Ele observa:
[...] se uma pessoa mata outra, por exemplo, seria melhor enunciá-lo assim simplesmente, e confiar que o horror do ato, só por si, fosse tão chocante que nos dispensasse de dizer que foi horrível, Quer dizer que temos palavras demais, Quero dizer que temos sentimentos de menos. (grafia do autor)
Se, por um lado, os meios de comunicação cumprem a importante função de denunciar, por outro, eles contribuem para propagar o pessimismo, a sensação de insegurança e, pior que isso, ajudam a banalizar atos que devem ser veementemente repudiados pela sociedade. Estes são alguns dos efeitos colaterais do excesso de informação que recebemos. Não sem razão, o relativismo se acentua, temos dificuldades em estabelecer os limites entre certo e errado e somos tomados por uma apatia crônica.
Embora, às vezes, eu tenha a sensação de que as coisas estão fora de controle, penso que tal sensação não condiz com a realidade. As estruturas sociais estão cambiantes, mas conseguem manter uma certa ordem. Todavia, se não mudarmos de direção, acredito que num futuro bem próximo podemos sofrer a mais grave conseqüência da nossa falta de comprometimento com a situação atual: um retrocesso generalizado no processo civilizador. E isso pode se manisfestar de duas formas. A primeira é a instauração da barbárie como resultado da frouxidão das normas de convivência social. Os recorrentes crimes que ocorrem em instituições escolares da adoecida sociedade estadunidense é uma pequena amostra do que poderá acontecer em proporções bem maiores se algo não for feito. A segunda é a barbárie legitimada por ideais fundamentalistas. Ora, uma sociedade anômica clama por ordem. Dessa forma, qualquer líder que acene com a possibilidade de segurança pode ganhar facilmente a adesão daqueles que anseiam por alguém que seja capaz de lhes dizer o que está errado e como esse mal deve ser combatido. Assim, tudo se torna válido em prol do objetivo maior de colocar as coisas no seu devido lugar. Os maiores crimes da humanidade foram cometidos sob esse pretexto.
O prognóstico delineado não é nada bom, mas as coisas não precisam acontecer dessa maneira. Podemos construir um mundo que seja mais aprazível para todos. A única revolução de que necessitamos deve acontecer dentro de cada um de nós para vencermos a alienação que nos faz valorizar o supérfluo em detrimento daquilo que realmente importa: o ser humano. A valorização do homem exige atitudes concretas. Quando nos envolvemos com causas significativas, quando não nos isentamos da responsabilidade de educar nossos filhos, quando somos comprometidos com princípios éticos, contribuímos de forma efetiva para que o futuro seja, de fato, mais promissor do que o momento presente parece indicar.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Robert K. Merton - Estrutura social e anomia



As perspectivas sociológicas se voltam para a análise do comportamento que se desvia das normas prescritas. Observar a freqüência do comportamento desviado e porque o desvio tem diferentes formas e moldes em estruturas diferentes. Segundo Merton, a infração dos códigos constitui uma reação “normal”. Seu trabalho consiste em tentar esclarecer esse problema e proporcionar um enfoque sistemático da análise das fontes sociais e culturais do comportamento transviado.

Objetivo Principal: Como algumas estruturas sociais exercem uma pressão definida sobre certas pessoas da sociedade para que sigam uma conduta não conformista.

Padrões de metas culturais e normas institucionais

Dois elementos importantes das estruturas sociais e culturais:

  1. Objetivos culturalmente definidos, de propósitos e interesses, mantidos como objetivos legítimos para todos, ou para membros diversamente localizados na sociedade.
  2. Elemento da estrutura social que define, regula e controla os modos aceitáveis de alcançar os objetivos. As normas institucionalizadas limitam a escolha dos meios para atingir as metas culturais.

    • A ênfase cultural dada a certos objetivos varia independentemente do grau de ênfase dos meios institucionalizados.

Há um problema de má integração cultural quando objetivos particulares se sobrepõem aos meios institucionalizados e, portanto, socialmente aceitos para alcançá-los. Nesse sentido, a eficiência técnica se torna mais importante do que os meios institucionalizados. Por outro lado, o total conformismo com o que está posto pode gerar estagnação. A sociedade é limitada pela tradição “sagrada” marcada pela neofobia. Esse tipo de sociedade é integrada e relativamente estável.
O equilíbrio seria o total ajustamento das satisfações proporcionadas aos indivíduos às pressões culturais provenientes da realização de objetivos, satisfação derivada também da forma de esforço para atingi-los.

Hipótese do autor: O comportamento desviado pode ser considerado sociologicamente como um sistema de dissociação entre as aspirações culturalmente prescritas e os meios estruturalmente proporcionados para realizar essas aspirações.

A cultura norte-americana é apontada como exemplo de sociedade que põe ênfase nos objetivos, sem a ênfase equivalente nos meios institucionalizados. O êxito financeiro é supervalorizado, e o indivíduo é levado a crer que todos podem alcançar o sucesso.

A cultura norte-americana impõe a aceitação de três axiomas culturais:

  1. Todos devem se esforçar para atingir os mais elevados objetivos, já que estão á disposição de todos. Psicologicamente, reforço simbólico do incentivo. Sociologicamente, desvio da crítica da estrutura social para o próprio indivíduo.
  1. O aparente fracasso momentâneo é apenas uma estação no caminho do sucesso final. Psicologicamente, um freio à ameaça de extinção da reação mediante um estímulo associado. Sociologicamente, preservação de uma estrutura de poder social pela identificação dos indivíduos dos estratos inferiores não com seus pares, mas com aqueles que estão no alto.
  2. O verdadeiro fracasso consiste apenas na diminuição ou retirada da ambição. Psicologicamente, aumento da força impulsora para responder constantemente ao estímulo, apesar da continuada ausência de recompensa. Sociologicamente, atuação de pressões culturais favoráveis à conformidade com ditames culturais de ambição irreprimível. Os acomodados podem ser considerados como não pertencentes à sociedade.

Como reagem os indivíduos que vivem nesse contexto cultural?

Tipos de adaptação individual

Merton considera cinco tipos de adaptação:

  1. Conformidade – Em sociedades estáveis, a conformidade é o tipo de adaptação mais difundido. Os padrões estabelecidos são amplamente aceitos pelos membros.
  1. Inovação – A ênfase cultural sobre os objetivos estimula este modo de adaptação através de meios institucionalmente proibidos, mas freqüentemente eficientes para atingir pelo menos o simulacro do sucesso- riqueza e poder. O mérito está em se dar bem, por conseguinte, fica minimizada a distinção entre os meios legais dos costumes, dos meios espertos. As maiores pressões para o comportamento transviado são exercidas sobre as camadas inferiores, pois, estas, não têm acesso aos meios legais para atingir as metas. Assim, vícios e crimes constituem uma reação “normal” contra uma situação em que a ênfase cultural sobre o sucesso pecuniário tem sido assimilada, mas onde há pouco acesso aos meios legítimos para que uma pessoa seja bem sucedida. Os conscientes podem assimilar outro modo de adaptação: a rebelião. Há ainda àqueles que recorrem às justificações místicas, tais como a doutrina da sorte, que cumpre dupla função: explicar a freqüente discrepância entre mérito e recompensa ao mesmo tempo que conserva imune da crítica uma estrutura social que permite tal discrepância.
  1. Ritualismo – As regras institucionais são seguidas quase que compulsivamente. Baixo nível de aspiração derivado do medo de fracassar.
  1. Retraimento – Rejeição dos objetivos culturais e meios institucionais. É a mais incomum forma de adaptação. Pessoas adaptadas (ou mal adaptadas) desse modo estão na sociedade, mas não são da sociedade, pois não compartilham da escala comum de valores. Ex: artistas, psicóticos, párias, proscritos, drogados.
  1. Rebelião – Esta adaptação leva os homens que estão fora da estrutura social circuncidante a encarar e procurar trazer à tona uma estrutura social nova. Pressupõe o afastamento dos objetivos dominantes e dos padrões vigentes, os quais vêm a ser considerados puramente arbitrários, portanto, não podem exigir sujeição, nem serem considerados legítimos. O objetivo da rebelião é introduzir uma estrutura social onde haja uma correspondência mais estreita entre o mérito, o esforço e a recompensa.


Rebelião # ressentimento
· A função dual do mito: a rebelião se sustenta sobre um novo mito, que serve como propulsor na busca de uma estrutura que presumivelmente não provocará frustração nos indivíduos merecedores. Por outro lado, o mito conservador pode assegurar que as frustrações estão na natureza das coisas e ocorrem em qualquer sistema social. O mito da rebelião e do conservadorismo trabalham na direção de um “monopólio da imaginação” em termos que encaminhem o frustrado à adaptação 5 ou o afaste dela.


Tendência à anomia

Quando a ênfase cultural muda da satisfação provinda da competição para a preocupação exclusiva com o resultado final, a tensão resultante favorece a ruptura da estrutura reguladora
O papel da família – A família é uma importante correia de transmissão na difusão dos padrões culturais em relação a geração seguinte. As crianças são estimuladas, não apenas por meios diretos, mas, também, pela convivência e observação constantes, a assimilarem determinados paradigmas.

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· A projeção das ambições paternas sobre a criança – os pais podem tentar obter sucesso por procuração, através de seus filhos- projeção compensatória. Dedução: os pais “fracassados” exerceriam uma maior pressão sobre os filhos, estimulando o comportamento desviado, pois os meios legítimos não estão acessíveis justamente a essas camadas.


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*Este texto é o resumo de um seminário que apresentei sobre teoria sociológica contemporânea. Espero que seja útil para aqueles que buscam compreender as proposições de Robert K. Merton.

Bibliografia
MERTON, Robert K., Estrutura social e anomia In: Sociologia; teoria e estrutura. São Paulo: Mestre Jou, 1970.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Novas Práticas Sociais na Educação: por um ensino de qualidade e pelo resgate do prazer de lecionar




Tive a oportunidade de participar, neste mês de janeiro, de um projeto que a Universidade Federal de Goiás está desenvolvendo em parceria com o MEC (Ministério da Educação e Cultura), cujo objetivo principal é a formação de educadores da rede pública do Estado de Goiás, visando o desenvolvimento de novas práticas sociais na educação. Passei dez dias em uma cidade do interior ministrando a disciplina Metodologia de Intervenção Social para cerca de 170 alunos divididos em quatro turmas. Confesso que não foi um trabalho fácil. Digo isso não por causa de extensa carga horária, mas, especialmente, por causa da falta de motivação estampada no rosto de muitas daquelas pessoas que ali estavam. Algumas delas me confessaram que faziam o curso porque sofreram certa coerção ou por razões absolutamente pragmáticas. Não as culpo, é realmente muito difícil manter a motivação correta diante do descaso que tem vitimado a educação brasileira, sobretudo, o ensino básico.
Além de todos os problemas sócio-culturais que afetam diretamente a escola, evidenciados particularmente pela crise de instituições tradicionais como religião, família e trabalho, existe ainda o problema da pressão internacional que o Brasil sofre para mostrar índices positivos que atestem que a sociedade brasileira está avançando no combate às desigualdades sociais. Nesse sentido, os números ganham uma importância primordial, afinal é uma vergonha que um país que está entre as principais economias do mundo tenha um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) tão baixo. Daí, para obter resultados rápidos, melhor dar uma “maqueada” no problema trazendo e mantendo crianças nas escolas, nem que para isso seja necessário abrir mão da qualidade do ensino. Assim, o quadro diagnosticado pelos professores, para os quais ministrei, é a diminuição do analfabetismo absoluto e o aumento gradativo do analfabetismo funcional, ou seja, temos um número crescente de pessoas que conhecem o alfabeto, conseguem até juntar as letras, mas têm dificuldade para interpretar textos relativamente fáceis.
Meu esforço diante da situação com a qual me deparei foi procurar dar uma injeção de ânimo, enfatizando sempre, sem deixar de falar da responsabilidade que o poder público tem de cumprir as atribuições que são de sua competência, o papel do professor como agente de transformação. Não sem razão, fiz uma introdução na primeira aula denunciando alguns inimigos que teríamos que vencer para dar o primeiro passo rumo a uma mudança significativa. Alguns desses adversários são: o ceticismo, o comodismo e o utilitarismo. O ceticismo que nos impede de acreditar que o outro pode mudar, nesse caso, o outro seria o “mau” aluno; que nós mesmos podemos mudar e que a realidade na qual estamos inseridos pode mudar por meio de uma intervenção social. O comodismo que nos impede de sair da nossa zona de conforto e nos envolver com causas relevantes. E, enfim, o utilitarismo que faz com que continuemos a dar aulas tendo como único propósito a sobrevivência., ou seja, a docência deixa de ser encarada como vocação e passa a ser percebida apenas como meio de obter uma renda que, por sinal, é bem defasada
Durante as aulas percebi olhares, antes opacos, começando a brilhar. Obtive boas respostas de alguns ouvintes ali, no entanto, grande parte permaneceu apática, talvez fazendo contas para saber quanto tempo ainda falta para a aposentadoria. A sensação que senti vendo essa apatia fez com que eu me colocasse no lugar dessas pessoas. Quantas vezes elas mesmas não receberam a apatia, ou coisa pior, como resposta dos seus alunos? Consigo compreender porque elas desistem, mas prefiro focar naquelas que mantém a esperança. A luz é o que me atrai, portanto, é o brilho do olhar de alguns que ali estavam que me faz acreditar que esse projeto ainda renderá bons frutos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Etnografia, Estudo de caso e História de vida: métodos de pesquisa mais utilizados pelos interpretativistas



Dando continuidade ao tema dos métodos qualitativos nas ciências sociais, posto aqui um resumo sobre algumas das abordagens mais comuns no âmbito de uma concepção interpretativista, são elas: a etnografia, o estudo de caso e a história de vida.
Etnografia: Caracteriza-se pelo trabalho de campo. O pesquisador se infiltra, por um longo período de tempo, no grupo ou comunidade que deseja estudar e por meio de uma prática “artesanal, microscópica e detalhista” (Peirano, 1995, p. 57) coleta os dados. Para a coleta, ele pode usar, entre outros recursos, o caderno de campo, no qual vai descrever minuciosamente os aspectos sociais, possíveis de serem apreendidos por ele, dentro do ambiente investigado; pode, também, fazer entrevistas em profundidade com membros representativos daquele grupo; e, ainda, integrar-se ativamente na cultura local, a fim de facilitar sua compreensão sobre os motivos das ações sociais típicas daquele contexto social. A abordagem etnográfica parte da premissa de dar voz aos atores sociais.

O estudo de caso: Segundo Laville e Dionne (1999), trata-se do “estudo de um caso, vez de uma pessoa, mas também de um grupo, de uma comunidade, de um meio, ou então fará referência a um acontecimento especial” (p. 155). Segundo estes autores, o estudo de caso tem a importante vantagem de possibilitar um aprofundamento, já que o pesquisador não tem que se preocupar com restrições provenientes da comparação do caso com outros casos. Todos os recursos estarão concentrados no caso visado. No decorrer da pesquisa, o pesquisador estará mais livre para usar a imaginação e a criatividade, podendo, se necessário, fazer adaptações dos seus instrumentos, modificar sua abordagem para melhor captar elementos imprevistos. O cientista é motivado pela pretensão de que o caso estudado seja representativo daquela realidade social. Nesse sentido, a partir dos resultados ele pode, então, fazer generalizações. Esse método não está restrito ao campo das metodologias qualitativas e nem ao âmbito das ciências sociais.
História de vida: Também chamada de narrativa de vida, pode ser definida, segundo Laville e Dione (idem) como a narração, por uma pessoa, da experiência vivida no contexto do fenômeno social que interessa ao pesquisador. A narrativa autobiográfica deve acontecer com uma interferência mínima do estudioso que, por sua vez, é guiado pelo problema que motivou a pesquisa. Além disso, algumas hipóteses, circunscritas em uma dada problemática podem ser úteis para direcionar o trabalho de escolha de um ou mais participantes. Entretanto, Laville e Dione ressaltam que o papel desses elementos, ainda que seja de extrema relevância, deve ser discreto. No momento da narrativa, a prioridade é a perspectiva do autor-participante, portanto, deve-se evitar toda intervenção que possa desviá-lo da trama. Aos dados coletados com a história de vida podem se somar, como forma de complementação, dados de entrevista mais estruturada, cujas questões se ligam diretamente às preocupações do pesquisador. Como no estudo de caso, os resultados podem ser generalizados. Aliás, a história de vida pode também ser considerada um estudo de caso.

Os métodos acima apresentados não são, de modo algum, excludentes, ao contrário, são comumente combinados em pesquisas de cunho qualitativo. Diante do que foi colocado, podemos perceber que, de um modo geral, as mudanças, ainda em curso, que atingiram a forma de produção do conhecimento no contexto das ciências sociais, trouxeram benefícios relevantes. Dentre os quais se destacam: uma maior liberdade do pesquisador para escolher quais métodos atendem melhor as demandas do seu trabalho e uma gradativa mudança de postura, no sentido de que a ciência tem deixado de ser um fim em si mesma, tornando-se mais humanizada.

Referências Bibliográficas:
LAVILLE, Christian; DIONNE, Jean. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Porto Alegre: Ed. UFMG, 1999.
MALINOWSKI, B. Os Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Perspectiva, 1978.
PEIRANO, Mariza. A Favor da Etnografia. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Quando a vida é uma droga



Entre os problemas que a sociedade contemporânea enfrenta ganha destaque o crescimento do número de pessoas que fazem uso não medicamentoso das drogas. Apesar de todas as políticas repressivas do Estado, dos discursos conservadores que aliam o problema da drogadição à fraqueza moral e todas as conseqüências ruins que os próprios consumidores experienciam na suas vidas e nas de outros usuários, os dados apontam um avanço alarmante que, para alguns estudiosos*, indicam que o problema tem assumido proporções epidêmicas, particularmente, no que diz respeito à rápida popularização do crack. Inicialmente usada por pessoas das camadas mais baixas por ser uma droga relativamente barata e potente, seu consumo tem aumentado entre pessoas das classes médias. Esse aumento é justificado pelo efeito que provoca, muito mas intenso do que a cocaína, a droga de efeito estimulante preferida dos jovens com mais recursos.
Se a “onda” que o crack promove é potente, sua capacidade de viciar também é poderosa, daí ser hoje  uma séria questão de saúde pública. No entanto, o número sempre crescente de dependentes revela que o problema não está sendo tratado de modo eficaz. Medidas repressivas e discursos moralizantes não surtem os resultados esperados, antes, constituem uma forma reducionista de lidar com a questão.
Ora, se o número de dependentes cresce, não podemos dizer que esse é um problema individual, ou seja, não devemos responsabilizar somente os indivíduos, como se a opção pelas drogas fosse uma escolha absolutamente pessoal. É pessoal, mas é também resultante de problemas estruturais. Alguns podem argumentar que seriam problemas estruturais quando o consumo está relacionado à pobreza, à ausência de perspectiva em decorrência dessa pobreza e que, portanto, indivíduos que não vivem sob essas condições fazem uma opção livre de qualquer pressão social externa. Todavia, quando falamos de problemas estruturais isso vai muito além da escassez material. Referimo-nos a uma sociedade em transição, com crise de paradigmas, perda de referenciais, aliando-se a isso, uma indução incessante ao consumo e ao prazer.
Estamos vivendo um tempo marcado pela frouxidão institucional. Família, escola, religião e trabalho perdem, gradativamente, sua força normativa e o indivíduo liberto da tutela destas instituições precisa encontrar novo sentido e novas formas de adequação social. Ele está entregue a si mesmo, isso traz como implicação a exigência de que “sou eu” sozinho que preciso encontrar significado para minha vida. Nos discursos reducionistas, sobre as causas que levam uma pessoa a se tornar um dependente químico, prevalece o argumento de que é  fraqueza,  desejo de fuga,  medo de encarar a realidade que impulsionam os indivíduos ao uso não medicamentoso das drogas.
Acredito, como afirmou o antropólogo Eduardo Viana Vargas (2006), que o que os usuários de fato buscam, ainda que modo equivocado, é justamente um modo de não desistir. Dessa forma, é como se as drogas conferissem, de certa maneira, uma razão para sua existência. Assim, políticas públicas que as percebem apenas de modo negativo não são capazes de atingir com eficiência o âmago do problema, ou seja, se a droga tornou-se um caminho para os dependentes, a função do Estado e da sociedade civil é mostrar caminhos melhores e, se eles são poucos, temos um grande trabalho de construção pela frente.

* Entre esses estudiosos o psiquiatra Sérgio de Paula Ramos In: http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=12382&cod_canal=41 VARGAS, Eduardo V. Uso de drogas: a alter-ação como evento. In: Rev. Antropol. vol.49 no.2 São Paulo July/Dec. 2006



sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Métodos Qualitativos nas Ciências Sociais: limites e possibilidades

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     A partir de Weber e outros pesquisadores influentes, como Malinowski (1978) e seu método etnográfico, vemos surgir, no campo das ciências sociais, uma infinidade de métodos e técnicas de pesquisa qualitativos que em grande parte dos casos se complementam. Uma das vantagens que a abordagem qualitativa apresenta é justamente a plasticidade que lhe é inerente. Enquanto os métodos e técnicas quantitativos transmitem uma impressão de engessamento, as metodologias qualitativas oferecem ao pesquisador uma sensação de liberdade que, por sua vez, traz como risco a possibilidade de displicência metodológica no decorrer da investigação. Esta liberdade é geralmente interpretada pelos críticos como falta de rigor científico.
               Howard Becker (1999) defende tal liberdade ao extremo, optando por um modelo artesanal de ciência. Para ele, todo pesquisador, a exemplo dos clássicos, Marx, Durkheim e Weber, deve ser também um metodólogo. Afirma que “os sociólogos deveriam se sentir livres para inventar os métodos capazes de resolver os problemas das pesquisas que estão fazendo” (p. 12). O trabalhador, produzindo suas teorias e seus métodos, contemplaria aspectos singulares e variações locais do fenômeno investigado que as metodologias sugeridas nos livros e nos manuais não conseguem captar por serem genéricas.
   O cerceamento da liberdade, pelos métodos quantitativos, tem como uma de suas características, o controle da intuição através da formalização. Nas metodologias qualitativas, contudo, a intuição ganha um papel central. Robert Nisbet (2000), ressaltando a importância da imaginação e da intuição na pesquisa sociológica, afirma que muitos dos procedimentos intelectuais da sociologia clássica aproximam o sociólogo mais do artista do que do cientista social preso a regras inflexíveis. Entretanto, aqueles que ainda acreditam ser possível a neutralidade e, consequentemente, a objetividade absoluta no processo de construção do conhecimento científico, interpretam como falhas imperdoáveis o que foi apresentado até aqui como as vantagens oferecidas pelas metodologias qualitativas.
     Segundo Melucci (2005), as ciências sociais abandonaram uma perspectiva metodológica monista, própria das ciências naturais, e se abriram para uma concepção pluralista. No entanto, essa abertura não ocorreu sem dificuldades. E, apesar do êxito que a pesquisa qualitativa tem alcançado, não faltam críticas que colocam sob suspeita sua validade científica. As críticas mais contundentes são: falta de representatividade, predominância da subjetividade no processo investigativo e falta de critérios rígidos na coleta e análise dos dados.
             O problema da representatividade seria decorrente daquilo que Weber (1981) indica como uma prerrogativa da perspectiva interpretativista. Segundo ele:
[...]todo conhecimento reflexivo da realidade infinita realizado pelo espírito humano finito baseia-se na premissa tácita de que apenas um fragmento limitado dessa realidade poderá constituir de cada vez o objeto da compreensão científica, e de que só ele será “essencial” no sentido de “digno de ser conhecido” (idem, p. 88).

               A crítica se fundamenta no fato de que a pesquisa qualitativa, necessariamente, trabalha com unidades sociais. Ela precisa escolher um fragmento da realidade como sendo representativo dessa realidade. A questão é: Como saber se o fragmento escolhido tipifica bem o fenômeno social que o pesquisador busca compreender? Vinculada a esta questão está a dúvida sobre a possibilidade de generalização. Sem a certeza de que o fragmento da realidade seja representativo, consequentemente, a validade da interpretação fica comprometida. Ora, sem a possibilidade, mínima que seja, de generalização o trabalho não tem valor científico.
           O segundo problema, que não está de forma alguma separado do primeiro, seria a predominância da subjetividade no processo investigativo. A proximidade do sujeito epistêmico com seu objeto comprometeria todo o processo de pesquisa, desde a escolha da unidade que seria representativa do todo, até a análise dos dados. Embora o debate acerca da neutralidade e da objetividade esteja ganhando a alcunha de ultrapassado, o excesso de liberdade promovido pelas metodologias qualitativas poria em xeque o valor científico do conhecimento produzido com seus métodos e técnicas. Para os críticos mais dogmáticos, tal conhecimento não seria nada além de especulação.
                 Por fim, os críticos apontam a falta de critérios rígidos na coleta e na análise dos dados. Desse modo, ao mesmo tempo em que a pesquisa qualitativa permite um aprofundamento por meio da imersão do pesquisador na realidade que ele deseja compreender, esse aprofundamento é sempre limitado, já que ele deve escolher entre os inúmeros aspectos sociais, daquela realidade, aqueles que seriam mais relevantes para sua análise. Como os critérios dessa escolha são subjetivos, isso poderia acarretar num enviesamento do trabalho. Além disso, esse tipo de pesquisa gera uma grande profusão de dados, o que dificultaria a sistematização e análise dos mesmos.
               Tendo em vista todas as críticas e problemas apontados, não podemos, em defesa da pesquisa qualitativa, incorrer no erro ingênuo de acreditar que existam métodos infalíveis e que seria possível alcançar verdades absolutas, especialmente no contexto das ações e relações sociais. Como foi colocado, o objeto de investigação da sociologia é complexo e dinâmico e é, precisamente, a complexidade do objeto que demanda uma diversidade de métodos. Entretanto, tal diversidade redunda em um relativismo para o qual, de acordo com Melucci (2005), não existe saída absoluta.
                 Se os defensores das metodologias qualitativas são recorrentemente confrontados com os limites desse tipo de abordagem, recebem também, em grande medida, incentivos oriundos das possibilidades que elas apresentam. Além das vantagens, expostas em tópicos anteriores, vale ressaltar que, de forma distinta daqueles que têm a pretensão de fazer uma ciência pura e, desse modo, é a própria ciência que tem a primazia, a abordagem qualitativa prioriza os indivíduos e suas relações. A mudança paradigmática epistemológica/metodológica veio acompanhada de uma gradativa mudança de postura do cientista social.

Referências bibliográficas:


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DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Nacional, 1995, p. 30-37.
FREUND, Julien. A sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Forense –Universitária, 1980.
GEERTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis:Vozes, 1998.
______. Das religiões, Folha de São Paulo, 14/05/2006.
BECKER, Howard S. Métodos de pesquisa em Ciências Sociais. São Paulo: Hucitec, 1999.
LAVILLE, Christian; DIONNE, Jean. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Porto Alegre: Ed. UFMG, 1999.
MALINOWSKI, B. Os Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Perspectiva, 1978.
MELUCCI, Alberto. Por uma sociologia reflexiva: pesquisa qualitativa e cultura. Petrópolis: Vozes, 2005.
MINAYO, M.C.S; SANCHES, O. Quantitativo-qualitativo:oposição ou complementaridade? Cad. Saúde Pública. Rio de Janeiro, 9(3), p. 239-262, 1993.
NISBET, A. Robert. A sociologia como uma forma de arte. In: Revista Plural. São Paulo: 7, USP, p. 111-130, 1º sem/2000.
PEIRANO, Mariza. A Favor da Etnografia. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 15 ed. São Paulo: Pioneira, 2000.
______. Economia e Sociedade. Fundamentos da sociologia compreensiva. Vol. I. Brasília: Ed. Unb, 1991
______. A “objetividade” do conhecimento nas ciências sociais. In: COHN, Gabriel (org.) Weber – Sociologia. Coleção Grandes cientistas sociais. São Paulo: Ática, 1986.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Uma aprendizagem em Clarice Lispector



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A obra de Clarice Lispector influenciou significativamente no desenvolvimento do meu gosto pela literatura. Lendo-a, encontrei, de certa forma, a mim mesma. Não que eu mais do que as outras mulheres me identifique com a autora. Em Clarice todas as mulheres podem se ver e todos os homens têm a possibilidade de comprovar que nós, de fato, somos seres complexos, mas não totalmente indecifráveis. A única exigência para entrar no universo da escritora é um nível mínimo de sensibilidade. Uma pessoa que tenha uma mentalidade absolutamente pragmática não está preparada para aprender tudo que ela tem para ensinar. Mais do que falar de dilemas femininos, Lispector deseja mostrar uma maneira de perceber o mundo, de viver a vida de modo intenso, mas sem cair na tentação das frivolidades que não nos dignificam. Em seu romance intitulado Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres, ela nos propõe de forma clara um caminho para o auto-conhecimento que só é possível por meio da relação com o outro.
A heroína do romance é Lóri, ou melhor, Loreley, moça proveniente de uma família rica que perde parte da fortuna. O pai e os irmãos, dos quais se desligara, viviam em Campos, cidade do interior do Rio de Janeiro. Ela morava na capital e trabalhava como professora primária. Totalmente voltada para si mesma, não queria estabelecer vínculos mais fortes com ninguém; não esperava e nem buscava nenhuma alegria extrema para sua vida. A única concessão eram alguns casos esporádicos com homens pelos quais não corria risco algum de se apaixonar. É através de Ulisses, um professor de filosofia, que Lóri inicia sua trajetória para se tornar aquilo que ela deveria ser, superando seus medos, aprendendo a aceitar o sentimento de falta que é inerente à vida e, especialmente, compreendendo que o amor é inesgotável e que, portanto, não havia razão para não oferecê-lo, sem medida, aos outros.
Nos diálogos entre Loreley e Ulisses manifesta-se a visão existencialista da autora que procura mostrar que validamos nosso breve tempo na terra quando, a despeito de tudo, continuamos a viver, cultivando a alegria e aceitando todas as dores que cada dia, um por vez, possa nos trazer. Por meio de Ulisses, Clarice nos ensina:

[...] uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.

Com Lóri entendemos que a mudança exige enorme coragem porque é imprescindível que entremos em contato com nossas fraquezas, mesquinharias, desejos obscuros. Na prece, que Ulisses a incita a fazer, vemos não apenas a busca de uma intervenção externa, mas, sobretudo, um processo de auto-revelação. Ao orar Loreley volta-se para si mesma  num esforço introspectivo:

Deus [...]alivia a minha alma, faze com que eu sinta que tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.

A metamorfose de Loreley é uma transformação no sentido de se tornar aquilo que cada um de nós deveria ser. “A mais premente necessidade de um ser humano é tornar-se ser humano”, sentencia a personagem de Clarice, já a caminho de um recomeço.

LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Fundamentos metodológicos da sociologia: a proposta objetivista de Durkheim e a contrapartida subjetivista de Max Weber*


Entre os dilemas que o cientista necessariamente tem que enfrentar está o de escolher o método mais apropriado para a apreensão do fenômeno que deseja investigar. Na sociologia, especificamente, esse dilema pode alcançar grandes proporções, isto porque os fenômenos que deseja compreender possuem uma complexidade e um dinamismo que condicionaram o surgimento de vários tipos de abordagens metodológicas. Assim, o pesquisador se vê diante de uma infinidade de caminhos e deve, então, decidir qual deles o fará alcançar, com maior êxito, o seu objetivo. Em princípio, apresentam-se dois paradigmas metodológicos: o percurso proposto pelos métodos e técnicas quantitativos ou o trajeto proposto pelos métodos e técnicas qualitativos.
O surgimento da sociologia ocorre num período em que ciências naturais ditavam as regras para o exercício de uma ciência pura, portanto, seus métodos tinham a primazia absoluta. O positivismo reivindicava para si a alcunha de verdadeira ciência e rechaçava todas as outras formas de conhecimento que não primavam por métodos experimentais. Era uma reação contra o apriorismo, representado sobretudo por Kant, e o idealismo, cuja expressão máxima é Hegel. É fundamentada nestes pressupostos que a sociologia vai se desenvolver na Europa do século XIX.
Não é sem razão que Auguste Comte (Benoit, 1999) mentor da filosofia positiva, denominou, primeiramente, de Física Social a forma de conhecimento que depois foi chamada de sociologia. A influência da teoria evolucionista aliada à crença na determinação das leis, fez com que o precursor da sociologia lhe desse um enfoque absolutamente vinculado à forma de sistematização e técnicas metodológicas das ciências naturais. Durkheim, herdeiro do empreendimento iniciado por Comte, continua, de certo modo, a trilhar o mesmo caminho. Em sua busca por um método que fosse especificamente sociológico, encontra na Biologia os fundamentos para propor uma concepção orgânica da sociedade. Embora não se deva reduzir o pensamento durkheimiano à concepção da teoria funcionalista, metodologicamente ela é essencial para se compreender o modo como ele percebia o dinamismo das forças sociais.
Para Durkheim (1995), todas as respostas devem ser buscadas nos fenômenos observáveis. Portanto, os métodos apropriados seriam àqueles que permitem a apreensão objetiva dos fatos sociais. A partir desta premissa, sugere algumas regras que devem ser respeitadas pelo cientista social: o pesquisador precisa buscar um distanciamento de todas as suas pré-noções, ainda que esta seja uma tarefa difícil; o objeto de pesquisa deve ser sempre “um grupo de fenômenos previamente definidos por certos caracteres exteriores que lhes são comuns, e compreender na mesma pesquisa todos aqueles que correspondem esta definição” (1995, p. 30); por fim, o sociólogo, ao investigar um fato social, precisa se esforçar para desvinculá-lo de suas manifestações individuais, ou seja, considerar apenas os aspectos sociais e, por conseguinte, externos do fenômeno investigado.
A objetividade absoluta pretendida pelos fundadores da sociologia, Comte e Durkheim, dificultou a aceitação dos métodos e técnicas de abordagem qualitativa. No âmbito das ciências sociais, vimos surgir uma rivalidade entre os herdeiros do pensamento positivista e os defensores de metodologias que querem ir além dos dados estatísticos, que desejam fazer uma análise dos fenômenos sociais a partir de dentro. Se a pesquisa quantitativa, numa perspectiva estrita, assume a preferência por uma explicação decorrente da mensuração e análise das relações causais entre variáveis, a pesquisa qualitativa tem por objetivo compreender os fenômenos sociais privilegiando o estudo dos micro-processos, considerando, assim, as ações dos indivíduos e dos grupos dentro do contexto social. Os métodos qualitativos encontram sustentação, entre outros pensadores, em Weber, com sua proposta de sociologia compreensiva, ou interpretativa.
O tempo em que as ciências sociais eram tuteladas pelas ciências naturais, passou. Clifford Geertz (1998) aponta uma mudança nos paradigmas epistemológicos/metodológicos. As ciências sociais que, outrora, dependeram de métodos de áreas mais consolidadas, e, portanto, mais reconhecidas na produção do conhecimento, passaram por um processo de libertação. Livres, os cientistas sociais “podem agora moldar seu trabalho de acordo com as necessidades que estes apresentem e não para satisfazer percepções externas sobre aquilo que devem ou não fazer” (1998, p. 36). Deixando de lado as analogias com as ciências naturais, as ciências sociais recorrem às Humanidades. Segundo Geertz, chegou o tempo em a interpretação tem a primazia. A conseqüência óbvia dessa mudança é a diversificação dos métodos e técnicas de pesquisa de cunho qualitativo.
Na gênese dessa mudança paradigmática, no âmbito da sociologia, encontramos Max Weber, segundo o qual, “no campo das ciências sociais, o que nos interessa é o aspecto qualitativo dos fatos” (1986, p. 90). Diferentemente de Durkheim, que estabelece como princípio investigativo uma separação do fato social, que ele define como exterior e coercitivo, das instâncias individuais, Weber (1991) propõe que é por meio das ações dos indivíduos, que são dotadas de sentido, que podemos compreender os fenômenos sociais.
Sob essa perspectiva, a sociologia teria como objetivo principal, entender como “os homens avaliam e apreciam, utilizam, criam e destroem as diversas relações sociais” (Freund,1987, p. 28). Nesta proposta, não há um menosprezo em relação as metodologias quantitativas, o que o autor deseja mostrar é que é possível ter acesso científico aos fenômenos sócio-culturais de dentro para fora, ou seja, procurando compreender o sentido que os sujeitos imprimem às suas ações. A noção de sentido é central na análise compreensiva. É o sentido manifesto, e, portanto, passível de ser apreendido pelo pesquisador, que revela a natureza da ação, quer seja ela política, econômica ou religiosa.


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*Este texto é a parte introdutória de um paper apresentado à disciplina Métodos e Técnicas de Pesquisa do mestrado em sociologia da Universidade Federal de Goiás.

Referências Bibliográficas:

BENOIT, Lelita Oliveira. Sociologia comteana: gênese e devir. In: Clássicos e comentadores. São Paulo: Discurso Editorial, 1999.
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Nacional, 1995, p. 30-37.
FREUND, Julien. A sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Forense –Universitária, 1980.
GEERTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis:Vozes, 1998.
WEBER, Max. Economia e Sociedade. Fundamentos da sociologia compreensiva. Vol. I. Brasília: Ed. Unb, 1991.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Da Esperança e das falsas esperanças



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Dentre todos os sentimentos que podemos cultivar, a esperança talvez seja o mais arriscado. Isso porque ter esperança significa alimentar expectativas de que algo que desejamos muito irá, mais cedo ou mais tarde, acontecer. Não há nada de errado nisso, ao contrário, é justamente esse sentimento que nos faz olhar para frente, que nos move, que não nos permite desistir. O problema é que, não raras vezes, podemos nos frustrar e é o modo como lidamos com nossas frustrações que determina se somos, de fato, indivíduos com competência para a vida. Digo isso porque acredito que a verdadeira esperança não sucumbe diante dos fracassos, decepções e toda sorte de contratempos que surgem em nossos caminhos. Falo de uma esperança “essencial”, que nos faz transcender e nos fortalece para que recomecemos sempre que necessário.
Não sou adepta desse “otimismo de auto-ajuda” tão em voga hoje em dia. Penso que autores desse tipo de literatura estão entre os maiores propagadores de falsas esperanças. As falsas esperanças são aquelas que nascem não de uma visão realista do mundo, mas da ilusão de que podemos alcançar um estado perene de bem-estar. Reconheço que esses livros que trazem “receitas” para obter sucesso, felicidade e satisfação constante, possam até ter o mérito de conseguir estimular atitudes benéficas diante de circunstâncias difíceis. Todavia, isso não é suficiente para se sobrepor ao efeito colateral que provocam. Acenar com a possibilidade de sentir-se bem o tempo todo traz como conseqüência a sensação constante de que “ eu devo não estar seguindo direito todos os preceitos, já que não consigo me sentir pleno e realizado como me foi prometido pelo expert vitorioso e sempre feliz que escreveu o livro.” Os consumidores de auto-ajuda estão sempre em busca de uma nova receita até que um dia, creio, eles criem coragem para ver o mundo como ele é de fato e, mesmo assim, continuar esperando e lutando para que coisas boas aconteçam.
Uma das mais interessantes abordagens sobre esperança que encontrei está no imperdível filme Um sonho de liberdade (The Shawshank Redemption). Dirigido por Frank Darabont, o roteiro apresenta a história de um bancário, AndyDufresne, que foi preso injustamente acusado de ter matado a esposa e seu amante. Seu melhor amigo na prisão é Red, um negro que está preso há mais de trinta anos. Red é o narrador da história e é sob sua perspectiva que vemos os fatos que mostram a tenacidade de Dufresne e a transformação  que a amizade com o bancário promove eu no modo como ele lida com a realidade que o cerca. A princípio, ele é o cara que, em decorrência de sucessivas frustrações, começou a ver a esperança como uma coisa ruim, perigosa. A postura que havia assumido era a de não esperar por coisa alguma.
Ao contrário de Red, Andy Dufresne percebe a esperança como algo bom e, mesmo tendo passado vinte anos na prisão, sofrendo abusos físicos, morais e emocionais, alimentou dia após dia o sonho de ser livre novamente. Perder a esperança significaria desistir da própria vida. Além de não desistir, o presidiário também não permite que seu melhor amigo desista. São nas palavras finais de Red , rumo ao lugar marcado para rever Dufresne, que aprendemos que para ir adiante é necessário confiar que lá encontraremos aquilo que buscamos: “Espero que Andy esteja lá. Espero conseguir atravessar a fronteira. Espero encontrar meu amigo e apertar a sua mão. Espero que o Pacífico seja tão azul quanto em meus sonhos. Espero...”

domingo, 21 de junho de 2009

Do Amor e dos falsos amores



Confesso que procurei resistir bravamente à tentação de falar sobre esse tema, mas, como podem perceber, fui vencida. Certo incômodo que tomou conta de mim nos últimos tempos é o principal responsável por eu estar aqui tratando, também, do assunto mais debatido na história da humanidade. Não tenho a pretensão de chegar a nenhuma conclusão definitiva sobre a questão (isso seria o cúmulo da presunção), meu intuito é, sobretudo, compreender melhor as mudanças na forma como as pessoas se relacionam no nosso contexto histórico-cultural.
Penso ser de uma inutilidade absurda fazermos comparações entre períodos históricos distintos, sentenciando que um foi melhor em detrimento do outro. Digo isto porque é comum ouvirmos pessoas que se referem ao passado exaltando supostas qualidades que se perderam no decorrer do tempo. Geralmente concluem afirmando que os dias estão cada vez piores. O fato é que todas as épocas têm seus próprios males, simplesmente porque nós, seres humanos, somos especialistas em produzir males. Como posso eu, como mulher, dizer que era melhor viver sempre como cidadã de segunda classe como ocorria de modo acintoso num passado recente? É óbvio que ainda não há equivalência de direitos, contudo, já avançamos bastante. Esse exemplo é só para esclarecer que não é minha intenção estabelecer parâmetros valorativos entre a sociedade contemporânea e outras formas de organização social. Como socióloga, restrinjo-me a tratar do passado apenas como meio para entender o presente, meu foco é sempre os problemas sociais que enfrentamos na atualidade. Entre esses problemas, destaco a forma como as relações são construídas e rapidamente desfeitas nessa sociedade que cultua o modo Sex and the city de viver.
Zigmunt Bauman, sociólogo polonês, observa, em seu livro Amor líquido, que os vínculos que desenvolvemos, de forma geral, são frágeis. Essa é conseqüência previsível da ênfase que a ideologia liberal põe sobre o indivíduo. Com a modernidade aprendemos a nos colocar sempre em primeiro lugar, “são os meus interesses, desejos e vontades que preciso atender antes de tudo”. Numa sociedade assim, qual o lugar do amor? C. S. Lewis, em Os quatros Amores, faz uma distinção entre dois tipos de amor. O primeiro é o amor-doação, caracterizado pelo altruísmo, ou seja, capacita-nos a pensar no outro antes nós mesmos. O segundo tipo é o amor-necessidade que nos faz buscar o outro para suprir nossas próprias demandas. O amor-necessidade cumpre a função importante de nos direcionar para o próximo num sentimento de dependência. O grande problema é quando ele se sobrepõe ao amor-doação. É exatamente isso que acontece na sociedade atual, daí a facilidade com que se desfazem os laços humanos. É difícil manter uma relação na qual cada um pensa apenas no seu próprio bem estar, acrescenta-se a isso o agravante de que todos nós temos demandas existenciais que jamais serão supridas por outra pessoa, por mais cheia de qualidades que ela seja.
  O que vemos hoje é a celebração da superficialidade, dos amores falsos e efêmeros, da vida descompromissada. Entretanto, isso serve apenas para tornar ainda mais evidentes nossa solidão e carência. No fundo, o que a maioria anseia é pela oportunidade de encontrar alguém que lhe ofereça e a quem possa oferecer, sem medo, a chance de um relacionamento duradouro. O grande empecilho que cada um enfrenta, todavia, é o próprio egoísmo, já que toda relação para se manter exige esforço, concessões de ambas as partes e, não menos importante, a consciência de que uma relação jamais poderá ser constituída apenas de “puro prazer”.
  Apesar do quadro negativo descrito, acredito ainda que há possibilidades de encontros verdadeiros, de reconhecimento mútuo. No entanto, creio que esse é um privilégio reservado somente para aqueles que de alguma maneira aprenderam a ver mais do que aquilo que é aparente nas pessoas. É lá, nesse lugar oculto à primeira vista, que encontramos as qualidades que podem suscitar em nós a vontade de estarmos próximos de alguém para sempre.

BAUMAN, Z. Amor líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
LEWIS, C. S. Os quatro amores. São Paulo: Martins Fontes, 2005.