Espaço para compartilhar artigos, resenhas e resumos sobre diversos temas no âmbito das Ciências Sociais, Teologia, Literatura e Arte. O propósito é, sobretudo, ser útil. Sou motivada também pela expectativa de receber contribuições de meus prováveis leitores, sejam eles visitantes regulares ou navegantes acidentais.
Entre os problemas que a sociedade contemporânea enfrenta ganha destaque o crescimento do número de pessoas que fazem uso não medicamentoso das drogas. Apesar de todas as políticas repressivas do Estado, dos discursos conservadores que aliam o problema da drogadição à fraqueza moral e todas as conseqüências ruins que os próprios consumidores experienciam na suas vidas e nas de outros usuários, os dados apontam um avanço alarmante que, para alguns estudiosos*, indicam que o problema tem assumido proporções epidêmicas, particularmente, no que diz respeito à rápida popularização do crack. Inicialmente usada por pessoas das camadas mais baixas por ser uma droga relativamente barata e potente, seu consumo tem aumentado entre pessoas das classes médias. Esse aumento é justificado pelo efeito que provoca, muito mas intenso do que a cocaína, a droga de efeito estimulante preferida dos jovens com mais recursos.
Se a “onda” que o crack promove é potente, sua capacidade de viciar também é poderosa, daí ser hoje uma séria questão de saúde pública. No entanto, o número sempre crescente de dependentes revela que o problema não está sendo tratado de modo eficaz. Medidas repressivas e discursos moralizantes não surtem os resultados esperados, antes, constituem uma forma reducionista de lidar com a questão.
Ora, se o número de dependentes cresce, não podemos dizer que esse é um problema individual, ou seja, não devemos responsabilizar somente os indivíduos, como se a opção pelas drogas fosse uma escolha absolutamente pessoal. É pessoal, mas é também resultante de problemas estruturais. Alguns podem argumentar que seriam problemas estruturais quando o consumo está relacionado à pobreza, à ausência de perspectiva em decorrência dessa pobreza e que, portanto, indivíduos que não vivem sob essas condições fazem uma opção livre de qualquer pressão social externa. Todavia, quando falamos de problemas estruturais isso vai muito além da escassez material. Referimo-nos a uma sociedade em transição, com crise de paradigmas, perda de referenciais, aliando-se a isso, uma indução incessante ao consumo e ao prazer.
Estamos vivendo um tempo marcado pela frouxidão institucional. Família, escola, religião e trabalho perdem, gradativamente, sua força normativa e o indivíduo liberto da tutela destas instituições precisa encontrar novo sentido e novas formas de adequação social. Ele está entregue a si mesmo, isso traz como implicação a exigência de que “sou eu” sozinho que preciso encontrar significado para minha vida. Nos discursos reducionistas, sobre as causas que levam uma pessoa a se tornar um dependente químico, prevalece o argumento de que é fraqueza, desejo de fuga, medo de encarar a realidade que impulsionam os indivíduos ao uso não medicamentoso das drogas.
Acredito, como afirmou o antropólogo Eduardo Viana Vargas (2006), que o que os usuários de fato buscam, ainda que modo equivocado, é justamente um modo de não desistir. Dessa forma, é como se as drogas conferissem, de certa maneira, uma razão para sua existência. Assim, políticas públicas que as percebem apenas de modo negativo não são capazes de atingir com eficiência o âmago do problema, ou seja, se a droga tornou-se um caminho para os dependentes, a função do Estado e da sociedade civil é mostrar caminhos melhores e, se eles são poucos, temos um grande trabalho de construção pela frente.
* Entre esses estudiosos o psiquiatra Sérgio de Paula Ramos In: http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=12382&cod_canal=41
VARGAS, Eduardo V. Uso de drogas: a alter-ação como evento. In: Rev. Antropol. vol.49 no.2 São Paulo July/Dec. 2006
A partir de Weber e outros pesquisadores influentes, como Malinowski (1978) e seu método etnográfico, vemos surgir, no campo das ciências sociais, uma infinidade de métodos e técnicas de pesquisa qualitativos que em grande parte dos casos se complementam. Uma das vantagens que a abordagem qualitativa apresenta é justamente a plasticidade que lhe é inerente. Enquanto os métodos e técnicas quantitativos transmitem uma impressão de engessamento, as metodologias qualitativas oferecem ao pesquisador uma sensação de liberdade que, por sua vez, traz como risco a possibilidade de displicência metodológica no decorrer da investigação. Esta liberdade é geralmente interpretada pelos críticos como falta de rigor científico.
Howard Becker (1999) defende tal liberdade ao extremo, optando por um modelo artesanal de ciência. Para ele, todo pesquisador, a exemplo dos clássicos, Marx, Durkheim e Weber, deve ser também um metodólogo. Afirma que “os sociólogos deveriam se sentir livres para inventar os métodos capazes de resolver os problemas das pesquisas que estão fazendo” (p. 12). O trabalhador, produzindo suas teorias e seus métodos, contemplaria aspectos singulares e variações locais do fenômeno investigado que as metodologias sugeridas nos livros e nos manuais não conseguem captar por serem genéricas.
O cerceamento da liberdade, pelos métodos quantitativos, tem como uma de suas características, o controle da intuição através da formalização. Nas metodologias qualitativas, contudo, a intuição ganha um papel central. Robert Nisbet (2000), ressaltando a importância da imaginação e da intuição na pesquisa sociológica, afirma que muitos dos procedimentos intelectuais da sociologia clássica aproximam o sociólogo mais do artista do que do cientista social preso a regras inflexíveis. Entretanto, aqueles que ainda acreditam ser possível a neutralidade e, consequentemente, a objetividade absoluta no processo de construção do conhecimento científico, interpretam como falhas imperdoáveis o que foi apresentado até aqui como as vantagens oferecidas pelas metodologias qualitativas.
Segundo Melucci (2005), as ciências sociais abandonaram uma perspectiva metodológica monista, própria das ciências naturais, e se abriram para uma concepção pluralista. No entanto, essa abertura não ocorreu sem dificuldades. E, apesar do êxito que a pesquisa qualitativa tem alcançado, não faltam críticas que colocam sob suspeita sua validade científica. As críticas mais contundentes são: falta de representatividade, predominância da subjetividade no processo investigativo e falta de critérios rígidos na coleta e análise dos dados.
O problema da representatividade seria decorrente daquilo que Weber (1981) indica como uma prerrogativa da perspectiva interpretativista. Segundo ele:
[...]todo conhecimento reflexivo da realidade infinita realizado pelo espírito humano finito baseia-se na premissa tácita de que apenas um fragmento limitadodessa realidade poderá constituir de cada vez o objeto da compreensão científica, e de que só ele será “essencial” no sentido de “digno de ser conhecido” (idem, p. 88).
A crítica se fundamenta no fato de que a pesquisa qualitativa, necessariamente, trabalha com unidades sociais. Ela precisa escolher um fragmento da realidade como sendo representativo dessa realidade. A questão é: Como saber se o fragmento escolhido tipifica bem o fenômeno social que o pesquisador busca compreender? Vinculada a esta questão está a dúvida sobre a possibilidade de generalização. Sem a certeza de que o fragmento da realidade seja representativo, consequentemente, a validade da interpretação fica comprometida. Ora, sem a possibilidade, mínima que seja, de generalização o trabalho não tem valor científico.
O segundo problema, que não está de forma alguma separado do primeiro, seria a predominância da subjetividade no processo investigativo. A proximidade do sujeito epistêmico com seu objeto comprometeria todo o processo de pesquisa, desde a escolha da unidade que seria representativa do todo, até a análise dos dados. Embora o debate acerca da neutralidade e da objetividade esteja ganhando a alcunha de ultrapassado, o excesso de liberdade promovido pelas metodologias qualitativas poria em xeque o valor científico do conhecimento produzido com seus métodos e técnicas. Para os críticos mais dogmáticos, tal conhecimento não seria nada além de especulação.
Por fim, os críticos apontam a falta de critérios rígidos na coleta e na análise dos dados. Desse modo, ao mesmo tempo em que a pesquisa qualitativa permite um aprofundamento por meio da imersão do pesquisador na realidade que ele deseja compreender, esse aprofundamento é sempre limitado, já que ele deve escolher entre os inúmeros aspectos sociais, daquela realidade, aqueles que seriam mais relevantes para sua análise. Como os critérios dessa escolha são subjetivos, isso poderia acarretar num enviesamento do trabalho. Além disso, esse tipo de pesquisa gera uma grande profusão de dados, o que dificultaria a sistematização e análise dos mesmos.
Tendo em vista todas as críticas e problemas apontados, não podemos, em defesa da pesquisa qualitativa, incorrer no erro ingênuo de acreditar que existam métodos infalíveis e que seria possível alcançar verdades absolutas, especialmente no contexto das ações e relações sociais. Como foi colocado, o objeto de investigação da sociologia é complexo e dinâmico e é, precisamente, a complexidade do objeto que demanda uma diversidade de métodos. Entretanto, tal diversidade redunda em um relativismo para o qual, de acordo com Melucci (2005), não existe saída absoluta.
Se os defensores das metodologias qualitativas são recorrentemente confrontados com os limites desse tipo de abordagem, recebem também, em grande medida, incentivos oriundos das possibilidades que elas apresentam. Além das vantagens, expostas em tópicos anteriores, vale ressaltar que, de forma distinta daqueles que têm a pretensão de fazer uma ciência pura e, desse modo, é a própria ciência que tem a primazia, a abordagem qualitativa prioriza os indivíduos e suas relações. A mudança paradigmática epistemológica/metodológica veio acompanhada de uma gradativa mudança de postura do cientista social.
Referências bibliográficas:
-->
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Nacional, 1995, p. 30-37.
FREUND, Julien. A sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Forense –Universitária, 1980.
GEERTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis:Vozes, 1998.
______. Das religiões, Folha de São Paulo, 14/05/2006.
BECKER, Howard S. Métodos de pesquisa em Ciências Sociais.São Paulo: Hucitec, 1999.
LAVILLE, Christian; DIONNE, Jean. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Porto Alegre: Ed. UFMG, 1999.
MALINOWSKI, B. Os Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Perspectiva, 1978.
MELUCCI, Alberto. Por uma sociologia reflexiva: pesquisa qualitativa e cultura. Petrópolis: Vozes, 2005.
MINAYO, M.C.S; SANCHES, O. Quantitativo-qualitativo:oposição ou complementaridade? Cad. Saúde Pública.Rio de Janeiro, 9(3), p. 239-262, 1993.
NISBET, A. Robert. A sociologia como uma forma de arte. In: Revista Plural. São Paulo: 7, USP, p. 111-130, 1º sem/2000.
PEIRANO, Mariza. A Favor da Etnografia. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 15 ed. São Paulo: Pioneira, 2000.
______. Economia e Sociedade. Fundamentos da sociologia compreensiva. Vol. I. Brasília: Ed. Unb, 1991
______. A “objetividade” do conhecimento nas ciências sociais. In: COHN, Gabriel (org.) Weber – Sociologia. Coleção Grandes cientistas sociais. São Paulo: Ática, 1986.
A obra de Clarice Lispector influenciou significativamente no desenvolvimento do meu gosto pela literatura. Lendo-a, encontrei, de certa forma, a mim mesma. Não que eu mais do que as outras mulheres me identifique com a autora. Em Clarice todas as mulheres podem se ver e todos os homens têm a possibilidade de comprovar que nós, de fato, somos seres complexos, mas não totalmente indecifráveis. A única exigência para entrar no universo da escritora é um nível mínimo de sensibilidade. Uma pessoa que tenha uma mentalidade absolutamente pragmática não está preparada para aprender tudo que ela tem para ensinar. Mais do que falar de dilemas femininos, Lispector deseja mostrar uma maneira de perceber o mundo, de viver a vida de modo intenso, mas sem cair na tentação das frivolidades que não nos dignificam. Em seu romance intitulado Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres, ela nos propõe de forma clara um caminho para o auto-conhecimento que só é possível por meio da relação com o outro.
A heroína do romance é Lóri, ou melhor, Loreley, moça proveniente de uma família rica que perde parte da fortuna. O pai e os irmãos, dos quais se desligara, viviam em Campos, cidade do interior do Rio de Janeiro. Ela morava na capital e trabalhava como professora primária. Totalmente voltada para si mesma, não queria estabelecer vínculos mais fortes com ninguém; não esperava e nem buscava nenhuma alegria extrema para sua vida. A única concessão eram alguns casos esporádicos com homens pelos quais não corria risco algum de se apaixonar. É através de Ulisses, um professor de filosofia, que Lóri inicia sua trajetória para se tornar aquilo que ela deveria ser, superando seus medos, aprendendo a aceitar o sentimento de falta que é inerente à vida e, especialmente, compreendendo que o amor é inesgotável e que, portanto, não havia razão para não oferecê-lo, sem medida, aos outros.
Nos diálogos entre Loreley e Ulisses manifesta-se a visão existencialista da autora que procura mostrar que validamos nosso breve tempo na terra quando, a despeito de tudo, continuamos a viver, cultivando a alegria e aceitando todas as dores que cada dia, um por vez, possa nos trazer. Por meio de Ulisses, Clarice nos ensina:
[...] uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
Com Lóri entendemos que a mudança exige enorme coragem porque é imprescindível que entremos em contato com nossas fraquezas, mesquinharias, desejos obscuros. Na prece, que Ulisses a incita a fazer, vemos não apenas a busca de uma intervenção externa, mas, sobretudo, um processo de auto-revelação. Ao orar Loreley volta-se para si mesma num esforço introspectivo:
Deus [...]alivia a minha alma, faze com que eu sinta que tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.
A metamorfose de Loreley é uma transformação no sentido de se tornar aquilo que cada um de nós deveria ser. “A mais premente necessidade de um ser humano é tornar-se ser humano”, sentencia a personagem de Clarice, já a caminho de um recomeço.
LISPECTOR, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
Entre os dilemas que o cientista necessariamente tem que enfrentar está o de escolher o método mais apropriado para a apreensão do fenômeno que deseja investigar. Na sociologia, especificamente, esse dilema pode alcançar grandes proporções, isto porque os fenômenos que deseja compreender possuem uma complexidade e um dinamismo que condicionaram o surgimento de vários tipos de abordagens metodológicas. Assim, o pesquisador se vê diante de uma infinidade de caminhos e deve, então, decidir qual deles o fará alcançar, com maior êxito, o seu objetivo. Em princípio, apresentam-se dois paradigmas metodológicos: o percurso proposto pelos métodos e técnicas quantitativos ou o trajeto proposto pelos métodos e técnicas qualitativos.
O surgimento da sociologia ocorre num período em que ciências naturais ditavam as regras para o exercício de uma ciência pura, portanto, seus métodos tinham a primazia absoluta. O positivismo reivindicava para si a alcunha de verdadeira ciência e rechaçava todas as outras formas de conhecimento que não primavam por métodos experimentais. Era uma reação contra o apriorismo, representado sobretudo por Kant, e o idealismo, cuja expressão máxima é Hegel. É fundamentada nestes pressupostos que a sociologia vai se desenvolver na Europa do século XIX.
Não é sem razão que Auguste Comte (Benoit, 1999) mentor da filosofia positiva, denominou, primeiramente, de Física Social a forma de conhecimento que depois foi chamada de sociologia. A influência da teoria evolucionista aliada à crença na determinação das leis, fez com que o precursor da sociologia lhe desse um enfoque absolutamente vinculado à forma de sistematização e técnicas metodológicas das ciências naturais. Durkheim, herdeiro do empreendimento iniciado por Comte, continua, de certo modo, a trilhar o mesmo caminho. Em sua busca por um método que fosse especificamente sociológico, encontra na Biologia os fundamentos para propor uma concepção orgânica da sociedade. Embora não se deva reduzir o pensamento durkheimiano à concepção da teoria funcionalista, metodologicamente ela é essencial para se compreender o modo como ele percebia o dinamismo das forças sociais.
Para Durkheim (1995), todas as respostas devem ser buscadas nos fenômenos observáveis. Portanto, os métodos apropriados seriam àqueles que permitem a apreensão objetiva dos fatos sociais. A partir desta premissa, sugere algumas regras que devem ser respeitadas pelo cientista social: o pesquisador precisa buscar um distanciamento de todas as suas pré-noções, ainda que esta seja uma tarefa difícil; o objeto de pesquisa deve ser sempre “um grupo de fenômenos previamente definidos por certos caracteres exteriores que lhes são comuns, e compreender na mesma pesquisa todos aqueles que correspondem esta definição” (1995, p. 30); por fim, o sociólogo, ao investigar um fato social, precisa se esforçar para desvinculá-lo de suas manifestações individuais, ou seja, considerar apenas os aspectos sociais e, por conseguinte, externos do fenômeno investigado.
A objetividade absoluta pretendida pelos fundadores da sociologia, Comte e Durkheim, dificultou a aceitação dos métodos e técnicas de abordagem qualitativa. No âmbito das ciências sociais, vimos surgir uma rivalidade entre os herdeiros do pensamento positivista e os defensores de metodologias que querem ir além dos dados estatísticos, que desejam fazer uma análise dos fenômenos sociais a partir de dentro. Se a pesquisa quantitativa, numa perspectiva estrita, assume a preferência por uma explicação decorrente da mensuração e análise das relações causais entre variáveis, a pesquisa qualitativa tem por objetivo compreender os fenômenos sociais privilegiando o estudo dos micro-processos, considerando, assim, as ações dos indivíduos e dos grupos dentro do contexto social. Os métodos qualitativos encontram sustentação, entre outros pensadores, em Weber, com sua proposta de sociologia compreensiva, ou interpretativa.
O tempo em que as ciências sociais eram tuteladas pelas ciências naturais, passou. Clifford Geertz (1998) aponta uma mudança nos paradigmas epistemológicos/metodológicos. As ciências sociais que, outrora, dependeram de métodos de áreas mais consolidadas, e, portanto, mais reconhecidas na produção do conhecimento, passaram por um processo de libertação. Livres, os cientistas sociais “podem agora moldar seu trabalho de acordo com as necessidades que estes apresentem e não para satisfazer percepções externas sobre aquilo que devem ou não fazer” (1998, p. 36). Deixando de lado as analogias com as ciências naturais, as ciências sociais recorrem às Humanidades. Segundo Geertz, chegou o tempo em a interpretação tem a primazia. A conseqüência óbvia dessa mudança é a diversificação dos métodos e técnicas de pesquisa de cunho qualitativo.
Na gênese dessa mudança paradigmática, no âmbito da sociologia, encontramos Max Weber, segundo o qual, “no campo das ciências sociais, o que nos interessa é o aspecto qualitativo dos fatos” (1986, p. 90). Diferentemente de Durkheim, que estabelece como princípio investigativo uma separação do fato social, que ele define como exterior e coercitivo, das instâncias individuais, Weber (1991) propõe que é por meio das ações dos indivíduos, que são dotadas de sentido, que podemos compreender os fenômenos sociais.
Sob essa perspectiva, a sociologia teria como objetivo principal, entender como “os homens avaliam e apreciam, utilizam, criam e destroem as diversas relações sociais” (Freund,1987, p. 28). Nesta proposta, não há um menosprezo em relação as metodologias quantitativas, o que o autor deseja mostrar é que é possível ter acesso científico aos fenômenos sócio-culturais de dentro para fora, ou seja, procurando compreender o sentido que os sujeitos imprimem às suas ações. A noção de sentido é central na análise compreensiva. É o sentido manifesto, e, portanto, passível de ser apreendido pelo pesquisador, que revela a natureza da ação, quer seja ela política, econômica ou religiosa.
-->
*Este texto é a parte introdutória de um paper apresentado à disciplina Métodos e Técnicas de Pesquisa do mestrado em sociologia da Universidade Federal de Goiás.
Referências Bibliográficas:
BENOIT, Lelita Oliveira. Sociologia comteana: gênese e devir. In: Clássicos e comentadores. São Paulo: Discurso Editorial, 1999.
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Nacional, 1995, p. 30-37.
FREUND, Julien. A sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Forense –Universitária, 1980.
GEERTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis:Vozes, 1998.
WEBER, Max. Economia e Sociedade. Fundamentos da sociologia compreensiva. Vol. I. Brasília: Ed. Unb, 1991.
Dentre todos os sentimentos que podemos cultivar, a esperança talvez seja o mais arriscado. Isso porque ter esperança significa alimentar expectativas de que algo que desejamos muito irá, mais cedo ou mais tarde, acontecer. Não há nada de errado nisso, ao contrário, é justamente esse sentimento que nos faz olhar para frente, que nos move, que não nos permite desistir. O problema é que, não raras vezes, podemos nos frustrar e é o modo como lidamos com nossas frustrações que determina se somos, de fato, indivíduos com competência para a vida. Digo isso porque acredito que a verdadeira esperança não sucumbe diante dos fracassos, decepções e toda sorte de contratempos que surgem em nossos caminhos. Falo de uma esperança “essencial”, que nos faz transcender e nos fortalece para que recomecemos sempre que necessário.
Não sou adepta desse “otimismo de auto-ajuda” tão em voga hoje em dia. Penso que autores desse tipo de literatura estão entre os maiores propagadores de falsas esperanças. As falsas esperanças são aquelas que nascem não de uma visão realista do mundo, mas da ilusão de que podemos alcançar um estado perene de bem-estar. Reconheço que esses livros que trazem “receitas” para obter sucesso, felicidade e satisfação constante, possam até ter o mérito de conseguir estimular atitudes benéficas diante de circunstâncias difíceis. Todavia, isso não é suficiente para se sobrepor ao efeito colateral que provocam. Acenar com a possibilidade de sentir-se bem o tempo todo traz como conseqüência a sensação constante de que “ eu devo não estar seguindo direito todos os preceitos, já que não consigo me sentir pleno e realizado como me foi prometido pelo expert vitorioso e sempre feliz que escreveu o livro.” Os consumidores de auto-ajuda estão sempre em busca de uma nova receita até que um dia, creio, eles criem coragem para ver o mundo como ele é de fato e, mesmo assim, continuar esperando e lutando para que coisas boas aconteçam.
Uma das mais interessantes abordagens sobre esperança que encontrei está no imperdível filme Um sonho de liberdade (The Shawshank Redemption). Dirigido porFrank Darabont, o roteiro apresenta a história de um bancário, AndyDufresne, que foi preso injustamente acusado de ter matado a esposa e seu amante. Seu melhor amigo na prisão é Red, um negro que está preso há mais de trinta anos. Red é o narrador da história e é sob sua perspectiva que vemos os fatos que mostram a tenacidade de Dufresne e a transformação que a amizade com o bancário promove eu no modo como ele lida com a realidade que o cerca. A princípio, ele é o cara que, em decorrência de sucessivas frustrações, começou a ver a esperança como uma coisa ruim, perigosa. A postura que havia assumido era a de não esperar por coisa alguma.
Ao contrário de Red, Andy Dufresne percebe a esperança como algo bom e, mesmo tendo passado vinte anos na prisão, sofrendo abusos físicos, morais e emocionais, alimentou dia após dia o sonho de ser livre novamente. Perder a esperança significaria desistir da própria vida. Além de não desistir, o presidiário também não permite que seu melhor amigo desista. São nas palavras finais de Red , rumo ao lugar marcado para rever Dufresne, que aprendemos que para ir adiante é necessário confiar que lá encontraremos aquilo que buscamos: “Espero que Andy esteja lá. Espero conseguir atravessar a fronteira. Espero encontrar meu amigo e apertar a sua mão. Espero que o Pacífico seja tão azul quanto em meus sonhos. Espero...”
Confesso que procurei resistir bravamente à tentação de falar sobre esse tema, mas, como podem perceber, fui vencida. Certo incômodo que tomou conta de mim nos últimos tempos é o principal responsável por eu estar aqui tratando, também, do assunto mais debatido na história da humanidade. Não tenho a pretensão de chegar a nenhuma conclusão definitiva sobre a questão (isso seria o cúmulo da presunção), meu intuito é, sobretudo, compreender melhor as mudanças na forma como as pessoas se relacionam no nosso contexto histórico-cultural.
Penso ser de uma inutilidade absurda fazermos comparações entre períodos históricos distintos, sentenciando que um foi melhor em detrimento do outro. Digo isto porque é comum ouvirmos pessoas que se referem ao passado exaltando supostas qualidades que se perderam no decorrer do tempo. Geralmente concluem afirmando que os dias estão cada vez piores. O fato é que todas as épocas têm seus próprios males, simplesmente porque nós, seres humanos, somos especialistas em produzir males. Como posso eu, como mulher, dizer que era melhor viver sempre como cidadã de segunda classe como ocorria de modo acintoso num passado recente? É óbvio que ainda não há equivalência de direitos, contudo, já avançamos bastante. Esse exemplo é só para esclarecer que não é minha intenção estabelecer parâmetros valorativos entre a sociedade contemporânea e outras formas de organização social. Como socióloga, restrinjo-me a tratar do passado apenas como meio para entender o presente, meu foco é sempre os problemas sociais que enfrentamos na atualidade. Entre esses problemas, destaco a forma como as relações são construídas e rapidamente desfeitas nessa sociedade que cultua o modo Sex and the city de viver.
Zigmunt Bauman, sociólogo polonês, observa, em seu livro Amor líquido, que os vínculos que desenvolvemos, de forma geral, são frágeis. Essa é conseqüência previsível da ênfase que a ideologia liberal põe sobre o indivíduo. Com a modernidade aprendemos a nos colocar sempre em primeiro lugar, “são os meus interesses, desejos e vontades que preciso atender antes de tudo”. Numa sociedade assim, qual o lugar do amor? C. S. Lewis, em Os quatros Amores, faz uma distinção entre dois tipos de amor. O primeiro é o amor-doação, caracterizado pelo altruísmo, ou seja, capacita-nos a pensar no outro antes nós mesmos. O segundo tipo é o amor-necessidade que nos faz buscar o outro para suprir nossas próprias demandas. O amor-necessidade cumpre a função importante de nos direcionar para o próximo num sentimento de dependência. O grande problema é quando ele se sobrepõe ao amor-doação. É exatamente isso que acontece na sociedade atual, daí a facilidade com que se desfazem os laços humanos. É difícil manter uma relação na qual cada um pensa apenas no seu próprio bem estar, acrescenta-se a isso o agravante de que todos nós temos demandas existenciais que jamais serão supridas por outra pessoa, por mais cheia de qualidades que ela seja.
O que vemos hoje é a celebração da superficialidade, dos amores falsos e efêmeros, da vida descompromissada. Entretanto, isso serve apenas para tornar ainda mais evidentes nossa solidão e carência. No fundo, o que a maioria anseia é pela oportunidade de encontrar alguém que lhe ofereça e a quem possa oferecer, sem medo, a chance de um relacionamento duradouro. O grande empecilho que cada um enfrenta, todavia, é o próprio egoísmo, já que toda relação para se manter exige esforço, concessões de ambas as partes e, não menos importante, a consciência de que uma relação jamais poderá ser constituída apenas de “puro prazer”.
Apesar do quadro negativo descrito, acredito ainda que há possibilidades de encontros verdadeiros, de reconhecimento mútuo. No entanto, creio que esse é um privilégio reservado somente para aqueles que de alguma maneira aprenderam a ver mais do que aquilo que é aparente nas pessoas. É lá, nesse lugar oculto à primeira vista, que encontramos as qualidades que podem suscitar em nós a vontade de estarmos próximos de alguém para sempre.
BAUMAN, Z. Amor líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
LEWIS, C. S. Os quatro amores. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
"Porque tive fome e não me deste de comer; tive sede e não me deste de beber; estive nu e não me vestiste..."
-->
Em uma lista dos escritores que mais admiro, José Saramago ocupa, com certeza, um lugar significativo. Não só pelos seus enredos sensacionais, mas também pelo estilo peculiar na elaboração de seus textos. Ele é, no sentido mais exato, um artista das letras e usa todo esse talento para escrever o seu mais polêmico livro: O evangelho segundo Jesus Cristo.
A narrativa de Saramago expõe, não de forma explícita, um questionamento que é comum à grande parte dos céticos: a suposta incompatibilidade da existência de um Deus bom e onipotente com o mal e o sofrimento que imperam no mundo. Assim, não é bem uma postura ateísta que se revela no livro, mas um antiteísmo. O autor-narrador empenha-se em desconstruir a concepção judaico-cristã de um Deus de amor, cheio de misericórdia e graça. Nesse sentido, na imagem do Criador que ele apresenta destacam-se a arbitrariedade e o sadismo que, por sua vez, fizeram de seu próprio Filho uma vítima. A humanidade de Jesus é levada às últimas conseqüências. Para isto, o escritor explora, como tantos já fizeram, uma suposta relação marital de Cristo com Maria Madalena; propõe que o relacionamento de Jesus com a mãe, Maria, era permeado de conflitos e, sobretudo, descreve o Filho de Deus não como um “cordeiro mudo sendo levado ao matadouro”, mas como alguém que resistia em cumprir a vontade do Pai.
Érico Veríssimo sentencia, através de uma de suas personagens, no livro "Olhai os lírios dos campos", que nem o crente mais fervoroso preocupa-se tanto com idéia de Deus como o mais convicto dos ateus. Saramago, que assume seu ateísmo, parece não fugir à regra. Afinal, o fato de recontar, sob uma perspectiva própria, a biografia de Jesus é um indicativo de que ele, como todo bom ateu, não consegue, simplesmente, assumir uma posição de indiferença religiosa.
Não compartilho de modo algum com a idéia de Deus apresentada na obra de Saramago. Falta ao autor um conhecimento mais aprofundado da teologia bíblica. No entanto, a Igreja institucionalizada deveria fazer uma mea culpa, pois é exatamente essa a percepção que, no decorrer dos séculos, ela construiu e repassou com sua intolerância. Não me refiro ao catolicismo apenas, mas ao cristianismo, de modo geral. Ora, se a Igreja é a representante de Deus na terra, não é sem razão que sua imagem seja confundida com a imagem do próprio Deus. O que vemos é um cristianismo que caiu na tentação da luta pelo poder, que acumula riquezas, constrói catedrais luxuosas, gasta milhões em ostentação e afastou-se, há muito tempo, do verdadeiro sentido do Evangelho de Jesus.
Portanto, apesar do ateísmo (ou antiteísmo) de José Saramago, seu clamor por justiça, presente no evangelho por ele proposto e em outras obras suas; seu socialismo sincero; seu desejo, sempre evidente, de que a sociedade saia da escuridão, torne-se lúcida e trabalhe na construção de um mundo no qual o bem prevaleça de forma definitiva sobre o mal, são demonstrações categóricas de que ele está muito mais próximo do Reino dos céus do que boa parte dos supostos representantes de Jesus na terra.
A sociedade contemporânea caracteriza-se por uma complexidade "sui generis", decorrente, sobretudo, da acentuação do dinamismo próprio do processo de modernização. Se os clássicos da sociologia tomaram para si a tarefa de explicar e/ou interpretar um mundo no qual prevalecia, de modo geral, a crença de que a sociedade evoluía para um estágio avançado de organização social, os contemporâneos têm a missão de trazer luz sobre os rumos incertos de uma civilização para a qual o futuro é uma obscuridade. Zygmunt Bauman, para caracterizar a civilização moderna e globalizada que privilegia alguns e exclui milhões, põe em destaque o medo. Ao perder sua fé no potencial da ciência de construir um mundo mais seguro e mais feliz, o indivíduo vê-se à deriva no processo histórico. Sente-se vulnerável perante as muitas ameaças que a caótica realidade social contemporânea apresenta. A possibilidade da violência, da solidão, das epidemias, da exclusão social, produz ansiedades típicas do nosso tempo. O mundo, descrito pelo autor, é o mundo das coisas fora do lugar. Em sua visão, não é como se a lei e a ordem entrassem em colapso, mas é “como se nunca tivessem existido”. As certezas próprias da modernidade sólida/pesada evaporaram-se na modernidade líquida/leve. O insucesso dos grandes projetos da iluminada comovisão moderna redundou numa sempre crescente individualização. Sobre o homem de hoje, Bauman (2001) assinala que, “Nas novas circunstâncias, o mais provável é que a maior parte da vida humana e a maioria das vidas humanas consuma-se na agonia quanto às escolhas e objetivos.” Impulsionando o processo de individualização está o capitalismo de consumo. É através do consumo que os sujeitos constroem sua individualidade e, por conseguinte, manifestam sua condição de seres livres. No entanto, tal liberdade se torna relativa, já que o próprio consumo lhe impõe limites, no sentido de que, a permissão para consumir não é concedida a todas as pessoas indiscriminadamente. E aos que tem permissão, é o mercado que determina tanto as necessidades quanto os produtos para satisfazê-las, como assinalam Adorno e Horkheimer na 'Dialética do Esclarecimento'. Sob o ponto de vista de Jürgen Habermas, o século XXI desponta trazendo consigo o peso da crise do estado de bem-estar social e do esgotamento das energias utópicas. A nova situação, segundo ele, resulta do fato de que o programa do Estado, que alimentava-se, recorrentemente da utopia de uma sociedade do trabalho, não consegue mais construir possibilidades futuras de uma vida coletivamente melhor e menos ameaçada. Assim, o autor faz uma análise do mundo contemporâneo pondo em evidência a insegurança resultante do temor de um futuro que se mostra ameaçador. Contudo, a descrição habersiana não se encerra na perspectiva negativa aqui apresentada. O autor faz questão de mostrar que, embora o quadro seja sombrio, o atual contexto traz em si as condições necessárias para “uma práxis comunicativa cotidiana e para um processo de formação discursiva da vontade, as quais poderiam criar as condições para os próprios participantes - segundo as necessidades e idéias próprias e por iniciativa própria – possibilidades concretas de uma vida melhor e menos ameaçada.” Nesse sentido, a construção de uma sociedade mais livre e igualitária depende basicamente da suplantação da razão instrumental, própria da modernidade - cujo propósito é controlar a natureza e subjugar o outro - por uma razão comunicativa, que poderia levar a humanidade a uma etapa de convivência mais pacífica e, por conseguinte, menos perigosa.
Segundo Bourdieu, existem três abordagens teóricas cujo objeto é o mundo social: o conhecimento fenomenológico, o conhecimento objetivista e o conhecimento praxiológico. Cada um desses tipos de conhecimento possui um conjunto de teses antropológicas.
O conhecimento fenomenológico, priorizando o subjetivismo, busca compreender a percepção do sujeito na sua apreensão do objeto. O que interessa é a experiência primeira do mundo social. O conhecimento objetivista, por sua vez, constrói relações objetivas que estruturam as práticas e as representações de práticas que naturalizam o mundo social. Bourdieu tece uma crítica aos dois tipos de abordagens, pois constituem visões unilaterais que alienam sujeito e objeto.
Assim, o conhecimento praxiológico, defendido pelo autor, propõe que deve se considerar não somente os sistemas das relações objetivas, como postula o objetivismo, mas também a relação dialética entre essas estruturas e as disposições estruturadas – habitus – nas quais elas se atualizam e que tendem a reproduzi-las. Tal relação dialética seria o duplo processo de interiorização da exterioridade e de exteriorização da interioridade. Desse modo, o conhecimento praxiológico não elimina as aquisições do conhecimento objetivista, mas conserva-as e vai além, integrando o que esse conhecimento teve que excluir para obtê-las.
Bourdieu alerta que, por não construir a prática senão de maneira negativa, ou seja, por meio de categorias analíticas que não passam de abstrações que tenta reificar- tais como cultura, classe social, modo de produção- o conhecimento objetivista não acrescenta nada no sentido de se entender o princípio de produção das regularidades, negligenciando, portanto, um ponto importante para a compreensão mais abrangente do mundo social.
Semana passada fui ao cinema assistir “Quem quer ser um Milionário?” (Slumdog Millionaire). Motivada, especialmente, pelo fato de ser um filme que tem o enredo como seu maior trunfo. Ora, um longa-metragem feito fora do circuito hollywoodiano, com um baixo orçamento, se comparado aos padrões dos filmes estadunidenses, e que foi reconhecido pela Academia com oito estatuetas, incluindo a de melhor filme, merece ser visto.
Eu sei que para muitas pessoas, me incluo entre elas, a opinião daqueles que concedem o Oscar não é significativa. Mas, devemos admitir que, desta vez, a escolha foi surpreendentemente maravilhosa. Sem lançar mão da parafernália tecnológica usada em grandes produções, o diretor, Danny Boyle, conta-nos, de forma magistral, a história de Jamal, um adolescente indiano proveniente da favela que consegue ganhar o prêmio máximo, 20 milhões de rúpias, em um programa de perguntas e respostas da televisão.
O ponto de partida da trama é o questionamento: Como pode um favelado conseguir chegar aonde nem pessoas com alto nível de formação acadêmica conseguiram?
A vida do garoto é marcada por tragédias pessoais, como ver a mãe assassinada por policiais hindus - sua família era mulçumana. Órfãos, ele e o irmão têm de lidar com diversas situações difíceis. Mas o grande mote do enredo é o amor que Jamal nutre, persistentemente, por Latika, uma jovem, também órfã, que conhecera ainda criança. Esse sentimento é o fator determinante de toda a existência do rapaz. Assim, ele não está no programa pelo prêmio, mas por Latika.
Mas, voltando a questão que é o eixo da trama, como ele conseguiu responder todas as perguntas corretamente? Jamal não é nenhum gênio, mas tem a capacidade ímpar de aprender, simplesmente, prestando atenção em sua própria vida. Todas as respostas foram buscadas em sua vivência. O mérito do adolescente está no fato de que, diferentemente da maioria, ele estava sempre atento ao que lhe acontecia e, mais, aprendeu a ler, não os livros, mas as pessoas. Como diriam os críticos afetados, “Vale a pena conferir.”