terça-feira, 14 de setembro de 2010

Pensamento liberal-burguês e misoginia em Luiz Felipe Pondé


Coerência definitivamente não está entre as características que constituem o indivíduo contemporâneo que, embora seja reflexivo, como afirmou Giddens,  não está preocupado em defender posturas e idéias que mantenham um encadeamento lógico. Sua reflexividade exprime-se especialmente por meio da constante capacidade de adaptação que o acelerado ritmo das mudanças sociais exige. Portanto, pode-se dizer que é uma reflexividade pragmática.  Entretanto, um problema  surge quando  essa despreocupação com a coerência atinge a academia e, como consequência,  aparecem construções teóricas que são, na verdade, legítimos balaios pseudo-intelectuais.  Alguns escritos  do filósofo Luiz Felipe Pondé exemplifica bem o que quero dizer. Seus textos, publicados em uma coluna na Folha de São Paulo,  resultam, particularmente, da mistura de pensamento liberal-burguês com uma postura misógina,  no melhor (ou pior) estilo de Nietzsche.
É evidente o incômodo do filósofo com as transformações sociais que promoveram um reposicionamento da mulher na sociedade contemporânea. Não há nada errado com isso. Afinal, todos nós, um pouco menos alienados, estamos sentindo o desconforto de vivermos num tempo de transição. As respostas  não são tão óbvias e as escolhas não são fáceis. Contudo, não é porque estamos inseguros que vamos sair por aí bradando como fanáticos, impondo aos outros nossa visão de mundo.  E, no caso de Pondé, que foi seriamente afetado pela crise da masculinidade que vitima o homem contemporâneo,  o mundo deveria voltar a ser o que era, ou seja, o sexo masculino dominando e o feminino sendo dominado.  E tudo muito bem organizadinho: os homens de sucesso casados com as mulheres bonitas, que jamais poderão deixar de ser bonitas porque senão estarão dando motivo para serem trocadas por outras;  os homens fracassados casados com as mulheres feias e, estes,  nutrindo ódio  e inveja daqueles que estão no topo da hierarquia humana defendida pelo filósofo
Para Pondé, o mundo é estruturalmente desigual e ser contra isso é se submeter ou se aliar à “ditadura dos ofendidos”.  Temos que aceitar, como cantava Tim Maia “que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri”. Perspectiva fatalista  a serviço dos dominantes.  Não há nada que eles desejem mais do que a conformação dos humilhados.  E o mais grave de tudo isso é tentar legitimar teologicamente essa postura citando Cristo. Este jamais foi conformista. Contestou o poder instituído e os padrões sociais da sua época. Lidou com as mulheres de um modo que os homens daquela sociedade jamais ousariam. Portanto, se Pondé quer defender seu ponto de vista androcêntrico, que o faça, mas que sustente sozinho suas baboseiras,  Jesus não tem nada a  ver com elas.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Da divisão do trabalho social e do conceito de solidariedade em Émile Durkheim*



Prefácio: algumas observações sobre os agrupamentos profissionais

Para o Durkheim, o estado de anomia, pelo qual passa a sociedade de seu tempo, pode ser superado apenas por meio da formação de corporações profissionais que consigam submeter tanto empregados quanto patrões às mesmas regras. Esses agrupamentos forneceriam o cimento moral necessário para a organização social. Para ele, o grupo profissional tem um poder moral capaz de cercear os egoísmos individuais, de avivar nos corações dos trabalhadores um sentimento de sua solidariedade comum, impedindo que a lei do mais forte se aplique de modo brutal nas relações industriais e comerciais.


Introdução: o problema

O trabalho se divide em três partes principais:

- saber qual a função da divisão do trabalho, isto é, a que necessidade ela corresponde;
- determinar as causas e as condições de que depende;
- classificar as principais formas anormais que ela apresenta, a fim de evitar que sejam confundidas com as outras e, consequentemente, o patológico ajudará a compreender melhor o fisiológico.

Função da divisão do trabalho

1-Método para determinar essa função

  • A divisão do trabalho, por aumentar a força produtiva e a habilidade do trabalhador, é condição necessária do desenvolvimento intelectual e material das sociedades; é a fonte da civilização. Entretanto, a civilização é desprovida de qualquer caráter moral; ela não apresenta os sinais exteriores pelos quais se reconhecem os fatos morais.
  • A moral é o mínimo indispensável, é o estritamente necessário para o bom funcionamento da sociedade. Ela nos obriga a seguir um caminho determinado em direção a um objetivo definido. Nem a atividade industrial, nem a arte tem um poder moralizante capaz de orientar a conduta.
  • Embora a ciência possua um caráter moral, ela – a verdadeira ciência- está restrita a poucos e, portanto, não  serve como fundamento moral, bem como a arte e a indústria.
  • Existe uma solidariedade social decorrente de um certo número de estados de consciência comuns a todos os membros da mesma sociedade. É ela que o direito repressivo representa materialmente, pelo menos naquilo que tem de essencial.
  • Pode-se medir o grau de concentração alcançado por uma sociedade em conseqüência da divisão do trabalho social, segundo o desenvolvimento do direito cooperativo com sanções restitutivas.

Os serviços econômicos que a divisão do trabalho pode prestar são insignificantes se comparados ao efeito moral que ela produz. Sua verdadeira função é criar entre duas ou várias pessoas um sentimento de solidariedade.

Em que medida a solidariedade que ela produz contribui para a integração geral da sociedade?

Para responder essa questão se faz necessário classificar as diferentes espécies de solidariedade social.

Solidariedade social: fenômeno totalmente moral que se cristaliza por meio do direito. Onde é forte, inclina fortemente os homens uns para os outros, coloca-os frequentemente em contato, multiplica as ocasiões em que têm que se relacionar. O número dessas relações é diretamente proporcional ao das regras jurídicas que as determinam. Portanto, para definir as diferentes espécies de solidariedade social, convém classificar as diferentes regras jurídicas de acordo com as diferentes sanções ligadas a elas. Há dois tipos de sanções: sanções repressivas e sanções restitutivas. Cada uma corresponde a um tipo de solidariedade social.


2 – Solidariedade mecânica ou por similitudes

Crime – Constitui uma ruptura da solidariedade social. Ato que, num certo grau determina contra seu autor aquela reação característica que se denomina pena. Um ato é criminoso quando ofende as condições consolidadas da consciência coletiva, ou seja, quando transgride as regras jurídicas.

Sentimentos coletivos – Não apenas são inscritos em todas as consciências, mas são, também, fortemente gravados. Emoções e tendências profundamente enraizadas em nós. Isso torna lenta a evolução do direito penal.

Consciência coletiva – Conjunto de crenças e de sentimentos comuns à média dos membros de uma sociedade. Sistema determinado que tem vida própria. Os indivíduos passam e a consciência coletiva permanece. Ela é o tipo psíquico da sociedade.

Coesão social – Decorre de uma certa conformidade de todas as consciências particulares a um tipo comum, que não é senão o tipo psíquico da sociedade.

Existem dois tipos de consciência para Durkheim: Uma contém os estados pessoais a cada um de nós e que nos caracterizam. Representa nossa personalidade individual e a constitui. A outra representa o tipo coletivo, portanto, a sociedade. Esta determina nossa conduta. Assim, não é em vista do nosso interesse pessoal que agimos, mas perseguimos fins coletivos. Em suma, as duas consciências formam uma só. Dessa assimilação total do individuo à sociedade, emerge a solidariedade mecânica.

Solidariedade mecânica – É uma espécie de solidariedade sui generis, nascida das semelhanças; liga diretamente o indivíduo á sociedade. Além de uma ligação geral e indeterminada do indivíduo ao grupo, torna também harmônicos os pormenores dessa conexão.

Direito repressivo – Próprio da solidariedade mecânica. Os atos que ele qualifica como crimes são de dois tipos: àqueles que exibem uma dessemelhança violenta contra o tipo coletivo; ou àqueles que ofendem órgão da consciência comum.

Pena – Ainda que resulte de uma reação inteiramente mecânica, passional e irrefletida, cumpre um papel. Serve para corrigir o culpado ou para intimidar possíveis imitadores. Sua verdadeira função é manter a coesão social, ou preservar a consciência comum em toda a sua vitalidade.


3 – Solidariedade devido a divisão do trabalho orgânica

Direito restitutivo – Exprime uma solidariedade resultante da divisão do trabalho

Solidariedade orgânica – Produzida pela divisão do trabalho. Se na solidariedade mecânica prevalece a exigência de que os indivíduos sejam semelhantes, esta, solidariedade orgânica, supõe que eles se diferem uns dos outros e necessita que o indivíduo tenha uma esfera própria de ação, portanto, uma personalidade. A consciência coletiva precisa deixar descoberta uma parte da consciência individual, para que se estabeleçam funções especiais que ela não pode regulamentar. A coesão que dela resulta é mais forte, pois, gera uma interdependência entre os indivíduos
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*Este post  trata-se de uma aula sobre a abordagem funcionalista de Durkheim. Mantive a apresentação em forma de tópicos porque acredito que cumpre melhor o objetivo didático.

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DURKHEIM, Émile.Da divisão do trabalho social. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004

sábado, 17 de julho de 2010

Sobre a etnometodologia e seus principais conceitos

Imagem: http://eucomaarte.blogspot.com.br/

A etnometodologia surgiu na Califórnia nos anos 60, ganhou terreno nos Estados Unidos e chegou até a Europa. Sua importância  epistemológica deve-se ao fato de ter promovido uma ruptura radical com os modos de pensamento da  sociologia tradicional. O eixo da pesquisa etnometodológica é a idéia de Shültz, segundo a qual,  todos são sociólogos em estado prático. Nesse sentido, as pessoas descrevem sua realidade.
            Harold Garfinkel é apontado como o grande fundador da etonometodologia. Seu trabalho recebeu influência de Tallcot Parsons e sua teoria da ação. Contudo, a invés de priorizar as regras e os aspectos cullturais determinando a ação, propõe que a relação entre ator e situação deriva de processos de interpretação. Assim vemos a sociologia passando de um paradigma normativo para um paradigma interpretativo.
            O interacionismo simbólico é também uma das fontes da etonometodologia, em particular com sua teoria da atribuição de rótulos, labeling theory. Ao tratar da questão dos desvios, os etonometólogos recorrem a essa teoria para considerarem os efeitos de uma construção social. Ao serem  rotulados de desviantes, tais pessoas assumem esse rótulo e desse modo justificam comportamentos posteriores à atribuição dos rótulos.
             Os conceitos chaves da abordagem etnometodológica são: prática, realização, indicialidade,  reflexividade, accountability e a  noção de membro. Garfinkel explica que seus estudos abordam atividades práticas, circunstâncias práticas e o raciocínio sociológico prático. Assim, a etnometodologia é a pesquisa empírica dos métodos que os indivíduos lançam mão para atribuir sentido e ao mesmo tempo realizar as suas ações cotidianas.As crenças e os comportamentos de senso comum são interpretados como constituintes necessários de todo comportamento socialmente organizado.  No que se refere ao conceito de realização, o que a sociologia tradicional chama de “modelos” é considerado pela etnometodogia como “as realizações contínuas dos atores”.  Os seus defensores  argumentam que, mesmo quando os fatos se contradizem, os sociólogos arrumam um jeito para encontrar explicações que conformem a suas hipóteses preestabelecidas, especialmente,   a prerrogativa de  “constância do objeto”. Para evitar tal artimanha teórica, os etnometodólogos privilegiam a noção de processo, que busca no  dinamismo  do mundo social suas evidências, em detrimento da elaboração de hipóteses que pressupõe um conhecimento prévio que não considera as contínuas transformações da realidade a ser pesquisada.
A indicialidade é outro conceito relevante e parte da premissa de que é através da linguagem que a vida social é constituída. Nas relações do dia a dia, as pessoas conversam, indagam, respondem, descrevem, ensinam, trapaceiam. Pode-se definir como indicialidade todas as determinações que se ligam a uma palavra, a uma situação. Esse conceito é um termo técnico, adaptado da lingüística. De acordo com essa proposição da etnometodologia, as palavras só ganham sentido completo no seu contexto de produção, quando são “indexadas” a uma situação de intercâmbio lingüístico. Mas a indexação não esgota a integralidade do seu sentido.
            A etnometodologia também utiliza o conceito de reflexividade em suas análises. Tal conceito designa as práticas que, concomitantemente, descrevem e constituem o quadro social. É, segundo Coulon, a propriedade das atividades que pressupõe ao mesmo tempo que torna observável a mesma coisa. A Accountability  possui duas características importantes: reflexividade e racionalidade. Os etnometodólogos procuram definir e teorizar a accountability, propondo que os accounts são informantes ou estruturantes da situação de enunciação. Afirmar que o mundo social é accountable é dizer que ele é algo disponível, isto é, descritível, inteligível, relatável, analisável.
    A noção de membro é outra terminologia chave da abordagem etnometodológica. Tornar-se membro significa filiar-se a um grupo, a uma instituição, o que exige uma conformidade com a linguagem institucional comum. Essa filiação repousa sobre a singularidade de cada um. Uma vez ligados à coletividade, os membros não têm necessidade de se interrogar sobre o que fazem. Conhecem as regras implícitas de seus comportamentos e aceitam as rotinas inscritas nas práticas sociais. Dessa forma, o membro não é apenas uma pessoa que respira e pensa, mas alguém dotado de um conjunto de modos de agir, métodos, de atividades, de savoir-faire, que a capacita para criar dispositivos de adaptação para dar sentido ao mundo que a cerca.
            Por causa de seu caráter radical, a etnometodologia atraiu a hostilidade da sociologia estabelecida. Em 1968, com a publicação da recensão que J.S. Coleman consagrou na American Sociological Review aos Studies de Garfinkel, estourou a guerra entre uma posição mais clássica da sociologia e a proposta etnometodológica que não considera o senso comum como elemento residual, mas como algo imprescindível para a compreensão de como os atores interpretam a vida social.
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COULON, Alan. Etnometodologia. Petrópolis: Vozes, 1995.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Sobre a existência repleta de significado de José Saramago

‎"A grande vitória da minha vida é sentir que, no fundo, o mais importante de tudo é ser boa pessoa. Se pudesse inaugurar uma nova Internacional, seria a Internacional da Bondade." (José Saramago)


       Quem é leitor assíduo deste blog, supondo que exista algum, sabe do respeito e da admiração que tenho pela vida e obra de José Saramago. Para algumas pessoas, pode parecer paradoxal uma cristã confessa gostar tanto dos escritos de alguém que bradou aos quatro ventos seu ateísmo. Vou tentar, por meio deste post, esclarecer essa suposta incongruência.
            Ao ler os livros de Saramago,  ou mesmo vendo suas entrevistas, não consegui enxergar o que considero um ateísmo autêntico.  Penso que o ateísmo genuíno traduz-se em absoluta indiferença. Não dá para não acreditar em Deus e ao mesmo tempo se colocar contra Ele. Era isso que Saramago fazia (ver O evangelho segundo Jesus Cristo e seu último livro, Caim). Portanto, seria mais correto dizer que o escritor era um antiteísta, não um ateu. Antiteísmo pode parecer, sob a perspectiva da maioria dos religiosos, pior do que  ateísmo e talvez seja se for percebido como uma opção incisiva pelo mal.  Não era esse o caso de Saramago, ao contrário, suas desavenças com Deus partiam sempre da sua incapacidade de conciliar a existência do mal, das injustiças, com a noção de que Deus é amor, benignidade e providência. A teodiceia judaico-cristã não o satisfazia. Não sem razão, já que a história da Igreja é marcada  pela vontade de poder,  pela intolerância  e por uma postura que contribui com a perpetuação das  desigualdades sociais. Nesse sentido, o antiteísmo do romancista é compreensível. Afinal, é muito difícil desvincular a imagem de Deus da imagem da instituição religiosa que teoricamente é sua representante.
            Baseada no conhecimento teológico que tenho, que não é muito, mas que julgo o suficiente para fazer tal afirmativa, ouso dizer que a oposição de Saramago é mais justificável do que o cristianismo maculado pela conveniência de muitos de nós. Deus não se importa que briguem com Ele, desde que o confronto seja motivado pelo desejo sincero de que o bem prevaleça. Alguns personagens bíblicos (Jó, Elias, Jeremias...) o  questionaram demonstrando, às vezes,  até mesmo rancor,  sem, no entanto, serem punidos, pois eram movidos pelo desejo de compreender e, principalmente, por um forte senso de justiça. Acredito que essas também eram as motivações do escritor.
           Em síntese, José Saramago era um inquiridor que denunciava as injustiças e  trabalhava em favor da dignidade humana. Foi coerente até o fim, mantendo-se fiel às suas convicções; continuou socialista num mundo cada vez mais devotado ao capital;  fez da sua vida um evento realmente significativo.
           

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Sobre o risco de anomia na sociedade contemporânea



Émile Durkheim, um dos fundadores da sociologia, lança mão do conceito de anomia para explicar o caótico período de transição pelo qual passava a Europa no século XIX. Nenhuma transição histórica ocorre sem crise. As instituições tradicionais perdem sua força normativa, as regras sociais começam a ser contestadas e não há uma autoridade com poder suficiente para promover a coesão social. Para Durkheim, que era um otimista defensor do ideário liberal, a situação era passageira. Ele acreditava na consolidação da sociedade capitalista que, por seu turno, promoveria uma integração tão forte entre os indivíduos que nenhum outro tipo de organização econômica havia conseguido.
Não quero focar no otimismo liberal do sociólogo francês, o objetivo da introdução é apenas elucidar o conceito de anomia que de modo inevitável surge em minha mente todas as vezes que assisto o noticiário ou tenho acesso às informações que são veiculadas pela mídia. A impressão que fica é que, à semelhança da época de Durkheim, estamos vivendo numa sociedade anômica. Não preciso relatar aqui as inúmeras barbaridades que os meios de comunicação se encarregam de nos colocar a par, tirando o máximo proveito da nossa sincera preocupação com o estado do mundo ou da nossa curiosidade mórbida.
Quanto mais sensacionalista e apelativa for uma matéria jornalística, maior público alcançará, como se o ato criminoso em si não fosse mais suficiente para nos deixar indignados. Digo isso porque temo que estejamos perdendo nossa sensibilidade. Em um trecho de seu livro Ensaio sobre a cegueira, José Saramago exemplifica bem o que estou tentando dizer. Ele observa:
[...] se uma pessoa mata outra, por exemplo, seria melhor enunciá-lo assim simplesmente, e confiar que o horror do ato, só por si, fosse tão chocante que nos dispensasse de dizer que foi horrível, Quer dizer que temos palavras demais, Quero dizer que temos sentimentos de menos. (grafia do autor)
Se, por um lado, os meios de comunicação cumprem a importante função de denunciar, por outro, eles contribuem para propagar o pessimismo, a sensação de insegurança e, pior que isso, ajudam a banalizar atos que devem ser veementemente repudiados pela sociedade. Estes são alguns dos efeitos colaterais do excesso de informação que recebemos. Não sem razão, o relativismo se acentua, temos dificuldades em estabelecer os limites entre certo e errado e somos tomados por uma apatia crônica.
Embora, às vezes, eu tenha a sensação de que as coisas estão fora de controle, penso que tal sensação não condiz com a realidade. As estruturas sociais estão cambiantes, mas conseguem manter uma certa ordem. Todavia, se não mudarmos de direção, acredito que num futuro bem próximo podemos sofrer a mais grave conseqüência da nossa falta de comprometimento com a situação atual: um retrocesso generalizado no processo civilizador. E isso pode se manisfestar de duas formas. A primeira é a instauração da barbárie como resultado da frouxidão das normas de convivência social. Os recorrentes crimes que ocorrem em instituições escolares da adoecida sociedade estadunidense é uma pequena amostra do que poderá acontecer em proporções bem maiores se algo não for feito. A segunda é a barbárie legitimada por ideais fundamentalistas. Ora, uma sociedade anômica clama por ordem. Dessa forma, qualquer líder que acene com a possibilidade de segurança pode ganhar facilmente a adesão daqueles que anseiam por alguém que seja capaz de lhes dizer o que está errado e como esse mal deve ser combatido. Assim, tudo se torna válido em prol do objetivo maior de colocar as coisas no seu devido lugar. Os maiores crimes da humanidade foram cometidos sob esse pretexto.
O prognóstico delineado não é nada bom, mas as coisas não precisam acontecer dessa maneira. Podemos construir um mundo que seja mais aprazível para todos. A única revolução de que necessitamos deve acontecer dentro de cada um de nós para vencermos a alienação que nos faz valorizar o supérfluo em detrimento daquilo que realmente importa: o ser humano. A valorização do homem exige atitudes concretas. Quando nos envolvemos com causas significativas, quando não nos isentamos da responsabilidade de educar nossos filhos, quando somos comprometidos com princípios éticos, contribuímos de forma efetiva para que o futuro seja, de fato, mais promissor do que o momento presente parece indicar.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Robert K. Merton - Estrutura social e anomia



As perspectivas sociológicas se voltam para a análise do comportamento que se desvia das normas prescritas. Observar a freqüência do comportamento desviado e porque o desvio tem diferentes formas e moldes em estruturas diferentes. Segundo Merton, a infração dos códigos constitui uma reação “normal”. Seu trabalho consiste em tentar esclarecer esse problema e proporcionar um enfoque sistemático da análise das fontes sociais e culturais do comportamento transviado.

Objetivo Principal: Como algumas estruturas sociais exercem uma pressão definida sobre certas pessoas da sociedade para que sigam uma conduta não conformista.

Padrões de metas culturais e normas institucionais

Dois elementos importantes das estruturas sociais e culturais:

  1. Objetivos culturalmente definidos, de propósitos e interesses, mantidos como objetivos legítimos para todos, ou para membros diversamente localizados na sociedade.
  2. Elemento da estrutura social que define, regula e controla os modos aceitáveis de alcançar os objetivos. As normas institucionalizadas limitam a escolha dos meios para atingir as metas culturais.

    • A ênfase cultural dada a certos objetivos varia independentemente do grau de ênfase dos meios institucionalizados.

Há um problema de má integração cultural quando objetivos particulares se sobrepõem aos meios institucionalizados e, portanto, socialmente aceitos para alcançá-los. Nesse sentido, a eficiência técnica se torna mais importante do que os meios institucionalizados. Por outro lado, o total conformismo com o que está posto pode gerar estagnação. A sociedade é limitada pela tradição “sagrada” marcada pela neofobia. Esse tipo de sociedade é integrada e relativamente estável.
O equilíbrio seria o total ajustamento das satisfações proporcionadas aos indivíduos às pressões culturais provenientes da realização de objetivos, satisfação derivada também da forma de esforço para atingi-los.

Hipótese do autor: O comportamento desviado pode ser considerado sociologicamente como um sistema de dissociação entre as aspirações culturalmente prescritas e os meios estruturalmente proporcionados para realizar essas aspirações.

A cultura norte-americana é apontada como exemplo de sociedade que põe ênfase nos objetivos, sem a ênfase equivalente nos meios institucionalizados. O êxito financeiro é supervalorizado, e o indivíduo é levado a crer que todos podem alcançar o sucesso.

A cultura norte-americana impõe a aceitação de três axiomas culturais:

  1. Todos devem se esforçar para atingir os mais elevados objetivos, já que estão á disposição de todos. Psicologicamente, reforço simbólico do incentivo. Sociologicamente, desvio da crítica da estrutura social para o próprio indivíduo.
  1. O aparente fracasso momentâneo é apenas uma estação no caminho do sucesso final. Psicologicamente, um freio à ameaça de extinção da reação mediante um estímulo associado. Sociologicamente, preservação de uma estrutura de poder social pela identificação dos indivíduos dos estratos inferiores não com seus pares, mas com aqueles que estão no alto.
  2. O verdadeiro fracasso consiste apenas na diminuição ou retirada da ambição. Psicologicamente, aumento da força impulsora para responder constantemente ao estímulo, apesar da continuada ausência de recompensa. Sociologicamente, atuação de pressões culturais favoráveis à conformidade com ditames culturais de ambição irreprimível. Os acomodados podem ser considerados como não pertencentes à sociedade.

Como reagem os indivíduos que vivem nesse contexto cultural?

Tipos de adaptação individual

Merton considera cinco tipos de adaptação:

  1. Conformidade – Em sociedades estáveis, a conformidade é o tipo de adaptação mais difundido. Os padrões estabelecidos são amplamente aceitos pelos membros.
  1. Inovação – A ênfase cultural sobre os objetivos estimula este modo de adaptação através de meios institucionalmente proibidos, mas freqüentemente eficientes para atingir pelo menos o simulacro do sucesso- riqueza e poder. O mérito está em se dar bem, por conseguinte, fica minimizada a distinção entre os meios legais dos costumes, dos meios espertos. As maiores pressões para o comportamento transviado são exercidas sobre as camadas inferiores, pois, estas, não têm acesso aos meios legais para atingir as metas. Assim, vícios e crimes constituem uma reação “normal” contra uma situação em que a ênfase cultural sobre o sucesso pecuniário tem sido assimilada, mas onde há pouco acesso aos meios legítimos para que uma pessoa seja bem sucedida. Os conscientes podem assimilar outro modo de adaptação: a rebelião. Há ainda àqueles que recorrem às justificações místicas, tais como a doutrina da sorte, que cumpre dupla função: explicar a freqüente discrepância entre mérito e recompensa ao mesmo tempo que conserva imune da crítica uma estrutura social que permite tal discrepância.
  1. Ritualismo – As regras institucionais são seguidas quase que compulsivamente. Baixo nível de aspiração derivado do medo de fracassar.
  1. Retraimento – Rejeição dos objetivos culturais e meios institucionais. É a mais incomum forma de adaptação. Pessoas adaptadas (ou mal adaptadas) desse modo estão na sociedade, mas não são da sociedade, pois não compartilham da escala comum de valores. Ex: artistas, psicóticos, párias, proscritos, drogados.
  1. Rebelião – Esta adaptação leva os homens que estão fora da estrutura social circuncidante a encarar e procurar trazer à tona uma estrutura social nova. Pressupõe o afastamento dos objetivos dominantes e dos padrões vigentes, os quais vêm a ser considerados puramente arbitrários, portanto, não podem exigir sujeição, nem serem considerados legítimos. O objetivo da rebelião é introduzir uma estrutura social onde haja uma correspondência mais estreita entre o mérito, o esforço e a recompensa.


Rebelião # ressentimento
· A função dual do mito: a rebelião se sustenta sobre um novo mito, que serve como propulsor na busca de uma estrutura que presumivelmente não provocará frustração nos indivíduos merecedores. Por outro lado, o mito conservador pode assegurar que as frustrações estão na natureza das coisas e ocorrem em qualquer sistema social. O mito da rebelião e do conservadorismo trabalham na direção de um “monopólio da imaginação” em termos que encaminhem o frustrado à adaptação 5 ou o afaste dela.


Tendência à anomia

Quando a ênfase cultural muda da satisfação provinda da competição para a preocupação exclusiva com o resultado final, a tensão resultante favorece a ruptura da estrutura reguladora
O papel da família – A família é uma importante correia de transmissão na difusão dos padrões culturais em relação a geração seguinte. As crianças são estimuladas, não apenas por meios diretos, mas, também, pela convivência e observação constantes, a assimilarem determinados paradigmas.

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· A projeção das ambições paternas sobre a criança – os pais podem tentar obter sucesso por procuração, através de seus filhos- projeção compensatória. Dedução: os pais “fracassados” exerceriam uma maior pressão sobre os filhos, estimulando o comportamento desviado, pois os meios legítimos não estão acessíveis justamente a essas camadas.


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*Este texto é o resumo de um seminário que apresentei sobre teoria sociológica contemporânea. Espero que seja útil para aqueles que buscam compreender as proposições de Robert K. Merton.

Bibliografia
MERTON, Robert K., Estrutura social e anomia In: Sociologia; teoria e estrutura. São Paulo: Mestre Jou, 1970.


quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Novas Práticas Sociais na Educação: por um ensino de qualidade e pelo resgate do prazer de lecionar




Tive a oportunidade de participar, neste mês de janeiro, de um projeto que a Universidade Federal de Goiás está desenvolvendo em parceria com o MEC (Ministério da Educação e Cultura), cujo objetivo principal é a formação de educadores da rede pública do Estado de Goiás, visando o desenvolvimento de novas práticas sociais na educação. Passei dez dias em uma cidade do interior ministrando a disciplina Metodologia de Intervenção Social para cerca de 170 alunos divididos em quatro turmas. Confesso que não foi um trabalho fácil. Digo isso não por causa de extensa carga horária, mas, especialmente, por causa da falta de motivação estampada no rosto de muitas daquelas pessoas que ali estavam. Algumas delas me confessaram que faziam o curso porque sofreram certa coerção ou por razões absolutamente pragmáticas. Não as culpo, é realmente muito difícil manter a motivação correta diante do descaso que tem vitimado a educação brasileira, sobretudo, o ensino básico.
Além de todos os problemas sócio-culturais que afetam diretamente a escola, evidenciados particularmente pela crise de instituições tradicionais como religião, família e trabalho, existe ainda o problema da pressão internacional que o Brasil sofre para mostrar índices positivos que atestem que a sociedade brasileira está avançando no combate às desigualdades sociais. Nesse sentido, os números ganham uma importância primordial, afinal é uma vergonha que um país que está entre as principais economias do mundo tenha um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) tão baixo. Daí, para obter resultados rápidos, melhor dar uma “maqueada” no problema trazendo e mantendo crianças nas escolas, nem que para isso seja necessário abrir mão da qualidade do ensino. Assim, o quadro diagnosticado pelos professores, para os quais ministrei, é a diminuição do analfabetismo absoluto e o aumento gradativo do analfabetismo funcional, ou seja, temos um número crescente de pessoas que conhecem o alfabeto, conseguem até juntar as letras, mas têm dificuldade para interpretar textos relativamente fáceis.
Meu esforço diante da situação com a qual me deparei foi procurar dar uma injeção de ânimo, enfatizando sempre, sem deixar de falar da responsabilidade que o poder público tem de cumprir as atribuições que são de sua competência, o papel do professor como agente de transformação. Não sem razão, fiz uma introdução na primeira aula denunciando alguns inimigos que teríamos que vencer para dar o primeiro passo rumo a uma mudança significativa. Alguns desses adversários são: o ceticismo, o comodismo e o utilitarismo. O ceticismo que nos impede de acreditar que o outro pode mudar, nesse caso, o outro seria o “mau” aluno; que nós mesmos podemos mudar e que a realidade na qual estamos inseridos pode mudar por meio de uma intervenção social. O comodismo que nos impede de sair da nossa zona de conforto e nos envolver com causas relevantes. E, enfim, o utilitarismo que faz com que continuemos a dar aulas tendo como único propósito a sobrevivência., ou seja, a docência deixa de ser encarada como vocação e passa a ser percebida apenas como meio de obter uma renda que, por sinal, é bem defasada
Durante as aulas percebi olhares, antes opacos, começando a brilhar. Obtive boas respostas de alguns ouvintes ali, no entanto, grande parte permaneceu apática, talvez fazendo contas para saber quanto tempo ainda falta para a aposentadoria. A sensação que senti vendo essa apatia fez com que eu me colocasse no lugar dessas pessoas. Quantas vezes elas mesmas não receberam a apatia, ou coisa pior, como resposta dos seus alunos? Consigo compreender porque elas desistem, mas prefiro focar naquelas que mantém a esperança. A luz é o que me atrai, portanto, é o brilho do olhar de alguns que ali estavam que me faz acreditar que esse projeto ainda renderá bons frutos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Etnografia, Estudo de caso e História de vida: métodos de pesquisa mais utilizados pelos interpretativistas



Dando continuidade ao tema dos métodos qualitativos nas ciências sociais, posto aqui um resumo sobre algumas das abordagens mais comuns no âmbito de uma concepção interpretativista, são elas: a etnografia, o estudo de caso e a história de vida.
Etnografia: Caracteriza-se pelo trabalho de campo. O pesquisador se infiltra, por um longo período de tempo, no grupo ou comunidade que deseja estudar e por meio de uma prática “artesanal, microscópica e detalhista” (Peirano, 1995, p. 57) coleta os dados. Para a coleta, ele pode usar, entre outros recursos, o caderno de campo, no qual vai descrever minuciosamente os aspectos sociais, possíveis de serem apreendidos por ele, dentro do ambiente investigado; pode, também, fazer entrevistas em profundidade com membros representativos daquele grupo; e, ainda, integrar-se ativamente na cultura local, a fim de facilitar sua compreensão sobre os motivos das ações sociais típicas daquele contexto social. A abordagem etnográfica parte da premissa de dar voz aos atores sociais.

O estudo de caso: Segundo Laville e Dionne (1999), trata-se do “estudo de um caso, vez de uma pessoa, mas também de um grupo, de uma comunidade, de um meio, ou então fará referência a um acontecimento especial” (p. 155). Segundo estes autores, o estudo de caso tem a importante vantagem de possibilitar um aprofundamento, já que o pesquisador não tem que se preocupar com restrições provenientes da comparação do caso com outros casos. Todos os recursos estarão concentrados no caso visado. No decorrer da pesquisa, o pesquisador estará mais livre para usar a imaginação e a criatividade, podendo, se necessário, fazer adaptações dos seus instrumentos, modificar sua abordagem para melhor captar elementos imprevistos. O cientista é motivado pela pretensão de que o caso estudado seja representativo daquela realidade social. Nesse sentido, a partir dos resultados ele pode, então, fazer generalizações. Esse método não está restrito ao campo das metodologias qualitativas e nem ao âmbito das ciências sociais.
História de vida: Também chamada de narrativa de vida, pode ser definida, segundo Laville e Dione (idem) como a narração, por uma pessoa, da experiência vivida no contexto do fenômeno social que interessa ao pesquisador. A narrativa autobiográfica deve acontecer com uma interferência mínima do estudioso que, por sua vez, é guiado pelo problema que motivou a pesquisa. Além disso, algumas hipóteses, circunscritas em uma dada problemática podem ser úteis para direcionar o trabalho de escolha de um ou mais participantes. Entretanto, Laville e Dione ressaltam que o papel desses elementos, ainda que seja de extrema relevância, deve ser discreto. No momento da narrativa, a prioridade é a perspectiva do autor-participante, portanto, deve-se evitar toda intervenção que possa desviá-lo da trama. Aos dados coletados com a história de vida podem se somar, como forma de complementação, dados de entrevista mais estruturada, cujas questões se ligam diretamente às preocupações do pesquisador. Como no estudo de caso, os resultados podem ser generalizados. Aliás, a história de vida pode também ser considerada um estudo de caso.

Os métodos acima apresentados não são, de modo algum, excludentes, ao contrário, são comumente combinados em pesquisas de cunho qualitativo. Diante do que foi colocado, podemos perceber que, de um modo geral, as mudanças, ainda em curso, que atingiram a forma de produção do conhecimento no contexto das ciências sociais, trouxeram benefícios relevantes. Dentre os quais se destacam: uma maior liberdade do pesquisador para escolher quais métodos atendem melhor as demandas do seu trabalho e uma gradativa mudança de postura, no sentido de que a ciência tem deixado de ser um fim em si mesma, tornando-se mais humanizada.

Referências Bibliográficas:
LAVILLE, Christian; DIONNE, Jean. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Porto Alegre: Ed. UFMG, 1999.
MALINOWSKI, B. Os Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Perspectiva, 1978.
PEIRANO, Mariza. A Favor da Etnografia. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Quando a vida é uma droga



Entre os problemas que a sociedade contemporânea enfrenta ganha destaque o crescimento do número de pessoas que fazem uso não medicamentoso das drogas. Apesar de todas as políticas repressivas do Estado, dos discursos conservadores que aliam o problema da drogadição à fraqueza moral e todas as conseqüências ruins que os próprios consumidores experienciam na suas vidas e nas de outros usuários, os dados apontam um avanço alarmante que, para alguns estudiosos*, indicam que o problema tem assumido proporções epidêmicas, particularmente, no que diz respeito à rápida popularização do crack. Inicialmente usada por pessoas das camadas mais baixas por ser uma droga relativamente barata e potente, seu consumo tem aumentado entre pessoas das classes médias. Esse aumento é justificado pelo efeito que provoca, muito mas intenso do que a cocaína, a droga de efeito estimulante preferida dos jovens com mais recursos.
Se a “onda” que o crack promove é potente, sua capacidade de viciar também é poderosa, daí ser hoje  uma séria questão de saúde pública. No entanto, o número sempre crescente de dependentes revela que o problema não está sendo tratado de modo eficaz. Medidas repressivas e discursos moralizantes não surtem os resultados esperados, antes, constituem uma forma reducionista de lidar com a questão.
Ora, se o número de dependentes cresce, não podemos dizer que esse é um problema individual, ou seja, não devemos responsabilizar somente os indivíduos, como se a opção pelas drogas fosse uma escolha absolutamente pessoal. É pessoal, mas é também resultante de problemas estruturais. Alguns podem argumentar que seriam problemas estruturais quando o consumo está relacionado à pobreza, à ausência de perspectiva em decorrência dessa pobreza e que, portanto, indivíduos que não vivem sob essas condições fazem uma opção livre de qualquer pressão social externa. Todavia, quando falamos de problemas estruturais isso vai muito além da escassez material. Referimo-nos a uma sociedade em transição, com crise de paradigmas, perda de referenciais, aliando-se a isso, uma indução incessante ao consumo e ao prazer.
Estamos vivendo um tempo marcado pela frouxidão institucional. Família, escola, religião e trabalho perdem, gradativamente, sua força normativa e o indivíduo liberto da tutela destas instituições precisa encontrar novo sentido e novas formas de adequação social. Ele está entregue a si mesmo, isso traz como implicação a exigência de que “sou eu” sozinho que preciso encontrar significado para minha vida. Nos discursos reducionistas, sobre as causas que levam uma pessoa a se tornar um dependente químico, prevalece o argumento de que é  fraqueza,  desejo de fuga,  medo de encarar a realidade que impulsionam os indivíduos ao uso não medicamentoso das drogas.
Acredito, como afirmou o antropólogo Eduardo Viana Vargas (2006), que o que os usuários de fato buscam, ainda que modo equivocado, é justamente um modo de não desistir. Dessa forma, é como se as drogas conferissem, de certa maneira, uma razão para sua existência. Assim, políticas públicas que as percebem apenas de modo negativo não são capazes de atingir com eficiência o âmago do problema, ou seja, se a droga tornou-se um caminho para os dependentes, a função do Estado e da sociedade civil é mostrar caminhos melhores e, se eles são poucos, temos um grande trabalho de construção pela frente.

* Entre esses estudiosos o psiquiatra Sérgio de Paula Ramos In: http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=12382&cod_canal=41 VARGAS, Eduardo V. Uso de drogas: a alter-ação como evento. In: Rev. Antropol. vol.49 no.2 São Paulo July/Dec. 2006



sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Métodos Qualitativos nas Ciências Sociais: limites e possibilidades

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     A partir de Weber e outros pesquisadores influentes, como Malinowski (1978) e seu método etnográfico, vemos surgir, no campo das ciências sociais, uma infinidade de métodos e técnicas de pesquisa qualitativos que em grande parte dos casos se complementam. Uma das vantagens que a abordagem qualitativa apresenta é justamente a plasticidade que lhe é inerente. Enquanto os métodos e técnicas quantitativos transmitem uma impressão de engessamento, as metodologias qualitativas oferecem ao pesquisador uma sensação de liberdade que, por sua vez, traz como risco a possibilidade de displicência metodológica no decorrer da investigação. Esta liberdade é geralmente interpretada pelos críticos como falta de rigor científico.
               Howard Becker (1999) defende tal liberdade ao extremo, optando por um modelo artesanal de ciência. Para ele, todo pesquisador, a exemplo dos clássicos, Marx, Durkheim e Weber, deve ser também um metodólogo. Afirma que “os sociólogos deveriam se sentir livres para inventar os métodos capazes de resolver os problemas das pesquisas que estão fazendo” (p. 12). O trabalhador, produzindo suas teorias e seus métodos, contemplaria aspectos singulares e variações locais do fenômeno investigado que as metodologias sugeridas nos livros e nos manuais não conseguem captar por serem genéricas.
   O cerceamento da liberdade, pelos métodos quantitativos, tem como uma de suas características, o controle da intuição através da formalização. Nas metodologias qualitativas, contudo, a intuição ganha um papel central. Robert Nisbet (2000), ressaltando a importância da imaginação e da intuição na pesquisa sociológica, afirma que muitos dos procedimentos intelectuais da sociologia clássica aproximam o sociólogo mais do artista do que do cientista social preso a regras inflexíveis. Entretanto, aqueles que ainda acreditam ser possível a neutralidade e, consequentemente, a objetividade absoluta no processo de construção do conhecimento científico, interpretam como falhas imperdoáveis o que foi apresentado até aqui como as vantagens oferecidas pelas metodologias qualitativas.
     Segundo Melucci (2005), as ciências sociais abandonaram uma perspectiva metodológica monista, própria das ciências naturais, e se abriram para uma concepção pluralista. No entanto, essa abertura não ocorreu sem dificuldades. E, apesar do êxito que a pesquisa qualitativa tem alcançado, não faltam críticas que colocam sob suspeita sua validade científica. As críticas mais contundentes são: falta de representatividade, predominância da subjetividade no processo investigativo e falta de critérios rígidos na coleta e análise dos dados.
             O problema da representatividade seria decorrente daquilo que Weber (1981) indica como uma prerrogativa da perspectiva interpretativista. Segundo ele:
[...]todo conhecimento reflexivo da realidade infinita realizado pelo espírito humano finito baseia-se na premissa tácita de que apenas um fragmento limitado dessa realidade poderá constituir de cada vez o objeto da compreensão científica, e de que só ele será “essencial” no sentido de “digno de ser conhecido” (idem, p. 88).

               A crítica se fundamenta no fato de que a pesquisa qualitativa, necessariamente, trabalha com unidades sociais. Ela precisa escolher um fragmento da realidade como sendo representativo dessa realidade. A questão é: Como saber se o fragmento escolhido tipifica bem o fenômeno social que o pesquisador busca compreender? Vinculada a esta questão está a dúvida sobre a possibilidade de generalização. Sem a certeza de que o fragmento da realidade seja representativo, consequentemente, a validade da interpretação fica comprometida. Ora, sem a possibilidade, mínima que seja, de generalização o trabalho não tem valor científico.
           O segundo problema, que não está de forma alguma separado do primeiro, seria a predominância da subjetividade no processo investigativo. A proximidade do sujeito epistêmico com seu objeto comprometeria todo o processo de pesquisa, desde a escolha da unidade que seria representativa do todo, até a análise dos dados. Embora o debate acerca da neutralidade e da objetividade esteja ganhando a alcunha de ultrapassado, o excesso de liberdade promovido pelas metodologias qualitativas poria em xeque o valor científico do conhecimento produzido com seus métodos e técnicas. Para os críticos mais dogmáticos, tal conhecimento não seria nada além de especulação.
                 Por fim, os críticos apontam a falta de critérios rígidos na coleta e na análise dos dados. Desse modo, ao mesmo tempo em que a pesquisa qualitativa permite um aprofundamento por meio da imersão do pesquisador na realidade que ele deseja compreender, esse aprofundamento é sempre limitado, já que ele deve escolher entre os inúmeros aspectos sociais, daquela realidade, aqueles que seriam mais relevantes para sua análise. Como os critérios dessa escolha são subjetivos, isso poderia acarretar num enviesamento do trabalho. Além disso, esse tipo de pesquisa gera uma grande profusão de dados, o que dificultaria a sistematização e análise dos mesmos.
               Tendo em vista todas as críticas e problemas apontados, não podemos, em defesa da pesquisa qualitativa, incorrer no erro ingênuo de acreditar que existam métodos infalíveis e que seria possível alcançar verdades absolutas, especialmente no contexto das ações e relações sociais. Como foi colocado, o objeto de investigação da sociologia é complexo e dinâmico e é, precisamente, a complexidade do objeto que demanda uma diversidade de métodos. Entretanto, tal diversidade redunda em um relativismo para o qual, de acordo com Melucci (2005), não existe saída absoluta.
                 Se os defensores das metodologias qualitativas são recorrentemente confrontados com os limites desse tipo de abordagem, recebem também, em grande medida, incentivos oriundos das possibilidades que elas apresentam. Além das vantagens, expostas em tópicos anteriores, vale ressaltar que, de forma distinta daqueles que têm a pretensão de fazer uma ciência pura e, desse modo, é a própria ciência que tem a primazia, a abordagem qualitativa prioriza os indivíduos e suas relações. A mudança paradigmática epistemológica/metodológica veio acompanhada de uma gradativa mudança de postura do cientista social.

Referências bibliográficas:


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DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Nacional, 1995, p. 30-37.
FREUND, Julien. A sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Forense –Universitária, 1980.
GEERTZ, Clifford. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis:Vozes, 1998.
______. Das religiões, Folha de São Paulo, 14/05/2006.
BECKER, Howard S. Métodos de pesquisa em Ciências Sociais. São Paulo: Hucitec, 1999.
LAVILLE, Christian; DIONNE, Jean. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Porto Alegre: Ed. UFMG, 1999.
MALINOWSKI, B. Os Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo: Perspectiva, 1978.
MELUCCI, Alberto. Por uma sociologia reflexiva: pesquisa qualitativa e cultura. Petrópolis: Vozes, 2005.
MINAYO, M.C.S; SANCHES, O. Quantitativo-qualitativo:oposição ou complementaridade? Cad. Saúde Pública. Rio de Janeiro, 9(3), p. 239-262, 1993.
NISBET, A. Robert. A sociologia como uma forma de arte. In: Revista Plural. São Paulo: 7, USP, p. 111-130, 1º sem/2000.
PEIRANO, Mariza. A Favor da Etnografia. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 15 ed. São Paulo: Pioneira, 2000.
______. Economia e Sociedade. Fundamentos da sociologia compreensiva. Vol. I. Brasília: Ed. Unb, 1991
______. A “objetividade” do conhecimento nas ciências sociais. In: COHN, Gabriel (org.) Weber – Sociologia. Coleção Grandes cientistas sociais. São Paulo: Ática, 1986.