domingo, 21 de junho de 2009

Do Amor e dos falsos amores



Confesso que procurei resistir bravamente à tentação de falar sobre esse tema, mas, como podem perceber, fui vencida. Certo incômodo que tomou conta de mim nos últimos tempos é o principal responsável por eu estar aqui tratando, também, do assunto mais debatido na história da humanidade. Não tenho a pretensão de chegar a nenhuma conclusão definitiva sobre a questão (isso seria o cúmulo da presunção), meu intuito é, sobretudo, compreender melhor as mudanças na forma como as pessoas se relacionam no nosso contexto histórico-cultural.
Penso ser de uma inutilidade absurda fazermos comparações entre períodos históricos distintos, sentenciando que um foi melhor em detrimento do outro. Digo isto porque é comum ouvirmos pessoas que se referem ao passado exaltando supostas qualidades que se perderam no decorrer do tempo. Geralmente concluem afirmando que os dias estão cada vez piores. O fato é que todas as épocas têm seus próprios males, simplesmente porque nós, seres humanos, somos especialistas em produzir males. Como posso eu, como mulher, dizer que era melhor viver sempre como cidadã de segunda classe como ocorria de modo acintoso num passado recente? É óbvio que ainda não há equivalência de direitos, contudo, já avançamos bastante. Esse exemplo é só para esclarecer que não é minha intenção estabelecer parâmetros valorativos entre a sociedade contemporânea e outras formas de organização social. Como socióloga, restrinjo-me a tratar do passado apenas como meio para entender o presente, meu foco é sempre os problemas sociais que enfrentamos na atualidade. Entre esses problemas, destaco a forma como as relações são construídas e rapidamente desfeitas nessa sociedade que cultua o modo Sex and the city de viver.
Zigmunt Bauman, sociólogo polonês, observa, em seu livro Amor líquido, que os vínculos que desenvolvemos, de forma geral, são frágeis. Essa é conseqüência previsível da ênfase que a ideologia liberal põe sobre o indivíduo. Com a modernidade aprendemos a nos colocar sempre em primeiro lugar, “são os meus interesses, desejos e vontades que preciso atender antes de tudo”. Numa sociedade assim, qual o lugar do amor? C. S. Lewis, em Os quatros Amores, faz uma distinção entre dois tipos de amor. O primeiro é o amor-doação, caracterizado pelo altruísmo, ou seja, capacita-nos a pensar no outro antes nós mesmos. O segundo tipo é o amor-necessidade que nos faz buscar o outro para suprir nossas próprias demandas. O amor-necessidade cumpre a função importante de nos direcionar para o próximo num sentimento de dependência. O grande problema é quando ele se sobrepõe ao amor-doação. É exatamente isso que acontece na sociedade atual, daí a facilidade com que se desfazem os laços humanos. É difícil manter uma relação na qual cada um pensa apenas no seu próprio bem estar, acrescenta-se a isso o agravante de que todos nós temos demandas existenciais que jamais serão supridas por outra pessoa, por mais cheia de qualidades que ela seja.
  O que vemos hoje é a celebração da superficialidade, dos amores falsos e efêmeros, da vida descompromissada. Entretanto, isso serve apenas para tornar ainda mais evidentes nossa solidão e carência. No fundo, o que a maioria anseia é pela oportunidade de encontrar alguém que lhe ofereça e a quem possa oferecer, sem medo, a chance de um relacionamento duradouro. O grande empecilho que cada um enfrenta, todavia, é o próprio egoísmo, já que toda relação para se manter exige esforço, concessões de ambas as partes e, não menos importante, a consciência de que uma relação jamais poderá ser constituída apenas de “puro prazer”.
  Apesar do quadro negativo descrito, acredito ainda que há possibilidades de encontros verdadeiros, de reconhecimento mútuo. No entanto, creio que esse é um privilégio reservado somente para aqueles que de alguma maneira aprenderam a ver mais do que aquilo que é aparente nas pessoas. É lá, nesse lugar oculto à primeira vista, que encontramos as qualidades que podem suscitar em nós a vontade de estarmos próximos de alguém para sempre.

BAUMAN, Z. Amor líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
LEWIS, C. S. Os quatro amores. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O Evangelho de Jesus Cristo segundo Saramago

"Porque tive fome e não me deste de comer; tive sede e não me deste de beber; estive nu e não me vestiste..."


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Em uma lista dos escritores que mais admiro, José Saramago ocupa, com certeza, um lugar significativo. Não só pelos seus enredos sensacionais, mas também pelo estilo peculiar na elaboração de seus textos. Ele é, no sentido mais exato, um artista das letras e usa todo esse talento para escrever o seu mais polêmico livro: O evangelho segundo Jesus Cristo.
A narrativa de Saramago expõe, não de forma explícita, um questionamento que é comum à grande parte dos céticos: a suposta incompatibilidade da existência de um Deus bom e onipotente com o mal e o sofrimento que imperam no mundo. Assim, não é bem uma postura ateísta que se revela no livro, mas um antiteísmo. O autor-narrador empenha-se em desconstruir a concepção judaico-cristã de um Deus de amor, cheio de misericórdia e graça. Nesse sentido, na imagem do Criador que ele apresenta destacam-se a arbitrariedade e o sadismo que, por sua vez, fizeram de seu próprio Filho uma vítima. A humanidade de Jesus é levada às últimas conseqüências. Para isto, o escritor explora, como tantos já fizeram, uma suposta relação marital de Cristo com Maria Madalena; propõe que o relacionamento de Jesus com a mãe, Maria, era permeado de conflitos e, sobretudo, descreve o Filho de Deus não como um “cordeiro mudo sendo levado ao matadouro”, mas como alguém que resistia em cumprir a vontade do Pai.
Érico Veríssimo sentencia, através de uma de suas personagens,  no livro "Olhai os lírios dos campos",  que nem o crente mais fervoroso preocupa-se tanto com idéia de Deus como o mais convicto dos ateus. Saramago, que assume seu ateísmo, parece não fugir à regra. Afinal, o fato de recontar, sob uma perspectiva própria, a biografia de Jesus é um indicativo de que ele, como todo bom ateu, não consegue, simplesmente, assumir uma posição de indiferença religiosa.
Não compartilho de modo algum com a idéia de Deus apresentada na obra de Saramago. Falta ao autor um conhecimento mais aprofundado da teologia bíblica. No entanto, a Igreja institucionalizada deveria fazer uma mea culpa, pois é exatamente essa a percepção que, no decorrer dos séculos, ela construiu e repassou com sua intolerância. Não me refiro ao catolicismo apenas, mas ao cristianismo, de modo geral. Ora, se a Igreja é a representante de Deus na terra, não é sem razão que sua imagem seja confundida com a imagem do próprio Deus. O que vemos é um cristianismo que caiu na tentação da luta pelo poder, que acumula riquezas, constrói catedrais luxuosas, gasta milhões em ostentação e afastou-se, há muito tempo, do verdadeiro sentido do Evangelho de Jesus.
Portanto, apesar do ateísmo (ou antiteísmo) de José Saramago, seu clamor por justiça, presente no evangelho por ele proposto e em outras obras suas; seu socialismo sincero; seu desejo, sempre evidente, de que a sociedade saia da escuridão, torne-se lúcida e trabalhe na construção de um mundo no qual o bem prevaleça de forma definitiva sobre o mal, são demonstrações categóricas de que ele está muito mais próximo do Reino dos céus do que boa parte dos supostos representantes de Jesus na terra.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sociedade contemporânea: medo, individualização e a possibilidade de uma práxis comunicativa





A sociedade contemporânea caracteriza-se por uma complexidade "sui generis", decorrente, sobretudo, da acentuação do dinamismo próprio do processo de modernização. Se os clássicos da sociologia tomaram para si a tarefa de explicar e/ou interpretar um mundo no qual prevalecia, de modo geral, a crença de que a sociedade evoluía para um estágio avançado de organização social, os contemporâneos têm a missão de trazer luz sobre os rumos incertos de uma civilização para a qual o futuro é uma obscuridade.
Zygmunt Bauman, para caracterizar a civilização moderna e globalizada que privilegia alguns e exclui milhões, põe em destaque o medo. Ao perder sua fé no potencial da ciência de construir um mundo mais seguro e mais feliz, o indivíduo vê-se à deriva no processo histórico. Sente-se vulnerável perante as muitas ameaças que a caótica realidade social contemporânea apresenta. A possibilidade da violência, da solidão, das epidemias, da exclusão social, produz ansiedades típicas do nosso tempo. O mundo, descrito pelo autor, é o mundo das coisas fora do lugar. Em sua visão, não é como se a lei e a ordem entrassem em colapso, mas é “como se nunca tivessem existido”.
As certezas próprias da modernidade sólida/pesada evaporaram-se na modernidade líquida/leve. O insucesso dos grandes projetos da iluminada comovisão moderna redundou numa sempre crescente individualização. Sobre o homem de hoje, Bauman (2001) assinala que, “Nas novas circunstâncias, o mais provável é que a maior parte da vida humana e a maioria das vidas humanas consuma-se na agonia quanto às escolhas e objetivos.”
Impulsionando o processo de individualização está o capitalismo de consumo. É através do consumo que os sujeitos constroem sua individualidade e, por conseguinte, manifestam sua condição de seres livres. No entanto, tal liberdade se torna relativa, já que o próprio consumo lhe impõe limites, no sentido de que, a permissão para consumir não é concedida a todas as pessoas indiscriminadamente. E aos que tem permissão, é o mercado que determina tanto as necessidades quanto os produtos para satisfazê-las, como assinalam Adorno e Horkheimer na 'Dialética do Esclarecimento'.
Sob o ponto de vista de Jürgen Habermas, o século XXI desponta trazendo consigo o peso da crise do estado de bem-estar social e do esgotamento das energias utópicas. A nova situação, segundo ele, resulta do fato de que o programa do Estado, que alimentava-se, recorrentemente da utopia de uma sociedade do trabalho, não consegue mais construir possibilidades futuras de uma vida coletivamente melhor e menos ameaçada. Assim, o autor faz uma análise do mundo contemporâneo pondo em evidência a insegurança resultante do temor de um futuro que se mostra ameaçador.
Contudo, a descrição habersiana não se encerra na perspectiva negativa aqui apresentada. O autor faz questão de mostrar que, embora o quadro seja sombrio, o atual contexto traz em si as condições necessárias para “uma práxis comunicativa cotidiana e para um processo de formação discursiva da vontade, as quais poderiam criar as condições para os próprios participantes - segundo as necessidades e idéias próprias e por iniciativa própria – possibilidades concretas de uma vida melhor e menos ameaçada.”
Nesse sentido, a construção de uma sociedade mais livre e igualitária depende basicamente da suplantação da razão instrumental, própria da modernidade - cujo propósito é controlar a natureza e subjugar o outro - por uma razão comunicativa, que poderia levar a humanidade a uma etapa de convivência mais pacífica e, por conseguinte, menos perigosa.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Pierre Bourdieu e a proposta de uma "Teoria da Prática".



Segundo Bourdieu, existem três abordagens teóricas cujo objeto é o mundo social: o conhecimento fenomenológico, o conhecimento objetivista e o conhecimento praxiológico. Cada um desses tipos de conhecimento possui um conjunto de teses antropológicas.
O conhecimento fenomenológico, priorizando o subjetivismo, busca compreender a percepção do sujeito na sua apreensão do objeto. O que interessa é a experiência primeira do mundo social. O conhecimento objetivista, por sua vez, constrói relações objetivas que estruturam as práticas e as representações de práticas que naturalizam o mundo social. Bourdieu tece uma crítica aos dois tipos de abordagens, pois constituem visões unilaterais que alienam sujeito e objeto.
Assim, o conhecimento praxiológico, defendido pelo autor, propõe que deve se considerar não somente os sistemas das relações objetivas, como postula o objetivismo, mas também a relação dialética entre essas estruturas e as disposições estruturadas – habitus – nas quais elas se atualizam e que tendem a reproduzi-las. Tal relação dialética seria o duplo processo de interiorização da exterioridade e de exteriorização da interioridade. Desse modo, o conhecimento praxiológico não elimina as aquisições do conhecimento objetivista, mas conserva-as e vai além, integrando o que esse conhecimento teve que excluir para obtê-las.
Bourdieu alerta que, por não construir a prática senão de maneira negativa, ou seja, por meio de categorias analíticas que não passam de abstrações que tenta reificar- tais como cultura, classe social, modo de produção- o conhecimento objetivista não acrescenta nada no sentido de se entender o princípio de produção das regularidades, negligenciando, portanto, um ponto importante para a compreensão mais abrangente do mundo social.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A vida realmente ensina, mas só os atentos aprendem



Semana passada fui ao cinema assistir “Quem quer ser um Milionário?” (Slumdog Millionaire). Motivada, especialmente, pelo fato de ser um filme que tem o enredo como seu maior trunfo. Ora, um longa-metragem feito fora do circuito hollywoodiano, com um baixo orçamento, se comparado aos padrões dos filmes estadunidenses, e que foi reconhecido pela Academia com oito estatuetas, incluindo a de melhor filme, merece ser visto.
Eu sei que para muitas pessoas, me incluo entre elas, a opinião daqueles que concedem o Oscar não é significativa. Mas, devemos admitir que, desta vez, a escolha foi surpreendentemente maravilhosa. Sem lançar mão da parafernália tecnológica usada em grandes produções, o diretor, Danny Boyle, conta-nos, de forma magistral, a história de Jamal, um adolescente indiano proveniente da favela que consegue ganhar o prêmio máximo, 20 milhões de rúpias, em um programa de perguntas e respostas da televisão.
O ponto de partida da trama é o questionamento: Como pode um favelado conseguir chegar aonde nem pessoas com alto nível de formação acadêmica conseguiram?
A vida do garoto é marcada por tragédias pessoais, como ver a mãe assassinada por policiais hindus - sua família era mulçumana. Órfãos, ele e o irmão têm de lidar com diversas situações difíceis. Mas o grande mote do enredo é o amor que Jamal nutre, persistentemente, por Latika, uma jovem, também órfã, que conhecera ainda criança. Esse sentimento é o fator determinante de toda a existência do rapaz. Assim, ele não está no programa pelo prêmio, mas por Latika.
Mas, voltando a questão que é o eixo da trama, como ele conseguiu responder todas as perguntas corretamente? Jamal não é nenhum gênio, mas tem a capacidade ímpar de aprender, simplesmente, prestando atenção em sua própria vida. Todas as respostas foram buscadas em sua vivência. O mérito do adolescente está no fato de que, diferentemente da maioria, ele estava sempre atento ao que lhe acontecia e, mais, aprendeu a ler, não os livros, mas as pessoas. Como diriam os críticos afetados, “Vale a pena conferir.”

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Em defesa de uma existência plena

“Por que amar, se perder machuca tanto? Eu não tenho mais respostas: só a vida que eu vivi. Duas vezes nessa vida foi me dada a escolha: como um garoto e como um homem.O garoto escolheu a segurança, o homem o sofrimento. A dor de agora faz parte da felicidade de então. Esse é o trato.”

O mundo moderno, guiado pelos postulados do iluminismo, exaltou a razão, a capacidade transformadora do homem e tomou para si a missão de lançar os fundamentos de uma sociedade livre, fraterna e igualitária. A ciência assumiu uma posição de absoluta primazia por um bom período de tempo em detrimento da religião que passou a ser associada ao “infantilismo da humanidade” por Freud, à idéia de “alienação” por Marx e a outras concepções antropocêntricas cujo ápice foi o decreto da “morte de Deus” por Nietzsche.
Contudo, o avanço técnico-científico revelou, especialmente por meio das duas grandes guerras mundiais, que tem seu lado sombrio. Segundo Giddens, a possibilidade criada pela ciência de dizimar populações inteiras por meio das armas de destruição em massa nos colocou sob risco iminente que, por sua vez, gerou uma espécie de incerteza na sociedade contemporânea. Ao contrário do contexto iluminista, vivemos uma época de pessimismo. O homem de hoje não olha para o futuro. Daí o menosprezo com que os governantes e a grande maioria das pessoas tratam os alertas acerca dos perigos que o desrespeito ao meio-ambiente representa.
Entre as conseqüências da frustração que as promessas não cumpridas do iluminismo provocaram, quero destacar a emergência de uma sociedade hedonista que é, por seu turno, reflexo de um tempo em que a esperança deixou de existir ou, na melhor das hipóteses, tem sido direcionada para coisas que jamais poderão trazer satisfação perene ao ser humano, resultando, portanto, em maior frustração.
Ser feliz é o imperativo do capitalismo de consumo vigente, por conseguinte, é o desejo hedonista de uma existência sem sofrimento que orienta a conduta e transforma as relações em um culto à superficialidade. O sofrimento deve ser evitado a qualquer custo, predominando a exigência de alívio imediato para as dores da vida. O problema, entretanto, é que por mais que nos esforcemos para ignorá-lo ou suplantá-lo por meio de fórmulas químicas ou através das receitas dos livros de auto-ajuda, ele não pode ser eliminado, pois é elemento constituinte da existência humana.
C. S. Lewis – escritor cristão que ficou mundialmente conhecido pela Série Nárnia – elegeu o problema do sofrimento como um de seus temas principais. No livro autobiográfico Surpreendido pela Alegria, ele confessa que mais do que buscar a felicidade, se esforçou para não sofrer. Para isso, optou por uma vida sóbria de solteirão convicto. Abrir-se para o amor seria se por em risco desnecessário. Entretanto, as coisas não correram do jeito que ele planejara.
O filme Terra das sombras, estrelado por Anthony Hopkins e Debra Winger, mostra o bendito fracasso de Lewis. Ele estava com mais de cinqüenta anos quando conheceu Helen Joy Dadviman, uma poetisa norte-americana. O amor entrou sorrateiramente no coração do escritor, mas ele só foi capaz de admitir isso quando descobriu que Helen estava com câncer.Vencido pelo sentimento, casa-se com ela. Fica evidente que jamais experimentara tamanha felicidade, mas, ironicamente, nunca havia sentido tamanha apreensão, já que o prenúncio da dor que havia de experimentar sombreava sua felicidade. Em um dos mais significativos diálogos do filme, a poetisa toca no assunto de sua morte, Lewis responde que não queria falar sobre isso, Helen então argumenta que ele precisava saber que a dor que iria sentir depois era parte da felicidade que estava sentido naquele momento.
Ora, a esposa de Lewis estava dando a definição exata do que é felicidade. Ao contrário do que muitos pensam, felicidade não é ausência do sofrimento, mas é a capacidade de reconhecer o que temos de bom no tempo presente, ainda que o bom não exista em estado puro. Ou seja, a existência plena, implica numa aceitação consciente do absurdo que é a vida, com seus bons e maus momentos.
Pode parecer paradoxal, mas a busca desenfreada por prazer tem o poder de colocar ênfase sobre o que é ruim. Isto porque, o prazer é efêmero, mas o vazio que o sucede torna-se constante. Então, vemos pessoas em um ciclo vicioso ansiando por uma felicidade que nunca está aqui, mas sempre lá e, em nome dela, estão sempre dispostas a sacrificar o bem-estar de outras pessoas. Afinal, o egoísmo, a cobiça, as traições, tudo é justificado, porque “eu tenho a obrigação de lutar pela minha felicidade”. Lamento informar que os que lutam para ser felizes não o serão nunca. Felicidade não se consegue por esforço. Ela é um estado de alma sustentado pelo sentimento de gratidão, pela disposição de perdoar, pela competência para rir de si mesmo e, acima de tudo, ela resulta da coragem de nos abrirmos para o outro através do amor, à exemplo do que Lewis fez, mesmo que isso nos faça sofrer profundamente. Se não for assim, não poderemos dizer que vivemos a vida plenamente.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Capitalismo de consumo e reificação do homem: denúncia e convite para que resgatemos nossa humanidade



A modernidade surge sob a égide de um novo modo de produção que, por sua vez, é um dos fatores que mais suscitaram mudanças na cultura ocidental. O homem, a partir de então, começa a ser percebido como indivíduo autônomo, sujeito de si mesmo e da história. A expectativa era de que a razão conduziria a humanidade a um futuro glorioso. Livre da tutela da religião, com a perspectiva de controle total da natureza através da ciência, a construção de uma sociedade perfeita era apenas uma questão de tempo.
O otimismo em relação ao homem e ao futuro da humanidade sofreu golpes fatais. Entre os mais relevantes está o desmascaramento do sistema capitalista por Karl Marx. Não sou comunista, não nos moldes do marxismo, mas isso não me impede de reconhecer que, em pelo menos um aspecto de suas investigações, o pensador alemão estava certo. No capítulo “A mercadoria” de O Capital, ele procura mostrar que de todos os males que o capitalismo trouxe o mais nocivo é o processo de reificação do ser humano. Isso significa que na engrenagem da economia liberal, os trabalhadores foram transformados em peças, existindo para o objetivo único de produzir mercadorias, estas sim, são as verdadeiras protagonistas do novo sistema.
Desde o período histórico pesquisado por Marx, o modo de produção capitalista passou por diferentes fases, mostrando uma capacidade impressionante de adaptação, evitando assim – ou pelos menos retardando - que a profecia marxiana de um colapso se cumprisse. É bem verdade que muitos países conseguiram alcançar um nível satisfatório de riqueza e distribuição de renda, especialmente, através do welfare state das sociais democracias. Mas, também é verdade que para que esses países continuem ricos é preciso que outros permaneçam pobres. A lógica do capitalismo é o acúmulo, portanto, para que alguns fiquem com muito, outros precisam ficar com pouco ou com quase nada.
Contudo, não é sobre o prejuízo material que desejo colocar meu enfoque. O que me assusta é constatar que o capitalismo avançado da sociedade contemporânea está conseguindo, com êxito, completar o processo de desumanização do homem. Por um lado, fomos transformados em consumidores insaciáveis e, por outro, em objetos de consumo. A evidência disso é a forma que as relações sociais assumem em nossos dias. Com que facilidade as pessoas são usadas e descartadas, como se não fossem nada além de corpos que podem, por um tempo, proporcionar prazer ou trazer algum tipo de benefício! Existe uma tendência de não percebermos as pessoas como seres integrais, mas apenas como invólucros, assim, não precisamos ter cuidado para não magoar, não ferir. Como é o corpo que é valorizado, nos tornamos vítimas- particularmente as mulheres- de uma luta ensandecida por um padrão estético inatingível para a maioria. A frustração e a baixa auto-estima são alimentadas, dia após dia, pelas revistas, outdoors, televisão e toda forma de veículo de comunicação. Obviamente, o sistema lucra bilhões com essa busca desenfreada pelo corpo perfeito e com a batalha sem trégua contra o envelhecimento.
Em seu livro Ensaio sobre a cegueira, José Saramago, metaforicamente, faz uma alusão muito apropriada à sociedade contemporânea. Vivemos uma epidemia de cegueira, não somos capazes de enxergar que por traz de cada rosto, de cada corpo, existe um ser humano com uma história, alguém fervilhando de sentimentos, que deseja, acima de tudo, ser visto como pessoa humana, reconhecido, amado incondicionalmente. O autor mostra que nossa cegueira é de difícil diagnóstico porque não a percebemos. Se nos tornássemos fisicamente cegos, quem sabe, poderíamos então ver nos outros aquilo que realmente interessa.
A obra de Saramago é um convite para que resgatemos nossa humanidade. Não acredito que isso vá acontecer à curto prazo, pelo contrário, penso que ainda levará muitos anos para começarmos a reverter esse processo. Todavia, permanece o consolo de saber que nessa sociedade de cegos existem, à semelhança da mulher do médico – personagem do livro – pessoas que não perderam sua visão. Entretanto, para enxergar além, para ter percepção, é cobrado o alto preço da dor de saber, sem dispor, contudo, do poder necessário para transformar de modo imediato. Isso, por vezes, gera um sentimento de inadequação que pode arrefecer a determinação daqueles que enxergam e fazê-los desejar gritar: "Pare o mundo porque eu quero descer!" Mas sabemos que a vontade de desistir é apenas momentânea. São fortalecidos pela idéia, ainda que utópica, de que de alguma forma podem contribuir para a construção de uma sociedade que seja, de fato, composta de seres humanos que se reconhecem como tais.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Sobre a Teoria da Estruturação de Anthony Giddens



Seguindo a tendência da sociologia contemporânea, Giddens procura, com sua teoria da estruturação, resolver o problema da dicotomia indivíduo e sociedade e, por conseguinte, do antagonismo teórico-metodológico derivado de tal dicotomia. De um lado, temos o objetivismo, postulado pelo funcionalismo e pelo estruturalismo, propondo, à semelhança das ciências naturais, leis que regem os fenômenos sociais, determinando a ação dos indivíduos. Por outro lado, temos as teorias interpretativistas, para as quais, são os indivíduos e o sentido que estes atribuem às suas ações que interessam. Para superar tal antagonismo, Giddens propõe uma síntese teórica que conjuga estrutura e ação.
Na teoria da estruturação, as ações dos indivíduos são dotadas de consciência e intencionalidade, embora estes não tenham domínio total das condições e das conseqüências dos seus atos, já que alguns resultados não são previstos. Nesse sentido, a história, construída pelas atividades intencionais dos indivíduos, não acontece de forma premeditada, mas resulta do desejo de buscar uma direção consciente para as ações, ainda que as conseqüências de uma determinada ação possam não ser àquilo que se intencionou originalmente. Dessa forma, vê-se em Giddens uma percepção episódica da história, rejeitando, assim, a noção de leis que governam o processo histórico. A vida social possui regularidades, mas não são naturais, são regularidades reflexivas.
Para sistematizar sua teoria, Giddens define o conceito de estrutura como um conjunto de regras que, segundo o autor, são inerentemente transformacionais, e de recursos utilizados na reprodução social. Tais regras são de dois tipos: elementos normativos e códigos de significação. Os recursos também são classificados em duas espécies: recursos impositivos, resultantes da coordenação da atividade dos agentes, e recursos alocativos, provenientes do controle de produtos materiais ou de aspectos do mundo material. A noção de estrutura é primordialmente processual. Diz respeito, em análise social, às propriedades de estruturação que permitem práticas sociais semelhantes e, por conseguinte, recorrentes, por dimensões variáveis no tempo e no espaço.
Para Giddens, a estrutura é apenas uma “ordem virtual” Assim, os sistemas sociais, que compreendem as a atividades dos agentes humanos, não possuem estruturas, mas propriedades estruturais que, por seu turno, são o que há de mais estável e permanente nas sociedades. As propriedades estruturais mais profundamente enraizadas, implicadas na reprodução de totalidades sociais, são chamadas de princípios estruturais.
A dualidade da estrutura -propriedades estruturais dos sistemas e ação- possui papel central para a construção teórica giddesiana, que não admite oposição. A estrutura é, concomitantemente, restritiva e facilitadora. Não deve ser entendida como externa aos indivíduos, no sentido proposto por Durkheim.
O conceito de ação social é fundamental na teoria de Giddens. O autor caracteriza a ação social por meio de três atributos: racionalidade, reflexividade e intenção. A primeira implica que agir socialmente é agir com certo grau de racionalidade, não sendo, portanto, simples ato mecânico. A segunda, reflexividade, diz respeito à capacidade dos indivíduos de serem sujeitos e objetos de sua própria vida. Por fim, a intencionalidade, que é o elemento não premeditado na ação. Embora a ação seja direcionada por um objetivo, há elementos da intencionalidade que acontecem de forma indireta ou não premeditada.
A dinâmica da interação social pode acontecer de dois modos: face a face, situações de co-presença, e de forma sistêmica que diz respeito às relações recíprocas entre agentes que estão fisicamente ausentes. O poder seria uma característica intrínseca da vida social, não sendo necessariamente, repressivo ou opressor. Nas práticas sociais os indivíduos são constituídos também na dimensão do poder. Tais indivíduos podem agir em duas esferas: institucionalmente ou particularmente. Na esfera institucional, os indivíduos agem de acordo com os sistemas abstratos, não havendo exigência de uma presença física. Em tal esfera, as transformações só podem ocorrer através da ação coletiva dos agentes. Na esfera particular, ações são ações do cotidiano, em contextos de co-presença, pelas quais, os agentes interferem diretamente no meio social.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Gênese e Desenvolvimento do Protestantismo em Max Weber


A contribuição de M. Weber (2000) para compreendermos o surgimento e o avanço do protestantismo é imprescindível. Ainda que não tenha se proposto elaborar uma história desse fenômeno religioso, é ele que, ao desejar encontrar um exemplo histórico da existência de um vínculo entre o comportamento ético-religioso e transformações na esfera econômica, oferece-nos uma visão mais abrangente da religião protestante. O exemplo buscado, foi fornecido pela civilização ocidental com seu modo de produção capitalista e a orientação ética do protestantismo.
Nesse sentido, o desenvolvimento do Ocidente ocorreu com ajuda significativa de uma nova perspectiva difundida pela Reforma Protestante, sobretudo, na sua vertente calvinista, cujo corpo doutrinário exige uma mudança efetiva na vida do fiel que deve ser exteriorizada através do cumprimento zeloso da vocação para a qual cada um foi chamado, tendo em vista a salvação. O propósito único da vida é aumentar a glória de Deus aqui na terra, e isto deve ser feito individualmente. Aí percebemos uma ruptura com o cristianismo medieval onde o enfoque é colocado sobre a comunidade e não sobre o indivíduo. Isto fez com que a nova instância religiosa estivesse mais apta a atender as reivindicações de autonomia que surgem com o mundo moderno.
No pensamento weberiano, a esfera religiosa é essencial no processo de racionalização, explícita em alto grau no protestantismo. A afinidade com o capitalismo se dá precisamente por esta característica da ética protestante, em especial, a ética calvinista que com sua ascese intra-mundana desenvolve o senso do impessoal e do desapego ativo convergindo, assim, com a “impessoalidade da racionalidade cientifica e técnica” (Signore, 1993, p. 116) própria da modernidade. Por meio da investigação de Weber temos um panorama do ethos protestante e sua importância no estabelecimento e legitimação de uma nova ordem social. O sociólogo alemão procura mostrar como o sentido, encontrado por muitos na teodicéia calvinista, foi o responsável para que estes assumissem uma postura ético-moral que auxiliou na consolidação do modo de produção capitalista.



SIGNORE, Mario. Ética religiosa e racionalidade moderna. In: PENZO, Giorgio; GIBELLINI, Rosino (Orgs.) Deus na filosofia do Século XX. São Paulo: Loyola, 1998.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 15 ed. São Paulo: Pioneira, 2000

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O suposto choro de Nietzsche e o choro desconsolado das mulheres afegãs


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Sempre aproveito as férias para “dar um tempo” da leitura acadêmica e mergulhar de cabeça nos romances. Dessa vez caí na tentação dos best Sellers. O primeiro deles foi “Quando Nietzsche chorou” de Irvin Yalom. Confesso que não tinha grandes expectativas, portanto, não foi uma experiência frustrante. Quem tem certo conhecimento da filosofia nietzscheana e alguma informação sobre a história da psicanálise, perceberá que o livro não tem a pretensão de explorar de modo mais profundo nem uma coisa nem outra.
O enredo, misturando realidade e ficção, propõe um suposto encontro entre Friedrich Nietzsche e Joseph Breuer, precursor da terapia psicanalítica. Tal encontro fora arquitetado por Lou Salomé, mulher que despertou uma paixão desesperadora no filósofo. Sentindo-se culpada e temendo que Nietzsche suicidasse, Salomé roga a Breuer que o ajude a superar a angústia. Contudo, o médico experimentava um desespero semelhante, atormentado por um sentimento obsessivo por Bertha, personagem também real, ex-paciente que sofria de histeria e que ficou mundialmente conhecida sob o pseudônimo de Anna O. A trama se desenrola tendo como base a relação entre Breuer e Nietzsche. Os dois revezam na posição de médico e paciente. Por fim, surge uma amizade que transforma a vida de ambos.
O romance de Yalon não é um desafio intelectual, penso até que Nietzsche se reviraria no túmulo, caso isso fosse possível, ao ver sua filosofia sendo reduzida a algumas frases de efeito, mas o autor tem o mérito de saber contar uma história. Por esse motivo e pelas informações biográficas que o livro traz, afirmo que é melhor lê-lo do que perder tempo com Paulo Coelho.
O segundo livro foi “A cidade do sol” de Khaled Hosseini, autor que ficou mundialmente conhecido com “O caçador de pipas”. Por ter gostado  desta obra – nem toda unanimidade é burra – esperava uma história a altura quando comecei a ler “A cidade do sol”. Não me decepcionei. Hosseini narra de forma clara e sensível, sem ser piegas, o drama de duas mulheres afegãs, Mariam e Laila, que não são donas dos seus destinos.
A narrativa  desenvolve-se tendo como cenário três décadas de história do Afeganistão, focando, de início, a invasão russa em 1979. Dez anos depois, por causa da atuação dos mujahedins, supridos de armas pelos Estados Unidos, os soldados russos são expulsos. Mas a expulsão não trouxe a democracia, imperou a divisão, até que os fundamentalistas talibãs se apropriaram da maior parte do território. Os decretos dos “servos de Alah” evidenciam que a pretensão era a de se tornarem donos não só do país, mas, também, da alma do povo afegão. A milícia governou de 1996 até 2001, ano que eclodiu a guerra como retaliação aos atentados de 11 de setembro.
A perspectiva que prevalece no romance é  feminina, procurando revelar toda dor que as mulheres afegãs são obrigadas a suportar para continuarem vivas em uma  sociedade absolutamente androcêntrica. O escritor demonstra ter um compromisso com a realidade, portanto, não espere um sol radiante no final, o máximo que poderemos encontrar são lampejos de luz numa pequena fresta.